Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

sexta-feira, setembro 22, 2017

"Esporte sofre com a falta de projetos de longo prazo", afirma Bernardinho

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"Esporte sofre com a falta de projetos de longo prazo", afirma Bernardinho   Leo Munhoz/Diário Catarinense
Para Bernardinho, todas as modalidades esportivas passam por momento de dificuldade
Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

Mais profissionalismo, gestão, projetos de longo prazo. É o que defende o ex-técnico da seleção brasileira de voleibol Bernardo Rocha de Resende, o Bernardinho, para que o vôlei de Santa Catarina volte a brilhar no cenário nacional. Antes de palestrar em evento da CDL Florianópolis, no Centrosul, na noite desta quinta-feira, o agora empresário que tem dedicado mais tempo para a família, como faz questão de dizer, salienta que todos os esportes vivem um momento difícil. 
— Acho que enquanto não tivermos projetos, no que diz respeito a planos de longo prazo, a formas de você atrair efetivamente e criar condições para que os empresários possam estar mais ligados a isso, um profissionalismo maior, plano de ação mais efetivo, nós vamos sempre viver de fases. Alguém vem, abraça um projeto, caso da Cimed aqui em Floripa, que foi sucesso. O empresário, por alguma estratégia de marketing, vai embora — diz.
A Cimed foi a última equipe masculina de Santa Catarina a disputar a Superliga. A derradeira temporada foi a de 2012/2013. O projeto comandado pelo hoje técnico da seleção brasileira Renan Dal Zotto teve sustentação por sete anos. Nesse período chegou a cinco decisões nacionais e conquistou quatro títulos, além de um Sul-Americano. Atualmente, a equipe feminina de Rio do Sul é a representante de Santa Catarina na Superliga. Muito pouco para um Estado que já foi a casa de atletas olímpicos e por anos referência na modalidade.
Bernardinho frisa que a situação em Santa Catarina não é diferente de outros Estados, e citou o caso da equipe do Rio de Janeiro, que perdeu o principal patrocinador após 20 anos. Ele entende que a crise leva a corte de verbas, mas crítica a forma como o esporte é tratado, principalmente pelo poder público. 
— Apenas demonstra o quão não prioritário é o esporte na cabeça dessas pessoas. Eles não veem o esporte como elemento de transformação, de educação. Eles veem como um momento de interesse, vamos lá e carregamos a bandeira do Brasil, como se não fosse necessário o investimento permanente — reclama.
Para Bernardinho, soou o sinal de alerta o fato de as seleções de base do Brasil não terem conquistado medalhas este ano. Gerações podem ser perdidas sem a devida atenção, sem investimentos.
— Precisamos de mais eficiência na gestão esportiva, nas confederações, em federações. Isso de uma certa forma é um complicador para o desenvolvimento do esporte. E com a pouca eficiência desses entes, desses dirigentes, torna-se mais difícil a captação de recursos — analisa.  
Saudades do trabalho na seleção
Longe da seleção brasileira desde o início do ano, Bernardinho disse que sente falta do ambiente da equipe, dos treinamentos, dos jogos, mas não pensa em voltar. Elogiou o trabalho do sucessor e os atletas. Para ele, não é uma geração tão talentosa quanto a passada, mas tem capacidade de resiliência e vontade de vencer.
— A seleção está 100%. O ciclo começou muito bem, com a confiança e a moral de uma medalha no Brasil, com pessoas lúcidas e que sabem o que tem de ser feito — enfatiza.
Bernardinho salienta que se pudesse faria tudo de novo na seleção, mesmo sabendo que a dedicação ao esporte lhe tiraria momentos em família, como acompanhar o crescimento dos filhos. 
— Eu fazia aquilo que eu amava. Não é porque nós ganhamos o ouro ou fomos tantas vezes campeões, sabe o que me faz falta? Não é a final. Renan, que agora é o treinador, disse "você vem aqui e vai treinar a seleção de segunda a sexta, eu vou lá dirigir no jogo". Fechado. Não vou nem dar entrevistas. Vou ficar treinando o time. Isso é o que me move. Essa é minha paixão — resume.
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Professor de Harvard ensina a ser feliz

Conhecido por dar as aulas mais concorridas da Universidade Harvard, o israelense Tal Ben-Shahar conta como ajuda os alunos a ser mais realizados


Por Anna Carolina Rodrigues

O professor de Harvard, Tal Ben-Shahar
O professor Tal Ben-Shahar: “A felicidade não é estática. É um processo que termina apenas com a morte” (Divulgação)

São Paulo – Os cursos mais populares da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, não ensinam medicina nem direito, mas felicidade. No ano passado, mais de 1000 alunos se inscreveram para assistir às aulas do professor Tal Ben-Shahar, que usa um ramo da psicologia para ajudar os estudantes de graduação na busca da realização pessoal.

