Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

segunda-feira, maio 25, 2015

Desigualdade. A morte do futebol brasileiro em 5 passos


Muita gente defende um campeonato em pontos corridos alegando que este é o sistema mais justo de competição. Seria meritocrático. Mas como falar em Justiça e meritocracia no futebol brasileiro, se o que testemunhamos é a existência de um verdadeiro modelo que favorece sistematicamente sempre os mesmos clubes de futebol?

O leitor duvida? Então vamos aos fatos (e são muitos) que estão desequilibrando o futebol brasileiro, acabando com a nossa paixão e com o próprio negócio daqueles que deveriam preservá-lo (Globo, CBF, patrocinadores). A análise terá como guia de comparação o Palmeiras, clube com uma das cinco maiores torcidas do País.

1) O problema dos direitos de transmissão da TV aberta

O problema não é novo. Mas os beneficiados pelo modelo (veja a posição do presidente do Flamengo e ocomentário do Caldeirão Cruz-Maltino) e aqueles que têm a caneta na mão continuam fingindo que ele não existe.

Atualmente, Corinthians e Flamengo ganham R$ 110 milhões por ano contra R$ 80 milhões por ano do SPFC e R$ 70 milhões por ano de Vasco e Palmeiras. Entre 2012 e 2015, quando este acordo vigorou, Fla e SCCP somaram R$ 160 milhões a mais do que seus maiores rivais locais, Vasco e Palmeiras.

De 2016 em diante, a proposta é ainda mais ultrajante. R$ 170 milhões por ano para Flamengo e SCCP. R$ 110 milhões/ano para SPFC e R$ 100 milhões/ano para Vasco e Palmeiras. Em 04 anos, R$ 280 milhões de diferença entre Corinthians e Palmeiras. É para acabar com qualquer possibilidade competição.

A situação piora para clubes como Goiás, Sport, Atlético-PR, que a partir de 2016 receberão R$ 35 milhões. Salvo cataclisma, sempre entrarão como figurantes nas competições nacionais.

Divulgação/Premier League
Divulgação/Premier League
Na Premier League, a distribuição das cotas é diferente.

O leitor acha que tem que ser assim mesmo? Que é a audiência que deve reger os valores pagos? Não é bem assim. Basta olhar o modelo da Premier League, no Reino Unido (veja post do Sangue Azul ou esta elucidadora matéria sobre a distribuição de cotas no campeonato inglês). Segundo o Sangue Azul, "enquanto os dois times de maior torcida do Brasil recebem algo entre quatro e cinco vezes mais que do aqueles que recebem cotas menores, a proporção na Premier League é 1,5 para 1 entre a maior e a menor cota, e vem caindo sistematicamente ano após ano."

Para quem é torcedor, futebol é paixão. Mas quem gere o futebol brasileiro deveria cuidar para não matar o seu produto, que é uma competição, não um teatro em que alguns (cada vez mais) favorecidos vão esmagar ao final seus concorrentes. O Palmeiras está no pelotão dos favorecidos, mas mesmo assim é difícil concorrer com os que estão acima.


O cenário parece se desenhar claramente. Mantidas as atuais condições, o futebol brasileiro perderá a graça. Ou quem está no controle sofrerá uma rebelião de base e uma indesejada intervenção externa que minará consideravelmente seu poder.

Resultado: focando apenas este primeiro ponto, no ano de 2015 o Palmeiras saiu atrás em R$ 40 milhões em relação ao SCCP e Flamengo.

2) O problema da exposição na TV aberta 

Além do desequilíbrio financeiro direto, a emissora que deveria zelar pelo equilíbrio técnico do campeonato provoca um desequilíbrio financeiro indireto ao expor muito mais os jogos de certos clubes (adivinhem quem), sob o pretexto de que estes são os que dão mais audiência. Assim, mata o seu verdadeiro produto (o campeonato), na tola ilusão de que está fortalecendo dois bons produtos (Corinthians e Flamengo). E ainda ganha, de brinde, a antipatia da geral. Vejamos:

Flamengo – 7 partidas
SCCP e SPFC – 6
Atlético-MG e Cruzeiro – 5
Atlético-PR e Grêmio – 4
Flu, Inter e Vasco – 3
Avaí, Coxa, Goiás, Joinville, Santos e Sport – 2
Palmeiras e Chapecoense – 1
Figueirense e Ponte Preta – 0

O fato é que a superexposição de uns e a não exposição de outros impacta, por exemplo, a venda de patrocínios na camisa, uma importante fonte de receita no futebol. Indiretamente, os clubes com menos partidas transmitidas acabam prejudicados. Pior para o campeonato e para o torcedor. Pior também, para quem quer transformar o campeonato como um todo num produto interessante.

