Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

terça-feira, julho 22, 2014

A derrota do futebol de condomínio

Torcedores acostumados a assistir jogos pela TV e jogadores descontrolados: a Era Mimimi afundou a seleção brasileira

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Pense na seguinte situação: a Copa do Mundo é na Argentina. Há uma invasão de brasileiros, a maior parte sem ingresso. Eles acampam nas ruas de Buenos Aires, de Córdoba, de Mendonza, de Rosário, de La Plata, de Mar Del Plata... enfim, de todas as sedes. Promovem uma barulheira infernal e não conseguem deixar de ser notados. Pensou?

Pois bem, agora imagine se isso seria real. Esse afinco com que os nossos vizinhos torcem por sua seleção, na vitória ou na derrota (lembrem-se de como eles receberam os derrotados de 2006, com uma invasão no aeroporto de Ezeiza, e compare com a nossa reação, queimando bandeiras e destruindo uma estátua de Ronaldinho Gaúcho naquele mesmo ano), nada tem a ver com a torcida pela nossa. Isso não é culpa só dela, mas de como a CBF a manteve longe do time nacional há, no mínimo, 18 anos.

O torcedor que a acompanha é, sobretudo, um chato. O jogo, para ele, é mais uma balada em que foi convidado pelo “amigo diretor de marketing de uma empresa amiga da CBF”. Ele não tem o costume de assistir ao que é uma partida de futebol. Talvez tenha a mesma impressão dos norte-americanos que o odeiam: é um jogo chato em que dificilmente sai um gol.

É a grande lógica do condomínio. Quer todas as facilidades e o conforto que ele proporciona. O jogo na TV a cabo, se não estiver bom, abandona e vai na padaria – de carro, de preferência. Se ele estiver bom, e a favor do seu clube, o larga do mesmo jeito e vai para as redes sociais contar vantagem de como seu time é bom. A torcida da seleção é exatamente dessa maneira. Enquanto o jogo rola, tira selfies, sai de seus lugares caros para comprar comidas e bebidas e os deixam vazios, sobretudo na volta do intervalo. Se está ruim, ou se está perdendo, em vez de apoiá-lo, vaia e tenta encontrar culpados: os jogadores, o técnico, a presidente...

Mas ela não cabe apenas no estádio. Ela reflete de alguma forma o comportamento dos jogadores no campo – uma outra face desse complexo de condomínio, a de crianças que crescem superprotegidas e que não aceitam desvios de seus planos iniciais de sucesso.

Temi, depois do jogo contra o Chile, que esta virasse a Copa da vitória do futebol de garotos de condomínio. Não discuto aqui a origem deles – muitos nem sequer viveram em condomínios antes de ir para o futebol –, mas a reação. Não acho que é ter colhões pedir para não bater um pênalti. Também não concordo que o descontrole emocional signifique ter brios ou uma ponta qualquer de patriotismo. Como exemplo, só coloco que dificilmente trabalharia com alguém que largasse o fechamento da revista (que é o nosso prazo fatal, quando ela tem que ir para a gráfica e, se perdermos o tempo certo, arcamos com custos extras) porque não aguentou a pressão. Homens choram, mulheres também, todo mundo chora. Descontrole é algo completamente diferente.

Lembrei das crianças com quem convivo no prédio. Na primeira dificuldade, um garoto chora e o pai ou mãe vai consolá-lo. Ele dá chutes ruins, mas o pai deixa que a bola entre no gol, para não desagradá-lo. Nunca ouviram deles um “engole esse choro e vai fazer o que tem que ser feito”. O mundo vai girando, e esse garoto, já adulto, jamais vai sair da infância. E nunca vai perder essa vocação por chorar antes de tentar novamente e conseguir.

Não estou poupando o desastre comandado por Luiz Felipe Scolari, com análises ultrapassadas e baseadas em livro de auto-ajuda e vídeos motivacionais de caráter duvidoso, como já escrevi anteriormente. A seleção foi um horror tático e técnico durante a Copa. Mas, se aqueles atletas vencessem, seria para sempre ressaltada a “emoção”. Aliás, o tempo todo tivemos que flertar com ela. As reportagens da emissora oficial da seleção antes de a Copa começar eram todas chorosas, um apresentador de TV famoso pela “amizade” com os caras do time nacional interrompeu um treino na concentração, em Teresópolis, para levar um garoto de 17 anos com uma doença congênita. Muitos jogadores caíram em prantos. Sério, para que isso?

Jornalistas adoram rotular eras. A Era Pelé, a Era Zico. Em 1990, nosso fracasso foi apelidado de Era Dunga. Eu arrisco um palpite: o fiasco de 2014 se deve à Era do Mimimi.

Fonte: PLACAR

segunda-feira, julho 21, 2014

Museu do Catete dá abrigo a debate sobre o futebol feminino

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Aconteceu neste sábado (19), no Museu do Catete no Rio de Janeiro, um debate voltado ao Futebol Feminino, sob a organização do Estrela Nova e com a participação de pessoas de grande influência no meio da modalidade, como , René Simões , Jorge Alves, Mario Sergio Ribeiro, João Milhano, Rogerio e Thaissa, entre tantas personalidades. 

O debate foi presidido pela Cris do Estrela Nova, que teve um papel fundamental para com a realização do evento.

No salão paralelo do museu, concomitantemente  acontecia uma exposição sobre o futebol feminino no Brasil, desde seu surgimento até os dias de hoje.