Na primeira vez que ministrou o curso, há dez anos, oito pessoas se inscreveram. A fama cresceu e, embora os alunos façam trabalhos, não recebem notas, mas algo mais pessoal. “Eles falam que a aula muda a vida deles”, diz Tal. Nesta entrevista, ele mostra como encontrar satisfação profissional e pessoal.
VOCÊ S/A – Aulas que têm como enfoque otimismo e felicidade não são algo comum em uma universidade tradicional como Harvard. Por que criou o curso?
Tal Ben-Shahar – Comecei a estudar psicologia positiva e a ciência da felicidade porque me sentia infeliz. No meu segundo ano de estudante em Harvard, quando cursava ciência da computação, eu era bem-sucedido, pois tinha boas notas e tempo para atividades que me davam prazer, como jogar squash. Mesmo assim era infeliz.
Para entender por que, mudei de área e fui cursar filosofia e psicologia. Meu objetivo era responder a duas perguntas: por que estou triste e como posso ficar feliz? Estudar isso me ajudou, e decidi compartilhar o que aprendi.
VOCÊ S/A – Uma pesquisa de doutorado feita no Brasil revela visões diferentes do que é ser bem-sucedido, que vão além de dinheiro e poder. As pessoas buscam algo mais profundo?
Tal Ben-Shahar – Sucesso não traz, necessariamente, felicidade. Ter dinheiro ou ser famoso só nos faz ter faíscas de alegria. A definição de sucesso para as gerações mais novas mudou. Não é que as pessoas não busquem dinheiro e poder, mas há outros incentivos.
No passado, sucesso era definido de maneira restrita, e as pessoas ficavam numa empresa até a aposentadoria. Agora, há uma ânsia por ascender no trabalho, ter equilíbrio na vida pessoal e encontrar um propósito.
VOCÊ S/A – Qual a principal lição sobre a felicidade o senhor aprendeu? 
O que realmente interfere na felicidade é o tempo que passamos com pessoas que são importantes para nós, como amigos e familiares — mas só se você estiver por inteiro: não adianta ficar no celular quando se encontrar com quem você ama. Hoje, muita gente prioriza o trabalho em vez dos relacionamentos, e isso aumenta a infelicidade.
VOCÊ S/A – Descobrir para onde queremos ir seria a grande questão?
Muita gente não sabe o que pretende da vida simplesmente porque nunca pensou sobre o assunto. As pessoas vivem no piloto automático. Ouvem de alguém que deveriam ser advogado ou médico, e acreditam em vez de se perguntar do que gostam. Essa é a questão fundamental.
VOCÊ S/A – Como aplicar as diretrizes da psicologia positiva no dia a dia do trabalho?
Uma maneira é pensar nos progressos diários que um profissional alcança no fim de cada dia. Segundo uma pesquisa de Teresa Amabile, professora de administração da Harvard Business School, quem faz isso tem índices mais altos de satisfação e é mais produtivo.
Deve-se também valorizar os próprios pontos fortes e, no caso dos chefes, os pontos fortes das pessoas da equipe, o que aumenta a eficiência dos times. Isso não significa deixar de lado as fraquezas, que devem ser gerenciadas. Apenas que a maior parte da energia precisa ser gasta fortalecendo os pontos fortes ao máximo.
VOCÊ S/A – Dá para fazer isso mesmo em momentos de crise ou de baixo desempenho?
Sim, desde que os profissionais sejam realistas. Em 2000, quando Jack Welch­ (ex-presidente da GE e referência em gestão) foi nomeado o gerente do século pela revista Fortune, perguntaram que conselho ele daria a outros gerentes. A resposta foi: aprendam a encarar a realidade.
O mesmo se aplica nesse caso. A psicologia positiva não defende que os erros e os pontos fracos sejam ignorados. Apenas propõe uma mudança de foco: parar de enxergar só o que vai mal e ver o que dá certo — mesmo nas crises. A proposta é observar o quadro completo da realidade.
VOCÊ S/A – Qual sua opinião sobre o discurso de que basta fazer o que ama para encontrar satisfação profissional?
Isso pode ser a solução para alguns. Na maioria dos lugares e trabalhos, é possível identificar aspectos significativos para cada pessoa. Uma pesquisa feita com profissionais que trabalham em hospitais mostrou que tanto no caso de médicos quanto de enfermeiros e auxiliares havia profissionais que enxergavam o trabalho como um chamado e outros que o viam apenas como um emprego.
Em outras palavras, o foco que damos ao trabalho acaba sendo mais importante do que a natureza dele. Alguém que é funcionário de um banco pode pensar que trabalha com planilhas o dia todo ou que está ajudando as pessoas a gerenciar sua vida.
VOCÊ S/A – O jornalista britânico Oliver Burkeman defende que não se deve buscar felicidade, mas o equilíbrio, pois ninguém pode ser feliz sempre. O que acha disso?
Concordo. A primeira lição que dou na minha aula é que nós precisamos nos conceder a permissão de sermos seres humanos. Isso significa vivenciar emoções dolorosas, como raiva, tristeza e decepção. Temos dificuldade de aceitar que todo mundo sente essas emoções às vezes. Não aceitar isso leva à frustração e à infelicidade.
VOCÊ S/A – O senhor é feliz? 
Eu me considero mais feliz hoje do que há 20 anos e creio que serei ainda mais feliz daqui a cinco anos. A felicidade não é estática. É um processo que termina apenas com a morte. Encontrei significado em meu trabalho e faço o que me dá prazer, mesmo tendo, como todo mundo, momentos de estresse e sofrimento — esse é o equilíbrio que todo profissional deve almejar.
Mas também procuro desfrutar de coisas fora do mundo do trabalho: passar tempo com minha família, com meus amigos e encontrar um espaço na agenda para a ioga. Tudo com moderação.

