Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

terça-feira, janeiro 17, 2017

O futebol na maior economia do mundo

Por: Carlos Pereira, 
Sócio-diretor da Campo de Ideias, consultoria em marketing esportivo. Profissional formado em Publicidade pela Universidade Metodista de São Paulo e MBA em Negócios do Esporte pela ESPM. Possui uma visão ampla sobre as potencialidades e fraquezas de cada parte envolvida na área, pela experiência adquirida em diferentes setores, atuando em empresas de consumo, pesquisa, eventos, consultoria e clube de futebol. 

Ao falarmos sobre cases de sucesso no mundo do marketing esportivo que englobe todas as partes envolvidas, nomeadamente fãs, marcas, atletas, times, ligas, eventos e mídia, obrigatoriamente falamos do esporte norte-americano e do enorme sucesso de ligas como a NBA, a NFL, a MLB e a NHL. Não se trata apenas de um jogo de basquete, futebol americano, beisebol ou hóquei, mas sim de verdadeiros espetáculos que exploram, na máxima conotação da palavra, tudo o que possa ser extraído.
Esse fenômeno não ocorreu historicamente com o futebol na mesma intensidade. Muito por conta da cultura esportiva do país, acostumada a ter sempre um vencedor e jogos com placares elevados. O futebol, nesse aspecto, pode sofrer resistência e ser considerado um jogo tedioso, onde é possível passar 90 minutos sem que o momento máximo, o gol, simplesmente não aconteça.
Algumas tentativas de popularização do esporte foram feitas ao longo dos tempos. A primeira mais notável, sem dúvida, ocorreu durante a década de 70, quando houve a criação da NASL (North America Soccer League) e a chegada de uma constelação de grandes craques consagrados, muitos em final de carreira, que desembarcaram para desbravar esse terreno fértil. Verdadeiras celebridades como Pelé, Beckenbauer, Cruyff, Carlos Alberto Torres e Eusébio emprestaram a sua magia em troca de cifras que muitos ainda não tinham conquistado ao longo de suas brilhantes carreiras.  Não podemos dizer que foi um fracasso, pois a repercussão foi gigantesca. Porém, não perdurou e a NASL foi extinta em 1984.
Após mais de uma década sem uma liga profissional, a Major League Soccer foi criada em 1996, como forma de cumprir a promessa feita à FIFA durante a escolha do país como sede da Copa do Mundo de 94. Durante essas últimas duas décadas, tivemos momentos de maior euforia e outros onde imaginou-se que o futebol voltaria ao amadorismo da década de 80. Algumas mudanças de regras foram testadas dentro de campo com o objetivo de agradar ao público acostumado com os esportes mais populares do país, mas não foram suficientes para trazer uma massa de fãs compatível com as expectativas. Logo, foram deixadas de lado e as regras adotadas fora de campo é que começaram a surtir efeito. 

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O modelo de negócio da MLS merece ser avaliado com atenção. Para os americanos, estamos falando de negócio e, nesse aspecto, eles são imbatíveis. Ao contrário do que foi apresentado no texto da semana passada sobre a China, a MLS preza por um controle bastante rigoroso sobre os gastos. Os investimentos crescem conforme as receitas aumentam, há um total equilíbrio nessa equação.
O grande motivo para que esse controle ocorra é o fato dos clubes, ou melhor dizendo, das franquias, serem sócias da liga, não meramente participantes. Diferente do que acontece no Brasil e também nas grandes ligas europeias, os clubes não são associações sem fins lucrativos ou caprichos de grandes bilionários. São empresas e, como empresas no maior país capitalista do mundo, são geridas para garantir lucro aos seus investidores.
Outra diferença existente em comparação com o Brasil e as ligas europeias é que lá não existe divisões de acesso. As franquias participam do campeonato sem o risco de rebaixamento, fazendo parte de um grupo fechado, como ocorre com as grandes ligas americanas em outros esportes. Em 2016, foram 20 times participantes e o plano de expansão prevê um total de 28 times até 2020.
Para possibilitar o máximo equilíbrio técnico entre as equipes, a MLS realiza o draft para a seleção de novos atletas a cada nova temporada. As equipes com pior desempenho possuem as melhores opções de escolha. Por ano, cada franquia pode gastar US$ 3,66 milhões, valores modestos se compararmos com o que acontece mundo afora. Além disso, cada equipe pode contratar até 3 jogadores chamados "Designated Player", patamar que se enquadram as grandes estrelas do futebol mundial que ganham o valor máximo de US$ 457.500 por mês. São esses jogadores designados que ajudam a divulgar a liga, tanto para o aumento do interesse do público interno, como também para que o mundo enxergue o potencial do futebol nesse mercado.
Essa regra de jogador designado surgiu há dez anos atrás com a chegada do inglês David Beckham ao Los Angeles Galaxy e a liga optou por aumentar o limite para três jogadores ao obter resultados satisfatórios em seu planejamento. De lá para cá, outras grandes estrelas chegaram aos EUA, como Thierry Henry, Pirlo, Drogba, David Villa, Steven Gerrard e o brasileiro Kaká.
O sucesso tem acontecido de forma gradual. Hoje a MLS conta com grandes marcas patrocinadoras. Empresas do porte de Adidas, AT&T, Audi, Coca- Cola, EA Sports, Heineken, Etihad e Johnson & Johnson fazem parte dessa lista. As audiências crescem ano a ano, com os jogos transmitidos pela FOX, ESPN e Univision, além de transmissão internacional para 140 países. Hoje alcança mais de 30 milhões de seguidores em sua audiência televisiva, com crescimento acima de 25% ao ano, atingindo o público mais desejado pelos anunciantes, com idade entre 18 e 34 anos. A presença de torcedores no estádio também está em evolução, sendo hoje a 7º liga do mundo com maior média de público, acima de 21.500 torcedores por jogo.
É notável o avanço técnico do futebol norte-americano, comprovado pelo fortalecimento da seleção nacional que conquistou respeito nas últimas duas décadas após a realização da Copa do Mundo de 94, em seu território. Se ainda não faz parte do primeiro grupo de elite de seleções globais, também não podemos dizer que trata-se de um mero figurante nas competições que participa.
Não causará espanto se a MLS tornar-se uma liga tão forte como as principais europeias, bem como ver a seleção americana chegar ao topo nas próximas décadas. Nada disso será fruto do acaso.
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quinta-feira, janeiro 05, 2017