O site futebolfeminino.info visitou a exposição e constatou o excelente trabalho realizado por profissionais que realmente entendem e querem a evolução da modalidade. Na parte externa do museu acontecia uma competição de Futebol Três, vencida pela equipe do Criciúma de Macaé.

O debate foi marcado por muitos pontos importantes, como a importância do trabalho de base e do planejamento eficiente do futebol feminino brasileiro.

No Brasil, quando uma jogadora chega a seleção brasileira sub/17, ela não tem quase nenhuma noção de tática, e essa é uma situação que precisa ser revista. Enquanto em muitos países a jogadora já chega com um bom conhecimento sobre tática nas categorias intermediárias, por aqui isso está longe de acontecer. Portanto, é necessário que se invista na base, seja nas escolas tradicionais, seja na formação específica originária nos clubes.

Segundo René Simões, o Brasil precisa se planejar e renovar seus métodos de formação também no futebol feminino. Simões não poupou críticas às recentes mudanças na CBF. “Como pode um agente de jogador de futebol  se tornar o  mais novo diretor de seleções da entidade”, indagou. René ainda disse: “Isso é  inaceitável , referindo-se à indicação de Gilmar Rinaldi.

Enfim, todos concordam que o debate havia sido um sucesso, pelas muitas coisas positivas que dele se poderia tirar para o futebol feminino brasileiro. O fato de se conseguir reunir pessoas que verdadeiramente se importam com a modalidade e que querem mudanças já representa uma vitória.

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Fonte: http://futebolfeminino.info/ – Adaptação: Benê Lima

domingo, julho 20, 2014

Clubes brasileiros aumentam receitas, mas gastos turbinam suas dívidas

Editoria de Arte/Folhapress

O vexame brasileiro na Copa acendeu os holofotes sobre a estrutura do futebol nacional. E o cenário notado nos clubes, pilares de sustentação do esporte, é nebuloso.

Ao mesmo tempo que viram suas receitas serem turbinadas nos últimos anos, as agremiações conseguem gastar cada vez mais e aumentar as suas já enormes dívidas.

Os clubes fecharam contratos milionários com a Rede Globo em 2011. A emissora negociou a compra dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro e vitaminou o pagamento aos times.

Cofres de Corinthians e Flamengo, por exemplo, chegaram a receber da televisão mais de R$ 100 milhões por ano. E a receita de TV, principal fonte de renda dos clubes, tornou-se cada vez mais essencial para a sobrevivência.

Mas esse incremento fez com que os clubes, que já estavam repletos de dívidas, gastassem ainda mais com contratações e salários de jogadores e de treinadores.

Em consequência dos gastos volumosos, os times não conseguiram pagar suas contas cotidianas –salários de astros atrasaram–, dirigentes apelaram a adiantamentos de receitas futuras (inclusive de direitos de transmissão) e os clubes sofrem hoje com dívidas impagáveis.

Os débitos fiscais, que há anos os clubes não conseguem quitar –e muitos não pagam mensalmente–, compõem importante parcela do total devido. Os 12 maiores clubes somam R$ 1,7 bilhão de dívidas com o Fisco.

Cartolas veem o projeto de lei que refinancia essas dívidas com prazo a perder de vista como a solução para os clubes respirarem. O texto aguarda votação na Câmara.

"Há um problema de gestão. O passivo fiscal, as contingências trabalhistas e as dívidas bancárias são os maiores gastos", aponta Amir Somoggi, especialista em gestão esportiva. 

Editoria de Arte/Folhapress

Copa do Mundo foi embora, mas má gestão em estádios permaneceu

Arenas esquecem padrão Fifa no trato ao torcedor

Por Duda Lopes / Máquina do Esporte

O futebol brasileiro retornou após a Copa do Mundo, mas nos gramados está a clara mensagem que pouco se aprendeu no trato ao consumidor. Nesta quinta-feira, a Arena Corinthians foi um retrato da situação.

Ainda que o acesso continue fácil e rápido, mesmo sem o “expresso Copa”, o horário da partida mostra o claro desdém com o público que frequenta estádios no Brasil. Às 19h30, a saída coincidiu com o pico do metrô e do trem paulistano. Além do transtorno de quem foi à Arena, a população em geral conviveu com uma lotação acima do normal; considere que o metrô da cidade é o mais cheiro do mundo. Não há nenhum argumento razoável para a partida não ser uma hora mais tarde. Nem mesmo televisão, o que seria um absurdo, teria essa necessidade, já que foram apenas três jogos na quinta-feira.

Na próxima quarta, a partida da Arena Corinthians será às 22 horas, o que significa que não haverá metrô e trem para o retorno. Ou seja, o principal modo de acesso não existirá. 

Dentro do estádio, a Polícia Militar deixa a sua marca. Ao barrar a circulação no entorno do estádio, um dos pontos positivos da Arena, houve confusão entre aqueles que queriam ir embora pelo trem. Acuados e espremidos, torcedores derrubaram as barreiras impostas. No caminho aberto, era preciso tomar cuidado para não escorregar nas fezes deixadas pelos cavalos da cavalaria policial.

Arena Corinthians não foi exceção. Na Arena Pernambuco, os transportes públicos sofreram com lotação e com a ausência dos serviços de Copa do Mundo. Na Arena Pantanal, relatos parecidos. Basicamente, o padrão Fifa foi embora com Blatter, e o torcedor brasileiro sendo absolutamente mal tratado.