De qualquer forma, ao que tudo indica, o critério não parece ser audiência dos clubes. Vasco e Palmeiras figuram entre as maiores torcidas do País. Mas têm, respectivamente, apenas 3 e 1 partidas transmitidas na TV aberta.

Resultado pontos 1+2: o Palmeiras larga em 2015 com R$ 40 milhões de desvantagem + um prejuízo intangível para fins de patrocínio e para o próprio crescimento de longo prazo da sua torcida.

3) O problema dos valores referentes a transmissão na TV por Assinatura

Acompanhem o raciocínio. Clubes como Flamengo e SCCP têm grande exposição na TV aberta, ao contrário de clubes como o Palmeiras. Logo, é possível supor que os torcedores de Flamengo e SCCP devem ver muito menos benefícios na assinatura de um pacote do brasileirão do que torcedores de Palmeiras ou Vasco. É possível presumir, ainda, que a ausência de jogos na TV aberta acabe por forçar os torcedores desses clubes a procurar a TV por assinatura como única alternativa para seguir seu time. Excluídas as variáveis que estão presentes para todos os clubes (o sujeito que assiste no bar, no estádio, na casa da sogra), essa deveria ser a regra.

Seguindo essa lógica, clubes com torcidas numerosas e pouca exposição na TV aberta deveriam receber um valor substancial referente ao Pay-per-view. Provavelmente até maior que os clubes com torcidas mais numerosas mas que estão na TV aberta.

A detentora dos direitos tem todas as condições de medir isso no momento da contratação. Mas distribui os direitos de outra forma: realiza duas pesquisas (Datafolha e Ibope) entre os assinantes para saber para que time eles torcem. A metodologia não está clara. Ligam apenas nas capitais? Que tipo de pergunta é feita? Ligam só para quem tem o pacote do Brasileirão ou para quem comprou jogos individuais?

Em 2014, Flamengo e SCCP receberam quase um terço do total de receitas do Pay-per-view: Flamengo levou R$ 45 milhões e SCCP 38 milhões. São Paulo, Vasco levaram R$ 20 milhões cada. E o Palmeiras, R$ 17 milhões.

Resultado pontos 1+2+3: o Palmeiras larga em 2015 com um enorme prejuízo intangível pela não exibição de seus jogos na TV aberta e apenas no relacionamento com a Globo, R$ 61 milhões atrás do seu rival SCCP.

Mas você pensa que acaba aqui? Não acaba.

4) Patrocínios Públicos

Não são todos os clubes que tem a honra de contar com um patrocínio de uma empresa pública em sua camisa.

Hoje, a Caixa investe cerca de R$ 100 milhões em clubes de futebol. Será que o leitor advinha quem são os maiores beneficiados?

Segundo dados de 2014, o maior beneficiado é o Corinthians, com um patrocínio no valor de cerca de R$ 30 milhões. O segundo, é o Flamengo, com patrocínio no valor de R$ 25 milhões, renovando agora por 16 milhões somente para a frente da camisa.

Existe uma boa justificativa para isso. Estes clubes são os que obtêm maior exposição na TV aberta. Mas também existe uma boa discussão a ser feita: qual o papel das empresas públicas? O de fazer marketing como qualquer outra para vender seus produtos e serviços, reforçando o papel dominante dos clubes que patrocina? Ou a CAIXA teria condições (e obrigação, por ser uma empresa pública) de inverter essa lógica?

A CAIXA patrocina, sim, clubes com menor exposição: Atletico-GO (R$ 2,4 milhões) e ABC (R$ 2 milhões), estão na Série B. Figueirense e Chapecoense recebem cerca de R$ 4 milhões. Atlético-PR, Coxa e Vitória recebem R$ 6 milhões cada. Ou seja, com o valor destinado ao Corinthians, a caixa poderia patrocinar 15 clubes como o ABC.