Clubes sazonais e salários mínimos: a realidade do jogador de futebol no RN

Quase 70% dos atletas no estado recebem até dois salários mínimos nos clubes potiguares e sofrem com desemprego por falta de calendário. Fenapaf quer ampliar calendário


Por Leonardo Erys e Hugo Monte, Natal

"Desilusão Futebol Clube" mostra cenário de carreira de jogadores potiguares
O atacante Joan, de 24 anos, viveu boa parte da sua carreira nas categorias de base do ABC. Mesmo com bom retrospecto no sub-17 e sub-20, deixou o clube na fase de transição para o profissional. Desde então, ele vive como andarilho no mundo da bola. Nestes cinco anos seguintes, passou por clubes como Porto-PE, Hercílio Luz-SC, Atlético Potengi-RN e, por último, Assu - todos sem a perspectiva de um contrato mais longo e com salários pouco atraentes. Há cinco meses, ele está desempregado - mais precisamente desde o final do Campeonato Potiguar. Joan é um retrato do jogador potiguar sazonal: atua um período do ano por um clube pequeno, com baixo salário, e não sabe se terá emprego no restante dele.

Último clube de Joan foi o Assu (Foto: Hugo Monte/GloboEsporte.com)
Último clube de Joan foi o Assu (Foto: Hugo Monte/GloboEsporte.com)

Como o atacante, outros tantos jogadores no Rio Grande do Norte vivem essa situação na carreira. Quase 70% dos atletas que atuaram no Campeonato Potiguar deste ano recebiam até dois salários mínimos como renda (R$ 1.874), segundo levantamento do Sindicato dos Atletas de Futebol Profissional do Estado do Rio Grande do Norte (Safern). Os dados, inclusive, foram utilizados pelo ex-jogador Robson "Capitão", ídolo do América-RN e hoje diretor financeiro da Safern, no trabalho de conclusão do curso de Educação Física. Alguns desses casos foram retratados na série Desilusão Futebol Clube, do Globo Esporte RN e do GloboEsporte.com.


Desilusão Futebol Clube


- A gente vê muito na mídia esses holofotes em cima dos grandes campeonatos, dos atletas renomados, os grandes destaques, e aí é onde traz a ilusão na cabeça de muitas pessoas, que vão imaginar que todo atleta de futebol é bem sucedido, tem o seu lado financeiro privilegiado. Que no momento que encerrar a carreira, ele pode ter qualquer outro afazer que ele está seguro. E a realidade não é essa. A realidade é que aqueles que, por ventura, mantenham de 10 a 15 ou até mais anos de profissão conseguem esse aporte financeiro e, na sequência, tem que buscar alguma solução. Seja em outro trabalho, seja se qualificando para estar preparado pra situações adversas - destaca Robson.