Na Copa do Mundo, nenhum estádio teve menos de 90% de ocupação. No Campeonato Brasileiro, há um grande esforço para manter as arquibancadas vazias. A reestreia corintiana teve 32 mil presentes, quinto maior público do torneio deste ano. Foram liberados menos de 40 mil ingressos. Onde tinha espaço, o tíquete chegava a custar R$ 400. Na Arena Pernambuco e na Arena Pantanal, 6 mil e 7 mil presentes, respectivamente.

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quarta-feira, julho 16, 2014

Twitter ou Facebook? Copa do Mundo distingue natureza de cada rede social

Enquanto final foi evento mais comentado no Facebook, goleada alemã sobre o Brasil na semifinal foi o mais falado no Twitter, e esta diferença ilustra comportamento do usuário

Por Rodrigo Capelo - São Paulo (SP)

 

Entender como se comporta o consumidor em redes sociais é fundamental para qualquer empresa que se disponha a interagir com ele. E a Copa nos fez um favor muito grande ao distinguir claramente quem é o usuário do Twitter e quem é o do Facebook.

No Facebook, o evento mais falado foi a final, com 280 interações de 88 milhões de pessoas. Isso inclui posts, likes e comentários. Os EUA foram mais participativos, com 10,5 milhões de indivíduos, seguidos por Brasil, com 10 milhões. Lembrando: a rede tem 1,3 bilhão de usuários.

Já no Twitter a decisão foi a segunda mais comentada. A vitória da Alemanha sobre o Brasil por 7 a 1, sim, gerou mais interações, com 35,6 milhões de tuítes contra 32,1 milhões. Foi o evento esportivo mais tuitado da história da rede que tem 255 milhões de usuários.

Por que a final rendeu mais no Facebook e a semifinal no Twitter? Por causa da natureza das partidas. A goleada alemã foi inesperada, dramática, até ridícula. É disso que o tuiteiro gosta. Já a decisão foi parada, sem gols, mas era histórica. Assim como um casamento, quando não há muito o que se falar, mas todo mundo quer dizer algo para marcar presença.

No Twitter se fala de fatos surpreendentes e inesperados. No Facebook, as pessoas gostam de falar dos sentimentos delas em relação a eventos ímpares. Em tempo: esta é uma leitura recorrente nas redes sociais. Não a inventei agora. Mas a Copa a deixou cristalina.

terça-feira, julho 15, 2014

O software alemão

Como um programa de computador contribuiu para a vitória da seleção germânica na Copa do Mundo

Pedro Doria / O Globo

No início de 2000, Dietmar Hopp, o milionário sócio da SAP, uma das maiores empresas de software do mundo, assumiu como mecenas do pequeno TSG 1899 Hoffenheim, clube da quinta divisão alemã. Quando adolescente, Hopp jogara nas divisões de base do time. Por trás da história da ascensão do clube à primeira divisão está, em parte, também a história do tetracampeonato alemão no Maracanã. Uma história que passa por um programa de computador que nasceu ali: Match Insights.

Já faz alguns anos que nos acostumamos a ouvir estatísticas durante os jogos. Quantos passes certos e quantos errados, chutes a gol, espaço percorrido por cada atleta, tempo de posse da bola. Um dos problemas que vêm perturbando técnicos e jornalistas especializados é como transformar estes números em informações que possam de fato contribuir para o aperfeiçoamento do jogo. A turma mais velha, tanto na crônica quanto entre os profissionais do esporte, costuma fazer pouco das estatísticas. Futebol mesmo, sugerem, quem entende são aqueles com a manha, quem sabe observar com seus anos de prática. O Match Insights nasceu para dar sentido aos números.

O campo de treino do TSG é um parque tecnológico. Em todos os pontos do gramado há câmeras e sensores. Quando vão ao campo, os jogadores carregam sensores também em suas meias. Nenhum movimento passa sem análise. E nenhuma tecnologia deixa de ser testada. Com um Google Glass, o técnico analisa em tempo real dados sobre como se movem seus homens. Com um iPad, é capaz de explicar o que deseja deles.

Evidentemente, em um jogo oficial não há sensores no gramado. Mas, ainda que com menos detalhes, imagens em vídeo bastam para que o Match Insight faça a coleta de números o tempo todo.

Tática importa, treino idem. Futebol pode parecer um jogo romântico no qual a habilidade individual faz o truque. Na prática, é um jogo de conquista de território. As equipes avançam contra o terreno adversário com o objetivo de se aproximar do gol. Os métodos são muitos: passes longos ou curtos toques de bola, dribles. O olho do técnico experiente percebe este avanço de forma mais sofisticada que o do torcedor comum. Capta erros, intui movimentos. O software pode ir onde o olho já não alcança.

Com o Match Insights, analisando o movimento dos jogadores alemães em campo, a equipe técnica foi capaz de perceber micromovimentos que poderiam ser aperfeiçoados. Os melhores cronistas logo observaram: os alemães juntaram o estilo de toque de bola do “tiki-taka” espanhol com sua eficiência germânica. Por trás está o software. Entre a posse de bola e o passe, o tempo foi reduzido de 3,4 para 1,1 segundos. Não há mágica.

Não é só para aperfeiçoar seu próprio time que serve o programa. Cada equipe que enfrentou os alemães foi cuidadosamente analisada para identificar, sempre, os espaços desguarnecidos. Enquanto os jogadores brasileiros ouviam discursos motivacionais, os alemães viam na tela um mapa com os buracos deixados pelo oponente.