E para concluir: Flamengo e SCCP não têm exposição suficiente para conseguir patrocínios no mercado privado? No ano de 2014, o Palmeiras não conseguiu obter patrocínios. Segundo Paulo Nobre, a Copa do Mundo drenou os investimentos no esporte. O Palmeiras chegou a negociar com a CAIXA. Algumas notícias dão conta que Nobre teria recusado um patrocínio de R$ 25 milhões da empresa. Outras, que a CAIXA recuou após ter acertado os valores com a estatal.

Com a CREFISA, o Palmeiras recebe R$ 23 milhões por temporada, ou seja, R$ 7 milhões a menos do que o SCCP recebe da CAIXA.

Resultado da soma dos pontos 1 a 4: o Palmeiras larga em 2015 com um enorme prejuízo intangível pela não exibição de seus jogos na TV aberta, R$ 61 milhões atrás do seu rival SCCP no relacionamento com a Globo e sem patrocínios de empresas públicas em sua camisa (diferença de R$ 7 milhões). A diferença financeira já chega a R$ R$ 68 milhões só em 2015. 

5) O juízo dos Tribunais

Não vou me alongar neste ponto, nem quero criar teorias da conspiração. Mas nossos tribunais são tão profissionais quanto nossos dirigentes.

Num exemplo recente, Vagner Love, então jogador do Palmeiras, foi a julgamento pela infração de um artigo qualquer. Um dos auditores, direcionou-se ao jogador e afirmou que preferia que as trancinhas de Love fossem rubro-negras ao invés de verdes. Belluzzo, a esta altura em conflito aberto com Simon e os tribunais, veio a público para questionar a postura do auditor. É difícil de crer? O video está disponívelaqui

Trata-se de um caso isolado? Difícil afirmar isso.

Na última semana os advogados do Palmeiras recorreram contra a punição de 180 dias aplicada a Dudu, jogador do Palmeiras que empurrou o árbitro no segundo jogo da final contra o Santos. Além de recorrer, o Palmeiras pediu o efeito suspensivo da pena aplicada em primeira instância. Ou seja: que Dudu ficasse livre da pena até o julgamento final.

O efeito suspensivo foi concedido, "mas só daqui a 15 dias". Em matéria narrando o evento, descreveu-se assim a situação:



A decisão, ainda assim, é inesperada, pois normalmente quando um atleta recebe o efeito suspensivo, sua liberação é imediata. Foi o que aconteceu no caso de Petros, por exemplo.

O meio-campista do Corinthians pegou 180 dias de pena também por se chocar com o árbitro Raphael Claus, e três dias depois o jogador recebeu o efeito suspensivo. Ele a partir de então estava livre para atuar.


O TJD-SP (pasmem!) inventou o efeito suspensivo do efeito suspensivo!!!

No período em que Dudu estará suspenso, perderá duas partidas. Contra o Goiás e contra o Sport Club Corinthians Paulista. Não havia precedentes para uma decisão como essa.

O leitor acha que é mania de perseguição? Procure no Google por "Mauro Marcelo de Lima e Silva" e "efeito suspensivo". Rapidamente, você descobrirá que o próprio relator já havia decidido de outra forma, concedendo imediatamente o efeito suspensivo em caso anterior e rigorosamente igual. Faz tempo? Não, o caso foi em abril de 2015! Veja você mesmo no site do TJD-SP  e em notícia de um jornal local.

Dois pesos e duas medidas afetam fundamentalmente a capacidade dos clubes de competir em pé de igualdade.

Gazeta Press
Gazeta Press
De que adianta remar contra a maré e conquistar recursos no mercado? Há interesse em fomentar a meritocracia na gestão do esporte?

Seria possível elencar vários outros motivos nessa lista. Sequer discutimos arbitragem (lembra do Placar Real?), benefícios e facilidades na aquisição de patrimônio (estádio, por exemplo) e a forma como a mídia lida diariamente com cada um dos clubes no seu noticiário (esse era o belíssimo trabalho do Observatório Verde, por exemplo). Nem estamos falando da forma como um clube consegue legitimamente receitas por naming rights, tentando remar contra a maré, mas tem seu estádio carinhosamente chamado de Arena Palmeiras. 