Em meio a essa crise, Joan criou um meio alternativo de manter uma renda: ele tem uma loja online em que vende produtos como celulares, relógios, perfumes, entre outros itens. Enquanto fica sem jogar, ele se dedica ao empreendimento particular.

Robson fez levantamento dos jogadores que disputaram o Estadual (Foto: Hugo Monte/GloboEsporte.com) 
Robson fez levantamento dos jogadores que disputaram o Estadual (Foto: Hugo Monte/GloboEsporte.com)

- Há mais de um ano venho vendendo e agora o negócio está mais sério, mais firme, mais efetivo. Tenho um projeto de também abrir uma loja tanto aqui em Natal, no interior, ou em outros locais. É uma renda a mais para quando eu não esteja jogando ter algo que possa me sustentar - disse o jogador.

Joan tem o privilégio de fazer parte de um grupo de 38,75% dos jogadores que concluíram o ensino médio, realidade diferente de 54,84% dos atletas que disputaram o Estadual deste ano - desses, 24,43% sequer concluíram o primeiro grau.

- A gente constatou que, em algumas variáveis, principalmente a sócio-econômica e a questão de escolaridade, até pelo tempo desprendido para prática de atividades esportivas, ele (o futebol) não oferece essa condição de você estudar e trabalhar - avalia Robson.


Joan criou loja para enfrentar o desemprego (Foto: Hugo Monte/GloboEsporte.com) 
Joan criou loja para enfrentar o desemprego (Foto: Hugo Monte/GloboEsporte.com)

Um dado levantado por Robson é de que 20% dos atletas sequer tiveram a Carteira de Trabalho e Previdência Social assinada pelos clubes no Estadual.
- É um direito do trabalhador. De qualquer trabalhador, seja do futebol ou de qualquer outra profissão. Então, é um direito porque ali você está amparado em caso de alguma eventualidade, de alguma contusão e assim por diante. Então essa foi uma das surpresas - disse o ex-jogador.

Fenapaf quer melhora do calendário

O Brasil tem cerca de 660 clubes de futebol profissional em atividade, segundo a Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf), para um total de 18 mil atletas. Com o fim da Série D e a proximidade do encerramento da Série C, o mês de outubro começará, no entanto, com apenas 40 desses clubes em plena atividade no Brasil. Isto é: algo em torno de 6% do total das equipes têm calendário do início ao fim do ano.
Para o presidente da Fenapaf, Felipe Augusto Leite, é fundamental que o calendário seja alterado para que mais jogadores possam estar empregados a esta altura da temporada.
- Esse assunto já foi levado à CBF por nós da Fenapaf. Foi aberto o diálogo sobre a extensão da Série C até pelo menos o final de novembro para que os atletas ganhem mais 45 dias de emprego. Foi levado o assunto da Série D, que é um assunto muito grave, muito complexo, porque a Série D, dos 68 clubes, 36 já ficam alijados da competição no final de junho, isto é, no meio do ano - destaca.


Felipe Augusto Leite busca calendário mais longos em divisões inferiores (Foto: Jocaff Souza/GloboEsporte.com) 
Felipe Augusto Leite busca calendário mais longos em divisões inferiores (Foto: Jocaff Souza/GloboEsporte.com)

Para o dirigente, a realidade atual é contrastante com o que é visto nos grandes clubes e com os grandes jogadores brasileiros. Ele explica que a realidade de atletas como Neymar e Lucas, ambos do PSG, que ganham salários astronômicos, representa 1% do total dos jogadores brasileiros.
- A realidade do Brasil é de que a grande maioria é desempregada a partir do mês de abril. Ainda assim, neste período que eles trabalham, eles só ganham um salário mínimo. E, evidentemente, você passar, de 12 meses, nove desempregado, isso faz com que você se desiluda com essa profissão, com essa carreira. Você precisa ter sua vida independente, ter família, criação de filhos, educação e todo um aparato que faz com que você tenha uma vida em sociedade. É por isso que nós encontramos tanto desemprego. Os atletas não estão educados pra exercer uma profissão digna e o sistema não está dando emprego para amparar toda a categoria. E é daí que eu tenho certeza que há toda essa grande desilusão e essa fuga do sonho de ser um atleta profissional de futebol - conta.