Os europeus estão mergulhando fundo e apenas começam a descobrir o que softwares podem revelar a respeito de futebol. Já há alguns livros sobre o tema no mercado. O melhor se chama “Os Números do Jogo” (Editora Paralela) e leva as assinaturas de Chris Anderson, um ex-goleiro, e David Sally, um economista. Um livro só sobre futebol e números.

Para Anderson e Sally, futebol é 50% acaso e 50% aperfeiçoamento tático. Enquanto isso, no Brasil, nos resta a emoção do hino a capella.

Veja o vídeo clicando aqui

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Campeonato Brasileiro tem a missão de combater efeitos da eliminação da seleção na Copa

POR 

Maracanã 01

RIO — A Série B recomeça nesta terça-feira, exatamente uma semana após a traumática eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo. Na quarta, será a vez da Primeira Divisão. Enquanto o futebol doméstico volta à atividade, um desafio se coloca: atrair o torcedor após o impacto profundo dos 7 a 1 aplicados pela Alemanha. O resultado soou como um atestado do atraso, da inferioridade. E foi imposto à seleção brasileira, formada quase integralmente por jogadores que atuam na Europa onde, supostamente, está a elite dos nossos jogadores. A dura tarefa é convencer o público de que o Campeonato Brasileiro, em tese disputado por jogadores que não conquistaram espaço no mercado externo, merece consideração.

— Os clubes vão sangrar — disse o ex-presidente do Corinthians Andrés Sanchez, um dia após a humilhação sofrida pela seleção brasileira.

Entre os colegas que dirigem os clubes, no entanto, as opiniões não vão todas na mesma direção. Há os que apostam na força das marcas, embora ultimamente não tenham sido capazes de criar grande mobilização para ocupar estádios.

— Claro que é um desafio. Mas não vejo como um problema sério. O público da Copa do Mundo é diferente do que frequenta o Campeonato Brasileiro. Acho que a torcida está com saudade de ver o Flamengo jogar, na expectativa para saber se virão reforços, se o time terá outra postura — afirma o presidente rubro-negro, Eduardo Bandeira de Mello, embora o clube tenha contratado apenas o meia argentino Canteros. — Se o Brasil tivesse terminado vencendo e convencendo, os olhos do mundo estariam voltados para cá, como estão agora voltados para o futebol alemão. Mas isso não vai acontecer. A goleada, no entanto, pode criar uma expectativa interna de reverter a tragédia.

O único titular da seleção brasileira que atua no país é o tricolor Fred. Para o presidente do Fluminense, Peter Siemsen, pode haver um abalo no valor de mercado dos jogadores brasileiros. Mas ele crê que não afetará o campeonato.

— Com o tempo, boas atuações de brasileiros na Liga dos Campeões podem recuperar este valor. E deixar a imagem de que os 7 a 1 foram um fato isolado. Num primeiro momento, o interesse pode diminuir. É difícil conviver com este resultado. Mas, como quase todos os titulares já atuavam no exterior, acho que não muda muito — disse o dirigente tricolor. — O Campeonato Brasileiro e os clubes ainda são produtos com pouco valor de venda. As duas marcas valorizadas são o jogador brasileiro e a seleção.

MAIOR COBRANÇA

Se a goleada criou um clima negativo justamente em torno da seleção, como valorizar a competição nacional? Para analistas do mercado, a crise de credibilidade terá contornos graves

— A Copa já fazia a gente se perguntar como motivar o público após o torneio. E nem tinha acontecido o vexame. Agora é mais grave ainda. Cria-se um clima de desmotivação, impaciência da torcida. O impacto é ainda pior. É uma volta à realidade sob total descrédito com a seleção, que antes era uma espécie de porto seguro, já que concentrava nossos melhores jogadores — disse Amir Somoggi, consultor de marketing e gestão esportiva.

No entanto, uma oportunidade pode estar se desenhando.

— O momento é difícil. Mas a forma como a seleção jogou pode ter efeito inverso e sensibilizar as pessoas a se mobilizarem para retomar o desenvolvimento do futebol brasileiro. À primeira vista, o resultado desestimula. Mas a sociedade vai cobrar mais, o futebol vai se cobrar mais — disse Pedro Trengrouse, professor da Fundação Getúlio Vargas e consultor da ONU para a Copa de 2014.

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sábado, julho 12, 2014

Mauana Simas, coordenadora do projeto de narração audiodescritiva

Conheça o trabalho com locutores especializados que narraram para deficientes visuais os jogos da Copa

Bruno camarão

A “Copa das Copas” não necessariamente é a “Copa de Todos”. Com frequência, pessoas cegas ou com visão subnormal são excluídas de muitos eventos culturais e desportivos aos quais a maior parte da sociedade tem acesso. Mas o Mundial de 2014, no Brasil, que está se encaminhando ao fim, teve um diferencial: a narração audiodescritiva.

O serviço garante que torcedores com deficiência visual tenham uma melhor compreensão do jogo in loco, sendo capazes de se divertir ao lado de outros espectadores. No país, a Urece, sob a coordenação de Mauana Simas, esteve à frente da empreitada.