Mas o Brasileirão começou. Vamos torcer. Na fórmula de pontos corridos, são 38 finais. É a fórmula mais justa e meritocrática. São 11 contra 11 e a disputa é dentro de campo. Só que não.

São Paulo recebe 5º Encontro de Gestão no Futebol em agosto

Temas das palestras irão de Inteligência estratégica aplicada, serviço social, tecnologia, até sobre o futebol feminino e a abertura para novos negócios
Equipe Universidade do Futebol

 5º_Gestão_Futebol_Editado
Acontecerá no próximo dia 22 de agosto, em São Paulo, o 5º Encontro de Gestão no Futebol, evento que pretende debater os diversos assuntos relacionados ao esporte.

A programação será destinada a estudantes e profissionais dos cursos de Administração de Empresas, Educação Física, Marketing, Economia, Jornalismo, Assistente Social, Tecnologia em Futebol, Gestão Desportiva, Atletas, ex-atletas e demais interessados pelo futebol.
Já os temas das palestras irão de Diagnóstico do Departamento de Futebol, Inteligência estratégica aplicada ao futebol, serviço social, tecnologia, até sobre o futebol feminino na mídia e a abertura para novos negócios.
O valor do investimento é de R$ 150,00 e as reservas podem serem solicitadas pelo email mkpro01@gmail.com.
DATA: 22 de agosto de 2015 (Sábado)
LOCAL: São Paulo (capital) (a definir)
Horário: das 8:30 às 18h

COORDENAÇÃO
Luiz Geraldo de Souza Moura Junior (Luiz Moura)

COMISSÃO CIENTÍFICA
Luiz Geraldo de Souza Moura Junior (Luiz Moura)
Ricardo Antonio Torrado de Carvalho (Ricardo Torrado)
Mario Luiz Maia Guerra (Guerra)

SUBMISSÃO DE TRABALHOS CIENTÍFICOS
– Link do arquivo 1 (comissão)
– Link do arquivo 2 (modelo de resumo)

PÚBLICO ALVO
Estudantes e profissionais dos cursos de Administração de Empresas, Educação Física, Marketing, Economia, Jornalismo, Assistente Social, Tecnologia em Futebol, Gestão Desportiva, Atletas, ex-Atletas e demais interessados  pelo tema futebol.

TEMAS E PALESTRANTES
  • O Executivo do Futebol – Jeferson José Valle (JJ Valle Sport&Business)
  • Diagnóstico do Departamento de Futebol – Antonio Afif (Economista e Gestor de Futebol)
  • Inteligência estratégica aplicada ao Futebol – Rafael Plastina (Inteligência Esportiva. Ex- Diretor da Sport Track, Score Sports Business e Nielsen Sports)
  • Gestão da Comunicação no Futebol – Alessandro Belcorso (Jornalista e Diretor do Jogo Coletivo Comunicação)
  • Tecnologia no Futebol – Wagner Martinho (Analista de Desempenho com passagem pela CBF e em outros grandes clubes do futebol brasileiro)
  • Serviço Social no Futebol – Silvana Trevisan (Assistente Social no Instituto Neymar Jr e ex-Assistente Social do Santos F.C.)
  • Formação de atletas ao alto rendimento – Lucas Góes (Coordenador Técnico de Futebol no Desportivo Brasil)
  • O futebol feminino na mídia e a abertura para novos negócios – Lu Castro (Jornalista especializada em futebol feminino)
  • A importância da qualificação profissional para a transição de carreira dos atletas – Célio Silva (ex-atleta de futebol profissional, graduando em Gestão Desportiva e Gestor do Projeto Esperança Esporte Clube/SP)

RESERVAS E INSCRIÇÕES
mkpro01@gmail.com

INVESTIMENTO
Via Depósito Bancário
valor: R$150,00
instruções: Enviar comprovante de deposito, nome completo, nome do curso e numero do RG para o email:mkpro01@gmail.com
Dados Bancários
Banco Santander - Agencia: 0663 - Conta Corrente: 01030547-7
Favorecido: Luiz Geraldo de Souza Moura Junior.
Via Pagseguro
valor: R$200,00
instruções: clique no botão abaixo para efetuar o pagamento e garantir sua vaga