Por sonho de presidente, futebol vira política pública na China

Gilles Sabrie/The New York Times
8-year-olds work on their dribbling at the Evergrande Football School in Qingyuan, China, Dec. 6, 2016. As Chinese soccer clubs spend lavishly to lure top players from Europe and South America, an equally ambitious effort is underway to build future generations of homegrown talent via academies like this one, now the the worldÕs biggest soccer boarding school. (Gilles Sabrie/The New York Times)
Garoto de oito anos em escola de futebol na cidade de Qingyuan, na China

CHRIS BUCKLEY
DO "NEW YORK TIMES", EM QINGYUAN, NA CHINA

Os 48 campos de futebol do vasta Escola de Futebol Evergrande, no sul da China, mal parecem suficientes para os 2,8 mil alunos. Diante de um prédio principal da escola os jovens atletas correm para os campos a cada dia, chutando, driblando e passando com a esperança de conquistar a glória e riqueza futebolística no futuro.

"O futebol será minha carreira, quando eu crescer", disse Wang Gai, 13, um menino magro e alto que estuda no colégio interno há três anos, depois de um treino matinal sob o comando de um técnico espanhol. "Quero ser o Cristiano Ronaldo chinês", ele disse, em referência ao superastro português.

Preparar o próximo Ronaldo ou Messi se tornou um projeto nacional na China, onde o torcedor número um do futebol no país, o presidente Xi Jinping, está determinado a transformá-lo em uma grande potência futebolística.

A boy helps two fellow students with their sit-ups at the Evergrande Football School in Qingyuan, China, Dec. 6, 2016. While China has excelled at individual sports that demand intense discipline from an early age, the country has not done as well at fostering group sports, where skills like teamwork and improvisation count as much as personal virtuosity. (Gilles Sabrie/The New York Times)
Crianças chinesas em treinamento de futebol no país

É como uma corrida espacial para a China, cujos times e seleções têm apresentado desempenho entre pobre e mediano nas competições internacionais recentes. Mas o esforço já causou uma onda de gastos e atraiu apoio ao esporte em escala que espantou torcedores, jogadores, técnicos e dirigentes de todo o mundo.

Nas duas últimas semanas, a principal liga do futebol chinês atraiu astros do futebol europeu e sul-americano, e os contratos reportados atingem valores de até US$ 40 milhões (R$ 128 milhões) anuais, o que representa o maior salário mundial para um jogador de futebol. Um clube chinês ofereceu US$ 105 milhões (R$ 337 milhões) anuais a Cristiano Ronaldo, mas ele recusou, disse o agente do futebolista na semana passada.

Esses valores estonteantes estão abalando as fundações do futebol profissional. Antonio Conte, treinador do famoso Chelsea, da Inglaterra, denunciou a onda de contratações chinesas como "um perigo para todos os times do mundo".

A campanha por criar um futebol digno de se equiparar à ascensão econômica da China é um dos símbolos da ambição de Xi, de transformar a China em uma grande potência altamente confiante. "Minha maior esperança para o futebol chinês é que seus times se tornem os melhores do mundo", ele anunciou no ano passado.

Nos dois últimos anos, o governo dedicou ao futebol o esforço concentrado anteriormente devotado à conquista de medalhas olímpicas em modalidades individuais como os saltos ornamentais e a ginástica.

As autoridades prometeram limpar e reorganizar o futebol profissional e criar uma nova geração de jogadores, por meio da construção de dezenas de milhares de campos de futebol e da criação de programas de futebol em dezenas de milhares de escolas. O objetivo é estabelecer um fluxo de grandes jogadores que um dia se tornem capazes de vencer a cobiçada Copa do Mundo masculina, e que restaurem as glórias que a seleção feminina do país conquistou no passado.

(161111) -- BEIJING, Nov. 11, 2016 (Xinhua) -- General Secretary of the Communist Party of China (CPC) Central Committee Xi Jinping, also Chinese President and Chairman of the Central Military Commission, addresses a gathering to commemorate the 150th anniversary of Sun Yat-sen's birth in Beijing, capital of China, Nov. 11, 2016.
Presidente da China, Xi Jinping, é fã de futebol

O esforço encorajou os clubes chineses a gastar dinheiro sem pensar duas vezes. Além de pagar dezenas de milhões por jogadores estrangeiros, os donos de times chineses investiram centenas de milhões de dólares em participações em clubes europeus, na esperança de aproveitar seus conhecimentos nos ramos de preparação de jogadores e marketing.