A audiodescrição é semelhante à narração de rádio, mas com ênfase na experiência do palco da partida. Além disso, o narrador especialmente treinado fornece uma descrição adicional de todas as informações visuais significativas, como linguagem corporal, expressão facial, entorno, lances, uniformes, cores e qualquer outra coisa importante para transmitir a aparência e o ambiente, além do que está acontecendo efetivamente em campo.

“Recebemos a metodologia desenhada, adaptamos algumas coisas, mas foi algo bem próximo ao desenvolvido na Eurocopa. O povo brasileiro tem uma relação diferente com o futebol do que os europeus. E os cegos não poderiam ser diferentes”, explica Mauana, que é formada em Jornalismo na PUC, do Rio de Janeiro.

Segundo ela, os nossos fãs demandam mais emoção e vibração enquanto ocorre a narração. Houve, então, a necessidade de adaptar a audiodescrição, para não causar um estranhamento àqueles acostumados com o rádio. Uma experiência diferente, cujo objetivo é fazê-la ser estendida depois da grande final do torneio da Fifa.

Durante o Mundial, os estádios de Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo contaram com os locutores especializados, e a intenção é que as instalações sejam mantidas para um público que é especial e deve ser tratado desta forma.

“Nós temos três ‘Uruguais’ de cegos e surdos no Brasil. É muita gente para simplesmente ignorarmos sabendo que existe esta barreira de comunicação com estas pessoas”, avalia Mauana. “As propostas de inclusão são sempre pensando nisso: nestas pessoas que são cidadãos, eleitores, consumidores e precisam fazer parte do todo. Não porque somos ‘bonzinhos’ ou ‘compramos a vaga no céu’. Se trata de um trabalho sério, profissional, para que elas fiquem mais críticas”, completa.

A coordenadora do projeto relembra a história de um garoto de nove anos, que tem hidrocefalia, e foi pela primeira vez ao Mineirão, em Belo Horizonte, durante a Copa. O pai precisou levar um amplificador para que ele pudesse ouvir melhor a narração. O feedback dele foi singelo: “Eu adorei isso, papai, queria que tivesse isso em todos os lugares”.

Para Mauana, o jovem vai ficar muito mais crítico em relação às propostas de acessibilidade e inclusão do que deficientes com 30, 40 anos, acostumados ao “jeitinho”.

“É legal saber que este garoto teve acesso a isso e vai ser exigente, sabedor que as coisas podem ser bem feitas e ele pode fazer parte daquele espaço físico e – mais do que isso – metafórico. É importante saber exatamente como o lance ocorreu, como o Neymar comemorou o gol, etc”, finaliza.

Ouça na entrevista na íntegra concedida por ela à Universidade do Futebol.

Clique aqui para acessar o áudio da entrevista

sexta-feira, julho 11, 2014

Teorias sobre Brasil ter entregue a Copa expõem indigência intelectual da população

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Chegou a ser impressionante a quantidade de “teorias” sobre o Brasil ter entregue a Copa do Mundo 2014, em troca dos mais imaginativos motivos, publicadas, durante todo o dia de ontem, em mídias sociais.

Pior ainda, foi notar a enorme quantidade de pessoas que não apenas acreditavam, mas brigavam com outras na defesa dos argumentos mais absurdos.

Uma exposição de horrores que retratou bem o nível de indigência intelectual de boa parte da população brasileira.

Não é a toa que políticos fazem o que fazem, mentem e desmentem, e continuam sendo eleitos.

Há de se ter pena e até paciência com alguns, principalmente com os que não tiveram acesso adequado a educação, mas, a grande maioria dos que comentavam nada tinha a ver com esse grupo, eram, sim, filhinhos de papai, universitários, daqueles que abandonam a aula por uma boa maconha ou esperam as provas para colar e passar tranquilamente de semestre.

Uma união de mentes imbecilizadas que acaba por incomodar os que pensam e influenciar quem ainda engatinha na formação de suas opiniões.

Copa do Mundo não se compra ou vende por intermédio de jogadores consagrados e endinheirados.

É impossível !

Um Mundial se ganha jogando futebol, e perde-se quando encontra-se pela frente um adversário muito superior, como é a Alemanha.

Qualquer “teoria” que fuja desse princípio é ração para “burraldos” pastarem e emporcalharem o local em que saciaram a fome de asneiras e falta de bom senso.

Oito lições que o Brasil precisa aprender com os melhores

SIMON KUPER
DO "FINANCIAL TIMES", EM SÃO PAULO

Há exatos dez anos, a seleção alemã estava no fundo do poço. Tinha sido eliminada da Eurocopa 2004 sem derrotar ninguém, nem mesmo a Letônia. Não havia nem mesmo alguém disposto a assumir o comando da seleção como treinador. Naquela semana, perguntei a Jürgen Klinsmann o que havia de errado com a Alemanha. "Não temos um matador no ataque", ele sorriu. "Ainda estamos cometendo o erro de trocar muitos passes laterais. A falta de velocidade pode ser outro motivo". Perguntei se era possível que ele assumisse como treinador da Alemanha: "Não!"

Três semanas mais tarde, Klinsmann se tornou treinador da seleção alemã. Ele e seu assistente Joachim Löw abandonaram a tradição e revolucionaram a maneira pela qual os alemães jogam futebol. Pouco antes desta Copa do Mundo, Klinsmann, hoje treinador da seleção dos Estados Unidos, elogiou a nova equipe alemã para a revista "Elf Freunde": "São jogadores de alta velocidade e muita técnica, que podem jogar um futebol furiosamente ofensivo com mudanças rápidas de posição. Tudo que planejamos em teoria em nossas pranchetas em 2004 se tornou realidade". O massacre do Brasil por sete a um na semifinal pode até se qualificar como hiper-realidade.