Outro cenário

A opinião do presidente da Fenapaf é compartilhada pelo atacante Joan, que é refém dessa falta de calendário extenso atualmente. O jogador, inclusive, já passou mais de um ano sem atuar até acertar com o Potengi para a segunda divisão do estadual de 2016.
- Eu acho mais pela falta de organização e planejamento da nossa confederação. Ela que não tem o planejamento a longo prazo, extenso, para a quantidade de clubes que existe no país - acredita o jogador.


Joan passou pelas categorias de base do ABC (Foto: Hugo Monte/GloboEsporte.com) 
Joan passou pelas categorias de base do ABC (Foto: Hugo Monte/GloboEsporte.com)

Joan já passou pelo futebol espanhol e viu outro cenário pelo país ibérico. Lá, a quarta divisão nacional é formada por 364 clubes divididos em 18 grupos, que mantém as equipes atuando durante todo o calendário, assim como a terceira divisão, que conta com 80 clubes divididos em quatro grupos.

- Você consegue ter um calendário de setembro a junho sem interrupção e o jogador fica empregado o ano todo. Aqui no Brasil, tem jogador que joga de metade de janeiro talvez a abril. E, quem não se classifica para as finais do estadual, em abril já está fora do mercado e passa o restante do ano sem ter uma renda fixa para família e tem que procurar outros afazeres - lamenta.

Período inativo atrapalha

Joan é filho do ex-jogador Barata, com passagens marcantes por ABC, Fluminense e Tenerife (Espanha). Ele acredita, no entanto, que o parentesco não tem tanta influência, já que hoje, por exemplo, está desempregado. Com passagens pelas categorias de base do Atlético-PR e Rayo Vallecano (Espanha), o jogador conta que já chegou a desistir do futebol.

- A gente sabe que quanto mais tempo você perde, mais difícil é encontrar um clube. Eu, que vinha de uma batida boa, de uma base boa, de ir para grandes clubes do Brasil e fora também. De repente eu, por questões até emocionais, não sei explicar, eu desmotivei, parei. E quando tentei voltar, eu tive a lesão também, passei quase um ano inteiro sem atuar. É difícil para você voltar, mesmo que você já tenha feito alguma coisa, mesmo que você tenha influência, mas não influencia tanto como a que eu tenho - admite o jogador.

Esse período sem atuar não é exclusividade de Joan. O ex-zagueiro Robson acredita que, com a redução dos estaduais e o foco nos campeonatos nacionais, mais jogadores passam a viver essa realidade. Sem estudo suficiente, muitos acabam convivendo com o desemprego.


Ex-zagueiro acredita que divulgação dos dados é importante para evolução do tema  (Foto: Hugo Monte/GloboEsporte.com) 
Ex-zagueiro acredita que divulgação dos dados é importante para evolução do tema (Foto: Hugo Monte/GloboEsporte.com)

- Muitas pessoas que vivem no meio do futebol sabem que existe isso, mas a gente precisa formalizar isso, mostrar para a sociedade através de divulgação, de trabalhos acadêmicos, através da mídia, para que as pessoas tenham a consciência e os gestores responsáveis, das entidades responsáveis, possam formar ideias, possam criar ideais, possam criar soluções. Que possam ser criados projetos visando esse lado social - destaca.
Enquanto mantém a atividade paralela com a venda de produtos em uma loja virtual, Joan ainda sonha com o retorno ao futebol. Aos 24 anos, ele acredita que ainda há tempo para construir uma carreira vitoriosa.
- O futebol é uma bola. E, um segundo que você está ali, a bola bate em você e você faz o gol do título, você vai para um time grande e muda sua vida. Eu estou com 24 anos, muita gente acha que é tarde, mas claro que não. Antigamente você começava a jogar com 23, 24. Dificilmente você via um jogador com 16, 17 anos num profissional. Então, ainda dá tempo. Eu tenho mais 10 anos (de carreira). Se eu me cuidar, 15, até os 40, 42 anos. O biotipo é bom. Então, se eu quiser mesmo, eu chego - concluiu.
Números da pesquisa de Robson

147 jogadores entrevistados dos oito clubes do Campeonato Estadual.