"Os gastos atuais geraram imensas expectativas", disse Simon Chadwick, professor de empreendedorismo esportivo na Universidade de Salford, no Reino Unido. "Gastar muito na contratação de jogadores também significa adquirir heróis e ícones".

Mas se o futebol destila as ambições nacionais de Xi, também ilustra de que maneira seus planos podem fracassar, como aconteceu em outras arenas, em meio a ordens confusas e metas distorcidas, especialmente em nível local. Há resistência dos pais, preocupados por seus filhos dedicarem menos tempo às atividades acadêmicas, e medo de que os gastos pesados com astros estrangeiros desviem dinheiro e atenção do processo de desenvolvimento de talentos nacionais.

Os problemas do futebol, ao que parece, são parecidos com os da economia mais ampla: o desejo de sucesso rápido e vistoso coloca os objetivos de longo prazo em risco.

O "Diário do Povo", principal jornal do Partido Comunista chinês, alertou na semana passada sobre uma "bolha" de gastos irresponsáveis no futebol profissional chinês que poderia estourar e prejudicar seriamente o esporte. Investidores demais têm expectativas febris, e alguns clubes, autoridades e escolas estão só fingindo trabalhar no desenvolvimento de jovens atletas, afirmou o jornal.

"Um dos maiores problemas é o imediatismo", disse Cameron Wilson, escocês que vive em Xangai e edita o site Wild East Football, que acompanha os esportes na China. "Há todos esses grandes planos e ideias, mas quando o assunto é o trabalho de base, nas províncias, cada um faz o que quer".

Os apaixonados torcedores de futebol chineses adorariam ter seleções nacionais competitivas, em lugar das equipes medíocres que têm agora. A seleção masculina recentemente foi classificada no 83º posto do ranking da Fifa, logo acima das Ilhas Faroe, um remoto território associado da Dinamarca que só tem 50 mil habitantes, e é pouco provável que a China conquiste vaga na Copa do Mundo de 2018.

A seleção feminina - o orgulho do futebol chinês em décadas passadas - vem tropeçando. Em 1999, ela conquistou o segundo lugar na Copa do Mundo feminina, mas caiu ao 13º posto no mais recente ranking da modalidade.

"A seleção nacional é uma piada", disse Xu Yujun, 16, que foi ao Estádio dos Trabalhadores, em Pequim, para assistir ao seu time favorito na cidade demolir um adversário inepto da província de Henan. "Creio que serão precisas décadas para resolver o problema; não é só questão de dinheiro, mas de atitude".

Por anos, o futebol profissional masculino sofreu seriamente com problemas de corrupção, ultrajantes até mesmo para um país onde a corrupção é tão comum como a China. Desde que revelações sobre resultados arranjados de partidas causaram escândalo nacional, em 2009, o pior das trapaças foi eliminado. "Ainda existe corrupção", disse Wilson. "Ela só não é tão gritante".

Para Xi, o futebol é paixão desde a infância. Suas viagens ao exterior incluíram poses para fotos ao lado de David Beckham e outras celebridades do futebol. Na Irlanda, em 2012, houve um famoso momento no qual ele tentou entusiasticamente chutar uma bola, mas demonstrou estar fora de forma.
Em setembro, o presidente visitou a escola na qual estudou em Pequim, onde aprendeu a jogar futebol e se tornou torcedor, de acordo com as memórias de um antigo professor.

"Vejam como sou saudável", disse Xi aos jovens futebolistas da escola. "A base disso foi o esporte quando eu era moço".

A seven-year-old student folds clothes before going to sleep in his room at the Evergrande Football School in Qingyuan, China, Dec. 6, 2016. Parents pay up to about $8,700 a year to send children to the worldÕs biggest soccer boarding academy, where 24 Spanish coaches oversee training and students spend 90 minutes a day on drills and also play on weekends. (Gilles Sabrie/The New York Times)
Garoto de sete anos em escola de futebol na China

Investidores privados correram ao ramo do futebol profissional, encorajados pelo apoio de Xi ao esporte e aparentemente ansiosos por marcar pontos junto ao governo.

Na principal janela de transferências do ano passado, os 16 times da Superliga chinesa gastaram US$ 300 milhões (R$ 965 milhões) na contratação de jogadores estrangeiros, superando em US$ 120 milhões (R$ 386 milhões) os gastos da Premier League inglesa, de acordo com a FIFA TMS, uma empresa que compila dados sobre transferências de jogadores. Em 2017, é provável que os preços sejam ainda mais altos.

Mas o foco de Xi é o longo prazo e a próxima geração de jogadores. Seu plano dispõe que 50 mil escolas do país tenham fortes programas de futebol, até 2025, ante cinco mil em 2015. O número de campos de futebol no país crescerá para mais de 70 mil até o final de 2020, ante menos de 11 mil no início do projeto. Àquela altura, dispõe o plano, 50 milhões de chineses, entre os quais 30 milhões de estudantes, jogarão futebol regularmente.

"Agora os diretores de todas as escolas estão prestando bem mais atenção ao futebol", disse Dai Wei, diretor de esportes na Escola Bayi, onde Xi estudou. "Antes isso seria impensável".