Agora o Brasil, no fundo do poço, precisa revolucionar sua maneira de jogar futebol. Eis oito lições que a Alemanha pode ensinar:

1. Não desperdice uma crise. Jamais haverá consenso maior quanto a repensar tudo em seu futebol do que agora. No jargão dos alemães, essa é a "hora zero".

2. O passado é irrelevante. Os cinco títulos mundiais brasileiros nada significam hoje. Só servem para causar a ilusão de que o Brasil continua bom no futebol. O objetivo deve ser jogar como a Alemanha em 2018, e não como o Brasil de 1970.

3. Não culpe indivíduos. Os torcedores brasileiros estavam vaiando o pobre e desavisado Fred, na noite de terça-feira, mas não era sua culpa que ele fosse, talvez, o melhor atacante do país. O sistema falhou. Fred é só um sintoma.

4. A coisa mais importante no futebol é o passe. Não é o drible, a paixão, ou a psicologia. Os alemães são obcecados pela geometria do passe. O Brasil, em contraste, já não pensa seriamente sobre tática, o que é o motivo para que o treinador Luiz Felipe Scolari e a mídia brasileira tenham passado metade do torneio obcecados com a propensão dos jogadores a chorar.

Felipão e Bernard

5. Aprenda com os melhores países. É preciso aceitar que o Brasil já não compreende como jogar futebol. Os alemães de 2004 aprenderam a passar com os holandeses e espanhóis, ritmo de jogo com a Premier League da Inglaterra, recrutamento nas categorias de base com os franceses e condicionamento físico com os norte-americanos.

6. O corolário é que o Brasil provavelmente necessita de um treinador estrangeiro. Klinsmann é alemão mas vive há muito fora de seu país, e foi parar na Califórnia. O Brasil deveria ter convidado o espanhol Pep Guardiola para treinar sua seleção na Copa do Mundo, como sugeriu Ronaldo. É hora de contratar um europeu, e já.

7. Não aceite menos que o primeiro lugar. Para a Alemanha ou o Brasil, o único objetivo é ser o melhor do mundo. Na Eurocopa de 2008, a jovem seleção alemã chegou à final, onde foi destruída pelo passe da seleção espanhola. Löw, o treinador alemão, não se congratulou pelo segundo lugar. Em lugar disso pensou que "quero montar uma seleção como a deles", e começou a trabalhar para tornar seu time mais parecido com a Espanha.

8. Os resultados não serão imediatos, mas é quase certo que o profissionalismo virá imediatamente. A Alemanha lidera o futebol em nutrição, estatística, preparação física e assim por diante. O Brasil precisa ter em mira exatamente a mesma coisa.

O caminho do Brasil para a reforma é mais difícil que o alemão. A federação de futebol da Alemanha tem 6,85 milhões de filiados e é a maior associação esportiva do planeta. O Brasil não tem um poder central comparável para promover mudança em todos os níveis.
O Brasil tem um único gênio, Neymar, que às vezes serve para esconder a doença que assola o futebol brasileiro. (Lionel Messi exerce o mesmo efeito de desaceleração na Argentina.) E geograficamente, o Brasil não está próximo aos países de futebol mais avançado.

Tudo isso dificulta o aprendizado. Mas não há desculpa para chegar à Rússia em 2018 (presumindo que o Brasil se classifique) falando na seleção de 1970 e no jogo bonito. Isso morreu.

Tradução de PAULO MIGLIACCI 

quarta-feira, julho 09, 2014

FUTEBOL NOSSO DE CADA DIA – Parte 1

Por: Benê Lima

O que aconteceu com a Seleção Brasileira não é somente da Seleção, mas de todos nós brasileiros. Mais de uns que de outros, obviamente.

Mas, se a questão que nos motiva é culpar ou eleger culpados, embora essa facilidade não nos atraia, façamos ao menos um rateio dessa culpa, e nos incluamos a todos, seja pelo nosso componente cultural, seja pela nossa característica intelectual, seja pelo arcabouço da nossa moralidade média, ou seja ainda pela natureza da ética que inspira nossas vidas.

Portanto, façamos pois essa justa divisão de responsabilidade, mesmo sabendo, reiteramos, que a regra desta igualdade, será distribuir culpa com desigualdade, na exata proporção das diferenças entre as pessoas. Afinal, não se deve, por dever de justiça, desconsiderar o fato de que o Felipão é o retrato de uma sociedade cujos valores em que se tem estruturado, desprestigia a verdade, a complexidade, a interdisciplinaridade, e que trata, por inegável ignorância, o conhecimento como se fora um inimigo ou algo inescrutável.

Enquanto vemos em muitos dos treinadores que trabalharam e trabalham nessa Copa a face da inovação, o toque da ousadia até, aos treinadores brasileiros parece haver uma proibição ou mesmo um roteiro de ideias preestabelecidas, onde qualquer atitude que pareça fugir da cartilha do habitual ou do conservadorismo encontra-se terminantemente proibido.

Seria pouco provável vermos um Louis van Gal escalar um atleta e, em não vendo resultado, permanecer com o mesmo em campo, a despeito de todo o prejuízo que isso viesse a causar. Foi assim, por exemplo, o que ocorreu com Bernard, para ficarmos tão somente neste emblemático exemplo.