OBS: A Coordenação do evento poderá realizar alguma modificação mediante necessidade. Fale com o coordenador pelo Facebook: Luiz Moura Gestão
Realização: MKPRO
Apoio
– JJ Valle Sports & Business
– FutGestão
– Ste (Sports Trade Entertainment)
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quarta-feira, maio 20, 2015

Opinião: "Paixão e rancor" (por Walter Feldman)

"Não vou entrar no mérito da questão pessoal, pois isso não iria acrescentar nada à polêmica. Mas devo afirmar que sou a favor do bom jornalismo de opinião também, mas não sectário de jornalistas. Prefiro ficar com o que me é dado enxergar, e é inegável as mudanças que a gestão do futebol tem experimentado no Brasil." 
BENÊ LIMA, cronista esportivo  
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Juca Kfouri e Walter Feldman
O jornalista Juca Kfouri, como de praxe, publicou mais uma coluna rancorosa na Folha. Dessa vez, em relação a mim e à CBF. Quero, de início, dar meu testemunho sobre os diretores, funcionários e colaboradores da confederação, que são profissionais bem formados, dedicados, comprometidos, enfim, homens e mulheres de bem que não merecem ter sua honra atingida. 
Aqueles que me conhecem sabem que o ódio não é meu forte, que tenho aversão à intolerância. Ao longo dos últimos 40 anos na vida pública, dediquei-me à construção de pontes, levando o diálogo à exaustão em momentos em que as barreiras pareciam insuperáveis. Não compactuo com a ideia de destruir por destruir e acredito que visões radicais são caminho para o atraso. 
Vou deixar de lado as ofensas pessoais que Juca Kfouri pratica. Vamos ao que ele diz, como um colunista que teria, supostamente, a função de informar seus leitores. 
Juca afirma "que a nova direção [da CBF] de nova só tem a maquiagem". Não é verdade. Juca é contra o "fair play", como é contra tudo o que acontece no futebol. Dentro e fora de campo, desmerece vitórias e comemora insucessos com mais vigor do que qualquer adversário. 
Mas na esfera administrativa, nos regulamentos de competição, clubes e CBF dão passos decisivos de avanço. Não se importam com as críticas e realizam "fair play", o trabalhista, por exemplo, por unanimidade de votos das séries A, B e C. Se atrasar salário, perde pontos. 
O presidente Marco Polo Del Nero assumiu em 16 de abril pronto para dar uma arrancada modernizadora para o futebol brasileiro. O primeiro Congresso do Futebol Brasileiro vem aí, aberto a todos. A todos. 
A nova direção da entidade tem mais do que projetos, tem determinação. A pleno vapor está o planejamento para os próximos 20 anos do futebol nacional. A CBF não trabalha só. Ouve os clubes, as federações, edita regulamentos a várias mãos, convida a participar. 
Só nesses poucos dias de gestão reunimos em seminários treinadores, médicos e gestores de clubes. 
Foi criada a área de planejamento estratégico com a missão de coordenar as novas práticas: cursos de capacitação e reciclagem, certificação pelo ISO 9001 das áreas-fim, sustentabilidade, novo modelo organizacional, nova identidade de marca, pesquisas de opinião, regras de governança, "compliance", orçamento base zero, só para começar. 
Caminham em paralelo a comissão de clubes e o grupo de trabalho para discussão da relação entre clubes e atletas, com larga participação dos artistas da bola. Terão ênfase temas como calendário e previdência. 
Com tantas inovações, pode-se prever muita irritação nas colunas de Juca Kfouri, que já tem a verdade definitiva assentada em sua cabeça, que parte do pressuposto de que tudo no futebol brasileiro é ruim, que nossos jogadores são barnabés e que tudo que o futebol faz é desprezível. 
Gostamos do desafio de elevar nosso popular esporte a um patamar cada vez mais formador, competitivo, justo e social. 
Felizmente, Juca e eu estamos em campos opostos. Ele gosta de medida arbitrária. Eu, do debate democrático. Ele coloca a certeza empedernida adiante dos fatos. Eu, não. Eu vejo magia nos campos. Ele vê bruxarias. Eu acho que futebol é paixão. Ele acha que é rancor. 
Eu amo futebol. Ele, talvez, simplesmente, não ame.