Mas há fortes resistências culturais à iniciativa, mesmo na Bayi.

Alguns pais desencorajam os filhos de dedicar tempo aos esportes, disse Dai, porque eles têm muitos deveres de casa e enfrentam forte concorrência nos exames acadêmicos.

Embora a China venha apresentando excelentes resultados nos esportes individuais que exigem intensa disciplina desde muito cedo, o país não se saiu tão bem no incentivo aos esportes coletivos, onde capacidades como o trabalho de equipe e a improvisação contam tanto quanto a virtuosidade pessoal.

A escola Evergrande, uma instituição privada e maior colégio interno de futebol do planeta, diz que sua fórmula de intenso treinamento combinado a educação sólida pode mostrar o caminho para o desenvolvimento de atletas jovens.

"Quando mais escolas de futebol forem construídas, mais e mais crianças jogarão e os astros se multiplicarão", disse Liu Jiangnan, diretor da escola inaugurada em 2012. "Eu apostaria que, dentro de sete ou oito anos, metade da seleção chinesa de futebol terá vindo da escola".

Some of the 48 fields at the Evergrande Football School, the worldÕs biggest soccer boarding academy, in Qingyuan, China, Dec. 6, 2016. While China has excelled at individual sports that demand intense discipline from an early age, the country has not done as well at fostering group sports, where skills like teamwork and improvisation count as much as personal virtuosity. (Gilles Sabrie/The New York Times)
Campos de futebol em escola em Qingyuan, na China

Atraídos por esperanças como essas, os pais pagam até US$ 8,7 mil (R$ 28 mil) anuais para que os filhos estudem na Evergrande, onde os treinos são comandados por 24 treinadores espanhóis. Os jogadores promissores recebem bolsas, e as crianças de famílias mais pobres têm descontos, dizem os dirigentes da escola.

Mas mesmo na Evergande as crianças começam no esporte mais tarde do que suas contrapartes na Europa e América do Sul, e muitas vezes lhes faltam fundamentos de jogo em equipe e tática, diz Sérgio Zarco Diáz, um dos treinadores espanhóis.

"Os meninos estão melhorando, ano após ano", ele diz, com esperança.
Mas a abordagem da Evergrande é cara demais para ser copiada em larga escala.
Algumas escolas, por falta de treinadores e espaço para campos, desenvolveram treinamentos próprios, como a ginástica de futebol, na qual crianças se exercitam com bolas. Isso pode impressionar as autoridades visitantes, mas não prepara os jovens para o fluxo de uma partida, disse Zhang Lu, respeito comentarista de futebol chinês.

"O futebol da China já fracassou no passado tentando correr em busca do sucesso instantâneo", disse Zhang em entrevista em Pequim, recordando esforços frustrados anteriores para promover o esporte, nos anos 80 e 90. "O problema é que o pensamento de todos continua a correr em linhas tradicionais. Todo mundo pensa que futebol é só resultados, competição, treinamento, criação de astros".
Zhang em lugar disso vem encorajando as escolas a se concentrar na diversão do jogo e em promover ampla participação. A abordagem oferece a mais crianças uma pausa na monotonia das aulas, e no futuro produzirá mais campeões do que uma abordagem elitista, de cima para baixo, ele argumenta.

Algumas escolas estão tentando seguir suas ideias. Em uma tarde recente, o smog que costuma cobrir Pequim se dispersou e as crianças da Escola Primária Caoqiao correram para os campos, gritando de alegria e rindo.

"Hoje cedo, o futebol foi cancelado por causa do smog", disse o diretor Lin Yanling. "Mas ao meio-dia avisei aos alunos que podiam jogar, e eles explodiram de alegria". 
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sexta-feira, dezembro 30, 2016