Van Gaal x Felipão

Lamentamos e demos publicidade a isso nas redes sociais, expressando a limitação da visão do treinador brasileiro, que se deixa prender algumas vezes a aspectos típicos de crendice, o que convenhamos, é um atraso, pela negação do conhecimento que isso representa. Falamos isto porque a camisa de Bernard é a de número 20, a mesma utilizada por Amarildo em 62, quando este veio a substituir o gênio Pelé.

Outra coisa para a qual queremos chamar a atenção é para o caráter atípico da partida de ontem, a fim de que não seja ela o fator determinante para que se operem mudanças na estrutura do futebol brasileiro.

É mais inteligente admitirmos que a goleada sofrida é apenas algo explosivo para as seguidas ‘implosões organizacionais’ com as quais nosso futebol vem convivendo.

Se for para atacar os problemas do nosso futebol de fato e verdadeiramente, que antes de pensarmos em reformular o trabalho de base com os jogadores, pensemos seriamente em fazer acréscimos à formação dos nossos profissionais das comissões técnicas, já que eles são os responsáveis pela formação dos nossos atletas.

Portanto, é da mais absoluta importância que se dotem esses profissionais formadores de uma melhor e mais ampla formação, sem o quê é impossível iniciar-se o processo de mudança que nosso futebol está a requerer.

Apesar da acachapante derrota dentro de campo, não deveria ser ela o objeto da vergonha nacional. E enquanto não tivermos capacidade para entender isso, estaremos condenados a repetir os mesmo erros. Ontem, a bola ainda rolava e já era visível o recrudescimento daquilo que nos falta.

Brasil futebol

Entendo que nós da imprensa também perdemos junto com nossa Seleção, isso porque boa parte da nossa representação é tão pouco reflexiva como a maioria dos brasileiros.

Sugiro que não fechemos questão quanto ao ‘cardápio’ para a discussão sobre os rumos do nosso futebol, mas que primeiro estruturemos os ‘pratos’ que devam integrar o ‘cardápio desse grande debate.

Creio que nem Governo nem CBF sozinhos devem estabelecer o rumo e os temas da prosa. Todos os desportistas que quiserem devem ter participação nesse fórum, mesmo que não haja (como não há) assento para todos.

Mas o princípio da democracia representativa também nos serve em mais essa questão.

Não desistamos do bom debate. ∴

Comentário

"OI Benê, Seu comentário é muito adequado ao momento que estamos vivendo. É importante que as pessoas compartilhem as suas percepções para que não fiquemos tão dependentes do que a mídia quer colocar como real. Volte sempre. Um abraço Castilho"

Atenciosamente,
Redação Observatório da Imprensa

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terça-feira, julho 08, 2014

A Ascensão do Futebol Alemão no Século XXI

Caderno de Campo / Eduardo Conde Tega

Não estaríamos hoje copiando o antigo futebol alemão do século XX? Por que não nos inspirarmos naquilo que os alemães vem fazendo nos últimos 10 ou 12 anos?

legado alemao

Ao final da partida histórica entre Brasil X Alemanha e com enorme tristeza, trago um texto publicado em Março de 2012, que sintetiza parte do trabalho realizado pela Federação Alemã, um dos grandes referenciais de estudos da Universidade do Futebol e protagonista na elaboração de um plano de desenvolvimento do futebol naquele país.

por João Paulo S. Medina

Apesar da crise econômica que vem assolando a Europa, é difícil deixar de concordar que, no plano técnico, foi o futebol espanhol aquele que mais chamou a atenção do mundo nos últimos 5 ou 6 anos.

Após um percurso histórico que destacou os legados do Brasil (1958-1970), Holanda (1974-1978), Argentina (1982-86) e novamente Brasil (1994-2002), a Espanha, desde 2008, têm conseguido resultados internacionais expressivos, quer através de sua seleção nacional, quer através de suas duas equipes mais representativas, Barcelona e Real Madrid.

Porém, uma análise mais crítica do desempenho de campo (técnico) das principais escolas do futebol europeu, nos leva a concluir que está chegando a vez da Alemanha ocupar o protagonismo no cenário mundial.

São visíveis as mudanças ocorridas no futebol alemão nos últimos anos. E esta ascensão não se deu ao acaso.

Paralelamente às fundamentais medidas que buscou a saúde dos clubes nas áreas organizacional, econômica e mercadológica, como, por exemplo a instituição de um modelo de “fair play financeiro”, a blindagem contra investidores estrangeiros bilionários e, muitas vezes aventureiros (comuns principalmente na Inglaterra e na França), além de um grande foco no torcedor e sua presença maciça nos estádios, há que se destacar a implantação de um modelo de formação de atletas de base que já vem repercutindo favoravelmente no nível e até no próprio estilo de jogo do futebol alemão, tradicionalmente de imposição física.

Um consistente plano de gestão técnica para a formação de jogadores foi implantado e vem sendo desenvolvido já há mais de 10 anos. Hoje existem mais de 350 centros nacionais de treinamento distribuídos por todo o país, atendendo cerca de 30 mil crianças e jovens (garotos e garotas) entre 9 e 17 anos. A metodologia adotada dá ênfase aos aspectos técnicos e inteligência de jogo e não mais aos tradicionais métodos que destacavam essencialmente a força física e a disciplina tática.