WALTER FELDMAN, 61, médico, é secretário-geral da CBF - Confederação Brasileira de Futebol. Foi deputado federal pelo PSB-SP
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terça-feira, maio 19, 2015

Seminário de Desenvolvimento de Futebol Feminino tem início

Começou o Seminário de Desenvolvimento do Futebol Feminino
 O Seminário de Desenvolvimento do Futebol Feminino começou na manhã desta terça-feira, no auditório da sede da CBF. O presidente Marco Polo Del Nero foi o responsável pela abertura do evento. O secretário-geral, Walter Feldman; o diretor de Patrimônio e Fundo de Legado, Oswaldo Gentile; o coordenador de futebol feminino, Marco Aurélio Cunha; e a gerente sênior da FIFA para desenvolvimento do futebol feminino, Mayi Cruz Blanco, também fizeram parte da mesa inicial do seminário.
Marco Polo ressaltou a experiência de Marco Aurélio Cunha, que, segundo o presidente da CBF, fará um excelente trabalho no comando do futebol feminino. Além disso, o presidente falou sobre a importância do governo nesta modalidade.
– O governo tem que nos ajudar. Temos que colocar o futebol feminino nas escolas, com as aulas de educação física. Temos que abrir oportunidades para as meninas que desejam jogar futebol.
Mayi Cruz Blanco falou sobre o momento do Brasil nesse esporte.
– Esse é um momento de mudança para o futebol feminino no Brasil. É o momento de dar condições para todas as mulheres que querem jogar futebol. Espero que todos concordem comigo porque precisamos de todos vocês para mudar o futebol feminino aqui.
Os presidentes de federações Mauro Carmélio (CE), Heitor Costa (RO), Antônio Aquino (AC) e Cesarino Oliveira (PI), representantes de clubes e ex-jogadoras de futebol assistem às palestras. O secretário Nacional de Futebol Defesa dos Direitos dos Torcedores, Rogérimo Hamam, também esteve presente.
O técnico da Seleção Brasileira Feminina, Vadão; o coordenador técnico, Fabrício Maia; e a jogadora Formiga, volante da Seleção, estão presentes no seminário.

Representante da FIFA fala sobre a evolução do futebol feminino no mundo
A primeira palestra do Seminário de Desenvolvimento de Futebol Feminino foi apresentada pela gerente sênior da FIFA para desenvolvimento do futebol feminino, Mayi Cruz Blanco.
Mayi mostrou aos participantes do seminário alguns casos de outros países e falou sobre o aproveitamento do futebol feminino como ferramenta social. Fez uma exposição sobre o trabalho em nações como Camboja, México, Canadá e Paraguai.
– Precisamos cada vez mais de mulheres jogando futebol feminino no Brasil e no mundo. A FIFA tem projetos e temos que fazer o nosso melhor para que isso aconteça, mas precisamos de nossos filiados para fazer tudo o que queremos.
Além de aumentar o número de mulheres dentro de campo, a FIFA quer mais representantes femininas em todo o processo da modalidade, atuando como treinadoras, administradoras, diretoras e todos os cargos envolvidos.
A representante da FIFA contou a trajetória da Seleção Japonesa. Durante dez anos, o país investiu nas categorias de base do futebol feminino e, neste ano, na Copa do Mundo do Canadá, defenderá o título mundial.
– O Brasil é um país muito apaixonado por futebol e tenho certeza de que é o lugar perfeito para o crescimento do futebol feminino. Contamos com vocês – concluiu a gerente da FIFA.

Manoel Flores explica o funcionamento das competições de futebol feminino

O diretor de Competições da CBF, Manoel Flores, e o supervisor das competições de futebol feminino, Arthur Figueiredo, falaram sobre os dois torneios organizados pela entidade: Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro.
A Copa do Brasil está em sua nona edição - o atual campeão é o Kindermann -, e o Campeonato Brasileiro, em sua terceira edição, tem a Ferroviária como campeã.
No Brasileiro há clubes de camisa, que atraem a mídia e patrocinadores, mas, segundo Manoel, a CBF busca valorizar os clubes que fazem um belo trabalho no futebol feminino ao longo dos anos e por isso, nesta competição, a entidade busca mesclar os dois grupos.
O Brasileiro será disputado em setembro deste ano. Para saber mais, acesse a página de Competições da CBF.
Manoel Flores se pôs à disposição dos clubes e da FIFA para melhorias e desenvolvimento das competições da CBF. 