O futebol brasileiro tem muito para fazer em 2017

É preciso mais personalidade em setores importantes da modalidade

Robson Morelli


O futebol brasileiro precisa resolver algumas pendências que levará da temporada de 2016 para a de 2017, assuntos que se arrastam há tempos aparentemente sem solução, ou pelo menos sem solução nas mãos dos que gerem o esporte mais popular do planeta. Abaixo um resumo desses temas.
1 – ARBITRAGEM
Foi, sem dúvida, o calcanhar de Aquiles do nosso futebol, do começo ao fim da temporada. Erros grotescos provocaram reclamação de todos os lados. Não vi maldade na maioria deles. Nossos assopradores erraram porque são ruins mesmo, confusos, sem personalidade. Da mesma forma, sofreram com o auxílio dos bandeiras, tão ruins quantos eles. A Comissão de arbitragem mudou de mãos. Saiu Sergio Correa. Entrou o Coronel Marinho. Mais respeitado e com boas ideias. Precisa agora colocá-las em prática. A renovação da arbitragem não é mais o problema. É preciso dar condições a esses árbitros novos, tirá-los da zona da pressão, profissionalizá-los, de modo a treiná-los diariamente, com exercícios práticos e teóricos, com investimento. Os árbitros precisam pensar mais e gritar menos, sorrir mais e se aborrecer menos. São muito autoritários. É preciso ser amigos dos jogadores, confiar neles para receber o mesmo tratamento. É preciso ainda acabar com os sorteios. A comissão precisa ser isenta e escalar os melhores para os jogos mais difíceis e importantes. Formar um grupo bom para isso, de pelo menos 10 juízes de ouro. Só assim poderemos sofrer menos com a arbitragem no futebol brasileiro.
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2 – MÁ GESTÃO DOS CLUBES
É preciso, da mesma maneira, formar gestores no futebol nacional, de modo a fazê-los gerir os clubes com mais inteligência e responsabilidade com as finanças. As TVs têm aumentado a cada ano suas cotas para a transmissão dos jogos, pagas aos clubes, e, mesmo assim, as associações esportivas estão sempre passando o pires, devendo no mercado, empurrando suas dívidas, pedindo mais dinheiro ou antecipando valores com seus credores. Atrasam salários porque se comprometem a pagar o que não podem. Contam com investimentos que ainda não têm. Nem mesmo os que têm arenas novas conseguiram aumentar suas receitas. O futebol é sempre um peso para esses clubes endividados, com folhas de pagamento altas. Hoje em dia, qualquer jogador meia-boca ganha de R$ 50 mil a R$ 100 mil. Ou mais. Os que voltam da Europa não baixam seus salários. Reféns de contratações de peso, dirigentes entram nessa e quebram a verba do ano com esses repatriados. O futebol precisa de dirigentes profissionais, que trabalhem com responsabilidade financeira, com vistas a formar bons times e a dar lucro para seus patrões. E, claro, ganhar títulos. Há alguns nomes no mercado. Mas é preciso ter mais. Todos os times precisam se valer do trabalho desse profissional. 
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3 – DEMISSÃO DE TREINADORES
A pressão da torcida e do próprio clube nas costas dos presidentes fizeram com que eles abusassem do direito de demitir treinador. Inter e Corinthians foram os recordistas. Falcão, por exemplo, permaneceu no comando do clube em que foi rei por 27 dias, uma vergonha. Oswaldo de Oliveira durou 62 dias no Parque São Jorge. Era para terminar a temporada e ficar em 2017. Os cartolas sucumbiram diante da pressão dos resultados e da necessidade de salvar a própria pele. Foi assim, por exemplo, com Roberto de Andrade, presidente do Corinthians. O cargo passa por uma reformulação. Os treinadores mais veteranos estão ficando para trás, perdendo empregos e não conseguindo se recolocar. Uma nova safra vem por aí pedindo passagem. São técnicos como Eduardo Baptista (Palmeiras), Fábio Carille (Corinthians), Zé Ricardo (Flamengo) e Rogério Ceni (São Paulo). A safra é boa, mas precisa da paciência da torcida e dos dirigentes. É preciso dar mais tempo aos técnicos. É impossível ter resultados com elencos fracos, jogadores de pouca personalidade e quase nenhuma individualidade. São poucos os que saem do lugar-comum.
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4 – INVESTIMENTOS NAS BASES
O Brasil precisa voltar a forjar jogadores nas bases, nos clubes do Interior, nos campinhos de terra. A formação de jogadores vai ser uma aposta na temporada de 2017, principalmente pela falta de dinheiro que toma conta dos clubes. Não há como competir com os euros da Europa ou os dólares da China. A base vai ser o caminho para a maioria dos clubes do País. A verdade é que já tem sido. Precisa ser mais. Um clube investe, em media, R$ até 4 milhões por ano nas categorias da molecada. É preciso, portanto, ter retorno. Pelo menos dois jogadores bons por temporada. Um que seja. A base precisa mudar também sua forma de trabalhar. Não se treina nas bases para ganhar títulos. É preciso trabalhar para atender o time de cima, jogadores que possam ajudar o técnico da equipe principal. É preciso ainda investir em fundamentos. Fundamentos básicos. Gostaria muto de ver também esses treinadores consagrados e que não têm mais empregos, ajudando a formar garotos. Seria um salto para o futebol nacional.
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5 – TROCA DE COMANDO NA CBF
O futebol brasileiro vai sofrer por causa do presidente da CBF, Marco Polo del Nero. A Fifa já acenou que não tem interesse em negociar e apoiar a entidade enquanto ela estiver sob o comando de Del Nero, acusado nos Estados Unidos de corrupção e participar de esquemas fraudulento em benefício próprio. Del Nero tem sido um presidente ausente nos últimos dois anos, desde que estourou a onda de prisões no futebol. Caiu Blatter e toda a cúpula da Fifa, mas não caiu (ainda) o presidente da CBF. O senador Romário apresentou um relatório paralelo da CPI do Futebol em que pede o afastamento de Del Nero pelos mesmos motivos das investigações dos EUA. O relatório oficial nada constatou. Ocorre que o Brasil ficará mais ilhado em relação à Fifa e à Conmebol, e isso certamente vai prejudicar o futebol do País. 2017 será, nesse sentido, um ano de esperanças.
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quinta-feira, dezembro 29, 2016