54% não concluiu o ensino médio; 24% não concluiu o primeiro grau.

83% têm até 30 anos.

85% têm pelo menos um dependente no futebol.

39% têm filhos.

20% não tiveram carteira assinada.

70% recebem até dois salários mínimos; 21% recebem o mínimo.


quarta-feira, setembro 20, 2017

São Paulo e Real Madrid vivem mundos opostos, diz Marketing e Economia da Bola

POR  

Essa semana circularam duas notícias que mostram claramente a realidade do futebol brasileiro na comparação com o que ocorre na Europa.

A marca norte-americana Under Armour decidiu rescindir o contrato de patrocínio com o São Paulo.

Na mesma semana foi divulgado o novo contrato bilionário do Real Madrid com seu parceiro de material esportivo, a adidas.

O tricolor do Morumbi vai perder o apoio de uma das marcas que mais crescem no mundo do esporte. O atual patrocinador do clube que pagava cerca de R$ 16 milhões por ano em dinheiro e outros R$ 12 milhões em material esportivo está decepcionado com as vendas de camisas do time.

Ao que parece a conta não fecha.

A empresa americana fatura mais de US$ 5 bilhões globalmente e cresceu demais. Seu faturamento em 2010 era de apenas US$ 1 bilhão.

Acredito que além da baixa venda de camisas, que pode ser explicado pelo péssimo momento esportivo do time, a desorganização do clube e a falta de gestão profissional pode ter acelerado a decisão em deixar o clube.

Afinal uma empresa dessa não ia abandoar seu maior investimento assim.

É sempre bom lembrar que o SPFC é a terceira maior torcida do Brasil e tem forte participação em todas as classes sociais e faixas etárias.

Entre os torcedores mais ricos do país, o clube inclusive se aproxima do número de torcedores que Flamengo e Corinthians tem.

Parece que a decisão da empresa está muito mais associada ao baixo nível de gestão são-paulina, que qualquer outro fator.

Já em Madrid as coisas são bem diferentes. As notícias sobre o novo contrato entre Real Madrid e adidas falam de um contrato global de 1,5 bilhão de euros em 10 anos, o que garantiria para o atual bicampeão da Champions League 150 milhões de euros  anuais.

Similar ao que a Nike paga ao Barcelona.

Ao que parece os valores subiram em função do interesse da Nike e da própria Under Armour de vestirem o Real.

Enquanto o São Paulo não gera interesse, o Real fatura alto com a disputa entre as concorrentes globais de material esportivo.

Um claro sinal da fraqueza do nosso mercado.

As marcas de material esportivo ou technical sponsor, são fundamentais para o desenvolvimento de clubes em todos os mercados do planeta.

Marcas como Nike, adidas, Puma, Under Armour, New Balance, utilizam clubes europeus como plataformas globais para seus negócios. E pagam caro para explorar essa relação.

A decisão da Under Armour em rescindir com o São Paulo é um péssimo sinal para todo o mercado.

São Paulo está muito atrás de seus rivais

A comparação do São Paulo com o Real Madrid é impossível, já que o time espanhol é um gigante global que fatura mais de R$ 1 bilhão em receitas de marketing. Mas mesmo entre os times brasileiros o tricolor está mal, muito mal.

Segundo meu estudo sobre as finanças dos clubes brasileiros em 2016, o São Paulo faturou R$ 35,3 milhões com patrocínios, pouco à frente do Internacional. 

Ficou atrás do Grêmio que faturou R$ 35,5 milhões, Flamengo 63,4 milhões, Corinthians R$ 71,4 milhões e Palmeiras R$ 90,7 milhões.

Em 2015, as receitas de patrocínio do clube do Morumbi foram de insignificantes R$ 19,9 milhões. Em 2012 chegaram ao fundo do poço, quando atingiram ridículos R$ 11,1 milhões.

Naquele ano foi apenas o 12º do país.

SPFC- Patrocinios

O clube tem uma péssima gestão de sua marca, viveu anos de patrocínios pontuais e sem o apoio de empresas que pudessem construir uma nova realidade mercadológica.

O tricolor parou no tempo e hoje vive esse drama de ser preterido por uma empresa estrangeira, que via na relação com o clube o seu crescimento no Brasil.


O clube tem um potencial mercadológico enorme, mas precisa de um departamento de marketing competente e uma gestão muito mais profissional que a atual.