Quando vemos aqui no Brasil, nos últimos tempos, a adoção de uma filosofia, começando na base, que substitui o nosso consagrado futebol-arte, o jogo bonito e criativo, por um futebol onde a força física é o destaque, fica a reflexão: não estaríamos hoje copiando o antigo futebol alemão do século XX? Por que não nos inspirarmos naquilo que os alemães vem fazendo nos últimos 10 ou 12 anos?

piramide_alemã

Processo de qualificação profissional da Federação Alemã de Futebol

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segunda-feira, julho 07, 2014

Copa do Mundo 2014: o ritmo de passes das seleções sul-americanas e das seleções europeias (Parte 1)

Como foi a relação dos passes em função do tempo de bola rolando e do tempo de posse de bola das equipes nos jogos da primeira rodada da fase de grupos

Leandro Calixto Zago / Universidade do Futebol

A transferência da bola (passe <=> recepção/domínio) representa muito da essência de uma equipe de futebol. Do ponto de vista estrutural ou operacional, dá indícios sobre a intenção na ação, conhecimento sobre o jogo, qualidade do processo de treinamento e outros tantos fatores. 

Como produto dessas variáveis e também alinhado a elas, as equipes manifestam (ou manipulam) um ritmo de passes (número total de passes em função do tempo total em segundos) para chegar ao objetivo primário, a vitória. 

Segue abaixo a primeira tabela com os dados das equipes da América do Sul, que, foram agrupadas por similaridade nas médias obtidas.






Figura 1 – Dados do primeiro jogo de Brasil, Argentina e Uruguai

As três seleções tiveram um tempo maior de posse de bola do que seus adversários e apresentaram como média do ritmo de passes relativo ao tempo de posse de bola e ritmo de passes relativo ao tempo total valores próximos. O Uruguai realizou em média 1 passe a cada 3,04 segundos no tempo que esteve em posse de bola. O ritmo se manteve alto mesmo com um volume de passes menor que Brasil e Argentina devido ao tempo menor de bola em jogo na sua partida.
 


Figura 2 – Dados do primeiro jogo de Colômbia e Equador

 

Colômbia e Equador possuem ritmos mais lentos em comparação com as Seleções mais tradicionais da América do Sul, fazendo em média 1 passe a cada 3,66 segundos e 3,98 segundos respectivamente. O ritmo de passes diminui vertiginosamente quando o tempo total de bola em jogo é considerado. Esse dado é resultados obviamente de um menor tempo percentual de posse de bola do que seu adversário, apontando para uma proposta de jogo diferente das três Seleções anteriormente citadas.
 



Figura 3 – Dados do primeiro jogo de Alemanha, Itália e Espanha

 

A Seleção com o ritmo de passes mais elevado foi a Espanha. E o ritmo se manteve elevado mesmo considerando o tempo total de bola em jogo em comparação com todas as outras Seleções analisadas.
 


Figura 4 – Dados do primeiro jogo de Inglaterra, Portugal e Holanda

 

Essas três Seleções apresentaram um ritmo de passes mais lento em comparação com as outras seleções europeias, porém, a maior diferença foi quando o tempo total de bola em jogo foi considerado. Todas tiveram menor tempo percentual de posse de bola do que seus adversários, o que interferiu no tempo de posse e consequentemente na capacidade de manter um ritmo de ações técnicas (o passe nesse caso) mais elevado.
Após a exposição das tabelas com as informações sobre ritmo de passes das Seleções, constata-se que:

1. Como vem sendo constatado em pesquisas nos últimos anos, o tempo de posse de bola possui pouca relação com o resultado que a equipe conquista no jogo. Dos 8 jogos acima citados, em 3 deles, a equipe com menor tempo de posse de bola venceu a partida, correspondendo a quase metade dos jogos avaliados;

2. Os jogos das Seleções Sul-americanas tiveram em geral, menor tempo de bola em jogo (com exceção da Argentina) do que os jogos das Seleções Europeias;

3. Com exceção da Espanha com 83% de aproveitamento dos passes, todas as Seleções vencedoras tiveram um aproveitamento dos passes realizados igual ou superior a 75%;

4. As Seleções com ritmo mais alto (Espanha – 1 passe a cada 2,94 segundos) e com ritmo mais baixo (Equador – 1 passe a cada 3,98 segundos) saíram derrotadas em seus jogos;

5. A Seleção espanhola continua tendo um ritmo alto de passes e recuperando a bola mais rápido que a média das equipes (isso fica claro com o maior volume de passes entre todas as Seleções apontadas e o ritmo mais elevado mesmo considerando o tempo total de bola em jogo), porém, sua capacidade de transformar essas características em efetividade está comprometida;

6. A média do ritmo não considera o tipo de passe (curto, médio ou longo, por exemplo), mas acaba expressando como a equipe sustenta a posse de bola e como constrói seu caminho até o gol;

7. Como a média do ritmo considera apenas a ação técnica do passe, um ritmo mais lento de passes pode ser resultado de equipes que realizam mais vezes outras ações técnicas como condução, cruzamentos e passes mais longos (por consequência com um tempo maior de trajetória), por exemplo. Com isso, a aparente “lentidão” pode sim ser resultado de um tempo maior para a tomada de decisões e imobilidade da equipe, mas não é necessariamente apenas isso;


Referências Bibliográficas

FIFA. Disponível em: http://pt.fifa.com/worldcup/matches/index.html . Acesso em: 23/06/2014.

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