Tabus da gestão do futebol brasileiro

POR AMIR SOMOGGI
Todo fim de ano as pessoas aproveitam essa época de transição para refletir e pensar em melhorar no ano seguinte. O futebol brasileiro deveria fazer o mesmo.
Minha última coluna de 2016 procura refletir sobre os tabus que assombram a gestão do futebol brasileiro, limitando seu crescimento e desenvolvimento.
Boa parte dos problemas do futebol brasileiro residem no baixo grau de profissionalização da gestão dos clubes e de seu ambiente de negócios.
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Esses são os tabus de precisamos quebrar para evoluir:
Modelo político exaurido
Os clubes brasileiros movimentam mais de R$ 4 bilhões por ano e são administrados há décadas da mesma maneira.
Somente a profissionalização total da gestão, transformando sua estrutura jurídica em empresas, alterará esse cenário. Executivos no lugar de abnegados.
Atualmente os clubes brasileiros tem orçamentos de R$ 300 milhões, até R$ 400 milhões por ano e não podem ficar à mercê das vontades de um presidente e conselho deliberativo despreparados.
Controle financeiro e punições esportivas
Infelizmente no Brasil as coisas acontecem de maneira errada. Por conta das sucessivas decisões de competições no tapetão e tentativas de virada da mesa, um conceito fundamental ficou renegado ao segundo plano.
No mundo civilizado os times são punidos desportivamente por má gestão. Esse tabu é sem dúvida fundamental que seja quebrado.
A regulação do ambiente por uma Liga ou qualquer entidade deve sim considerar punição como rebaixamento, proibição de contratação de atletas e exclusão das competições, caso seja comprovado a má gestão do clube e falta de controle orçamentário.
Uma liga para chamar de sua
O futebol brasileiro precisa de uma liga profissional que represente os interesses dos maiores clubes brasileiros, especialmente das Séries A e B.
Esses 40 clubes são o PIB do futebol, sendo os 20 maiores responsáveis por mais de 80% do total de receitas.
A divisão mais igualitária dos direitos de TV, segurança nos estádios, calendário, doping, arbitragem, justiça desportiva, e tantos mais temas fundamentais, seriam discutidos pelos clubes na Liga. CBF ficaria cuidando apenas da seleção brasileira e de divisões menores.
Com R$ 227 milhões em caixa a CBF precisa distribuir os recursos para os clubes das Séries C e D.
Marketing dos clubes precisa mudar
Os departamentos de marketing dos clubes brasileiros têm que ir muito além da venda de patrocínios e licenciamentos.
O que os clubes fazem hoje é a era da pedra lascada do marketing esportivo moderno.
O marketing dos clubes tem que transformar sua marca em uma verdadeira plataforma de negócios e entretenimento.
O foco é diversificar o modelo mercadológico, usufruindo do enorme potencial comercial dos projetos criados entre as empresas, o torcedor e o clube.
Essa mudança transformará nossos clubes, com uma satisfação alta do cliente final, o torcedor e também gerando retorno para os patrocinadores.
Globalização do futebol brasileiro já!
Um dos maiores tabus do futebol brasileiro é o tema globalização das marcas dos times.
Em um mundo 100% global e interligado pelo mundo digital, tudo é muito rápido.
Os gigantes europeus já se posicionaram e os clubes brasileiros são insignificantes globalmente. Atualmente os clubes estão olhando apenas para o mercado doméstico.
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FCB
Essa falta de atitude está fazendo com que percam a chance de serem lembrados no futuro. Barcelona já vende mais camisas no Brasil que um bom número dos clubes brasileiros.
O time catalão tem marcas patrocinadoras aqui no Brasil, e mais fãs que os clubes nacionais nas redes sociais.
Se os clubes brasileiros não fizerem algo, a cada ano, o Brasil de país do futebol pode se transformar em uma Tailândia ou Indonésia.

quarta-feira, dezembro 28, 2016

Histórico das premiações da Copa do Nordeste na versão atual

A premiação absoluta da Copa do Nordeste 2017 chega a R$ 18.520.000   

Cássio Zirpoli

A evolução das cotas de campanhas finais (somando todas as fases) da Copa do Nordeste. Arte: Cassio Zirpoli/DP

A premiação total da Copa do Nordeste de 2017 aumentou em 24,9% em relação à última edição. Em cinco anos, são quase R$ 13 milhões a mais. Considerando a meritocracia no torneio, 41% do montante será distribuído nos mata-matas, correspondendo a R$ 7,6 milhões. As cotas das cinco campanhas possíveis no torneio foram ampliadas, com as seguintes diferenças para cada time: R$ 95 mil (primeira fase), R$ 20 mil (quartas), R$ 100 mil (semifinal), R$ 50 mil (vice) e R$ 250 mil (título). Acumulando todos os repasses, o campeão irá embolsar R$ 2,85 milhões, ou R$ 465 mil a mais que o Santa Cruz, que ergueu a orelhuda dourada em 2016. A premiação é bancado pela Liga do Nordeste, com a receita de parcerias, como a venda de direitos de transmissão junto ao Esporte Interativo.
Em 2017, o futebol pernambucano volta a ser representado pelo Trio de Ferro após três temporadas. Por sinal, quem chegar às quartas da Lampions League, numa campanha básica, superando a fase de grupos, já ganhará R$ 1 milhão. A observação cabe porque essa quantia já seria superior a toda a cota do Pernambucano, disputado de forma paralela. Por outro lado, o título regional não vale mais uma vaga na Sul-Americana, mas, sim, uma classificação direta às oitavas de final da Copa do Brasil de 2018 – após a canetada da Conmebol.
Voltando às cifras regionais, desta vez foram adicionadas cotas iniciais para maranhenses e piauienses – sob a avaliação da Liga até 2018. A verba é menor, com R$ 330 mil para clubes dos dois estados. Finalizando o acordo comercial no Nordestão, os vinte times não têm despesas com arbitragem, viagens e hospedagens. Segundo a regra das viagens: até 500 km, passagens de ônibus; acima de 500 km, passagens aéreas, com delegações de 26 pessoas.

Cotas da Copa do Nordeste, fase por fase, de 2013 a 2017. Arte: Cassio Zirpoli/DP

Eis as cotas absolutas (somando as fases) para as campanhas no Nordestão:
2017
Campeão – R$ 2,85 milhões (ou R$ 2,58 milhões para MA e PI)
Vice – R$ 2,15 milhões (ou R$ 1,88 milhão para MA e PI)
Semifinalista – R$ 1,6 milhão (ou R$ 1,33 milhão para MA e PI)
Quartas de final – R$ 1,05 milhão (ou R$ 780 mil para MA e PI)
Primeira fase (PE, BA, CE, RN, AL, PB e SE) – R$ 600 mil
Primeira fase (MA e PI) – R$ 330 mil
Total – R$ 18.520.000
2016
Campeão – R$ 2,385 milhões (Santa Cruz)
Vice – R$ 1,885 milhão (Campinense)
Semifinalista – R$ 1,385 milhão (Bahia e Sport)
Quartas de final – R$ 935 mil (Ceará, Salgueiro, CRB e Fortaleza)
Primeira fase – R$ 505 mil*
Total: R$ 14.820.000
* Exceto para os clubes do Piauí e do Maranhão
2015
Campeão – R$ 2,74 milhões** (Ceará)
Vice – R$ 1,24 milhão (Bahia)
Semifinalista – R$ 890 mil (Vitória e Sport)
Quartas de final – R$ 615 mil (Fortaleza, América-RN, Salgueiro e Campinense)
Primeira fase – R$ 365 mil*
Total: R$ 11.140.000
* Exceto para os clubes do Piauí e do Maranhão
** Com bônus de R$ 500 mil, pago pela CBF
2014
Campeão – R$ 1,9 milhão (Sport)
Vice – R$ 1,2 milhão (Ceará)
Semifinalista – R$ 850 mil (América-RN e Santa Cruz)
Quartas de final – R$ 600 mil (CSA, CRB, Vitória e Guarany-CE)
Primeira fase – R$ 350 mil
Total: R$ 10.000.000
2013
Campeão – R$ 1,1 milhão (Campinense)
Participação – R$ 300 mil
Total: R$ 5.600.000

A evolução da premiação total da Copa do Nordeste. Arte: Cassio Zirpoli/DP
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terça-feira, dezembro 27, 2016

A importância da gestão esportiva

Mudanças e a gestão esportiva

As novas gerações de gestores precisam compreender o contexto de mudanças em que vivemos

Gustavo D'Avila



Nesta coluna de Natal, pensei sobre qual presente um gestor esportivo poderia escolher para que seu trabalho fosse cada vez melhor. Olha, se realmente queremos ter uma elevada maturidade na gestão esportiva dentro do futebol, as novas gerações de gestores precisam compreender o contexto de mudanças em que vivemos. Além disso, deverão também refletir sobre maneiras e estratégias gerenciais para promover o desenvolvimento e crescimento do negócio esportivo sob sua gestão. Então, um bom presente talvez seria algum conhecimento ou maneira para aumentar a efetividade da gestão do negócio de futebol.

Em seu livro O Verdadeiro Poder (se deseja ser um bom gestor esportivo eu recomendo essa leitura de base), Vicente Falconi, nos oferece algumas reflexões sobre as mudanças. Em geral nós, seres humanos, somos avessos às mudanças. Sempre que saímos da rotina nos cansamos e nos estressamos. No entanto, estamos num mundo de mudanças contínuas e nossa própria vida é de um dinamismo às vezes assustador. Para quem conhece qualquer organização de futebol, isso não é diferente. O futebol vive num universo em constante mudança, pois rodada a rodada seu contexto pode sofrer alterações drásticas e se faz inevitável que todos estejam preparados para isto.

A organização esportiva que fica parada na inércia tende a morrer. O movimento de melhorias dentro deste tipo de organização pode ser compreendido de forma adaptativa (quando apenas reage às mudanças em sua volta) ou agressiva (quando ela mesmo provoca estas mudanças e se antecipa).

Mas a compreensão de que vivemos em contexto de mudanças aceleradas não traz a solução para nossos problemas cotidianos no futebol. Conhecer e aplicar ferramentas gerenciais e de qualidade são premissas para que se consiga efetuar uma adequada gestão do futebol. Metas, planejamento estratégico e planos de ação que possam orientar o gerenciamento do futebol, são o mínimo que um gestor do esporte pode empreender.

Para contribuir com o entendimento de vários termos que podem ser novos para o universo do futebol, quero compartilhar algumas informações sobre Gerenciamento da Rotina. Sabe que uma das coisas mais importantes para um bom gerenciamento da rotina é a execução, de um ciclo de PDCA (Plan, Do, Check, Action). Todos os pontos do PDCA são importantes e necessários, porém quero chamar a atenção rapidamente para o Do, Executar.

Sempre que não temos pragmatismo na execução dos planos de ação que nos levarão aos melhores resultados, nós caímos na procrastinação clássica do ser humano. Com isso, nós viramos meros observadores dos nossos planos e mesmo assim acreditamos por um tempo que seremos bem-sucedidos ao atingirmos as metas estabelecidas.

A dica então é não deixarmos a energia cair no momento da execução de nossas atividades, independentemente do tamanho ou complexidade da ação. Seja ela qual for, esta possui uma enorme importância não percebida no contexto geral do objetivo desejado! Seguir firme na direção dos melhores resultados exige um total engajamento de todos e com isso pode-se esperar melhores resultados de negócio esportivo dentro do futebol.

Até a próxima, um grande abraço e um Feliz Natal!
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segunda-feira, dezembro 26, 2016

A maioria dos clubes ainda resvala na falta de critério na escolha do treinador


Por que é tão difícil escolher um técnico?

por Guilherme Costa

Entre os 12 clubes que detêm os maiores orçamentos do futebol brasileiro, apenas cinco (Botafogo, Cruzeiro, Flamengo, Grêmio e Santos) mantiveram seus treinadores de 2016 para 2017. E dessa lista, apenas azuis mineiros, tricolores gaúchos e alvinegros paulistas contam com profissionais que há tempos figuram na elite nacional (Mano Menezes, Renato Gaúcho e Dorival Júnior, respectivamente). Existe um processo de renovação no banco de reservas dos principais times do país, mas essa troca de guarda também expõe um aspecto relevante do jogo praticado em âmbito nacional: como são raros os projetos sistêmicos, a escolha é sempre um processo extremamente complicado (e com altíssima margem de erro).
O Corinthians, por exemplo: Tite, treinador mais longevo da história recente na equipe alvinegra, saiu durante o Campeonato Brasileiro de 2016 e assumiu a seleção brasileira. Foi substituído por Cristóvão Borges, que depois deu lugar ao auxiliar Fábio Carille, posteriormente trocado por Oswaldo de Oliveira. Três linhas de trabalho diferentes, três propostas distintas para formação de equipe e estruturação do trabalho diário. Três direções para um elenco cuja identidade já havia sido debelada por sucessivas trocas de atletas. O time perdeu essência e qualidade, mas a diretoria também abriu mão de qualquer fio condutor.
O resultado de tantas mudanças foi um Campeonato Brasileiro medíocre. O Corinthians passou longe de brigar pelo título e não conquistou sequer uma vaga na próxima edição da Copa Libertadores, principal competição do futebol continental (em âmbito esportivo e em retorno financeiro). Resultado: a diretoria demitiu Oswaldo de Oliveira e partiu mais uma vez para o mercado.
Quando decidiu buscar um novo treinador, o Corinthians viu que o Atlético-MG já havia fechado com Roger Machado, que talvez seja, entre os treinadores neófitos do futebol brasileiro, o detentor de uma ideia mais interessante para montagem de suas equipes. Que Fluminense (Abel Braga), Internacional (Antonio Carlos Zago), Palmeiras (Eduardo Baptista) e Vasco (Cristóvão Borges) também tinham escolhido seus técnicos para a próxima temporada. Que até o São Paulo, que inovou e deu o cargo ao ídolo Rogério Ceni, escolhera uma estrada para iniciar o próximo ano.
Da lista acima, contudo, quais foram os treinadores contratados depois de a diretoria ter chegado a um ideal de jogo a ser praticado? Quem foi escolhido por verdadeiramente preencher o que seu clube deseja para a próxima temporada? As primeiras escolhas de treinadores foram por convicção de trabalho ou apenas por serem esses os “bons nomes”?
É isso, afinal: ainda que os nomes tenham mudado, times brasileiros seguem escolhendo apenas marcas. Há os ídolos (caso de Rogério Ceni, mas a lógica também se aplicaria a Paulo Roberto Falcão, que comandou o Internacional em 2016); outros preferem técnicos com bom histórico recente (Roger, Eduardo ou Antônio Carlos, por exemplo); há ainda as diretorias que contratam por tamanho do profissional (por conquistas ou carreira, Abel Braga é sempre lembrado em listas de qualquer equipe).
Independentemente da lógica, ainda são raros os casos de times brasileiros que sabem o que querem e que comunicam isso de forma clara. O resultado é que muitos técnicos tentam aplicar ideias que passam longe da essência ou do que as equipes têm a oferecer. É a roda da demissão precoce: diretoria não sabe o que quer, treinador inicia um trabalho descolado da realidade ou da expectativa, jogadores e torcedores se frustram, o próprio profissional se frustra, mudança acontece.
A renovação dos treinadores brasileiros é uma prova de que a velocidade pode ser pequena, mas os principais dirigentes do futebol nacional entenderam que é necessário mudar conceitos e buscar um futebol mais adequado à realidade contemporânea. Para isso, contudo, é fundamental entender que não basta apenas trocar a geração ou escolher profissionais diferentes.
O ideal é que exista uma abordagem sistêmica entre proposta de jogo, pontos fortes do treinador e características dos jogadores. Da diretoria aos torcedores, seria bom se todos entendessem quais são as propostas de cada equipe e por que as decisões são tomadas. Esse processo depende de estratégias de comunicação em diferentes níveis, mas só pode existir numa realidade em que as pessoas entendam o quanto é relevante saber o que elas querem.
A falta de clareza nesse sentido é a principal explicação para a dificuldade que todos os times têm quando tentam contratar um técnico.
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