Vadão e Fabrício Maia falam sobre a Seleção Brasileira Feminina
O técnico da Seleção Brasileira Feminina, Vadão, e o coordenador técnico, Fabrício Maia, participaram do Seminário de Desenvolvimento do Futebol Feminino. Eles foram os responsáveis pela palestra sobre a Seleção Brasileira e sua preparação para a Copa do Mundo do Canadá.
Vadão mostrou a estratégia adotada para a evolução tática e física e o crescimento técnico da seleção permanente, visando à Copa do Mundo e às outras competições.
– Sabemos que a seleção permanente não é o ideal para o fomento do futebol feminino no Brasil, mas esta foi a solução a curto prazo encontrada pela CBF para que a Seleção Feminina chegue em alto nível no Mundial. Os resultados dos treinamentos e dos testes têm nos mostrado uma grande evolução desde o início do trabalho – disse Vadão.
Fabrício Maia explicou um pouco do trabalho realizado nas categorias de base da Seleção Brasileira: Sub-15, Sub-17 e Sub-20. O coordenador técnico mostrou os calendários com jogos e torneios internacionais que essas categorias disputarão em 2015.
O Brasil estreia na Copa do Mundo de Futebol Feminino no dia 9 de junho contra a Coreia do Sul, na cidade de Montreal. 

Formiga: a visão dentro do campo
Formiga foi a encarregada de passar para todos os participantes do Seminário de Desenvolvimento Futebol a visão de dentro de campo. Com tantos presidentes de federações, clubes, treinadores na plateia, a volante da Seleção Brasileira foi a responsável por mostrar tudo que já viveu nestes 20 anos de futebol feminino.
A jogadora, que disputará sua quinta Copa do Mundo, falou aos participantes sobre o seu amor ao futebol feminino e que isso serve como orgulho e motivação para que ela continue a lutar dentro de campo.
Formiga ressaltou a importância do Seminário e falou sobre a responsabilidade de todos que estão assistindo às palestras.
- A realização desse seminário já é um vitória! Sei que as pessoas que estão nessa sala amam e apoiam o futebol feminino e por isso temos que aproveitar a oportunidade para ajudar a nossa modalidade. 
 
Experiência dentro e fora de campo: Duda fala sobre categorias de base


O investimento nas categorias de base do futebol feminino é um dos objetivos do fundo do Legado da Copa do Mundo FIFA 2014. Para falar sobre esse assunto, Duda Luizelli, que tem uma escolinha de futebol feminino há mais de 20 anos em Canoas, no Rio Grande do Sul, foi convidada para o seminário.
Duda explicou o que faz em sua escola: crianças de 2 a 6 anos têm aulas na pré-escola; de 7 a 10 anos jogam em turmas mistas; Sub-13, Sub-15 e Sub-17 participam de treinamentos só para meninas.
A responsável por este projeto social deu o exemplo de Carol, zagueira que disputou a Copa do Mundo Sub-17 em 2012 e Sub-20 em 2014. Ela começou jogando na escola da Duda.
- Temos que fomentar o futebol de base no Brasil, precisamos investir para termos grandes jogadoras no futuro. As grandes estrelas de hoje não estarão aqui para sempre - concluiu Duda. 
 . (Fonte: CBF / Edição: Benê Lima)

segunda-feira, maio 18, 2015

11 lições do futebol para quem precisa administrar talentos

MIKE FORDE
SIMON KUPER
DO "FINANCIAL TIMES"

Gestão de talentos tem sido uma obsessão no mundo corporativo pelo menos desde 1997, quando a consultoria McKinsey identificou uma guerra pelos melhores profissionais.

A batalha mais visível dessa guerra são os esportes coletivos, principalmente o futebol.

"É o melhor modelo da atualidade para estudar negócios que dependem de talentos", escreve Chris Brady, professor de da escola de negócios da Universidade de Salford, na Grã-Bretanha.

Grandes clubes mais da metade de suas receitas com os salários de no máximo 7% de seus funcionários: os jogadores. Esses atletas são jovens, ricos, multinacionais, volúveis e, muitas vezes, egocêntricos. Ou seja, difíceis de administrar.
Técnicos de futebol são, acima de tudo, gestores de talentos.

A decisão da Liga dos Campeões de 2012 é um bom exemplo. Faltavam poucas horas para o início do jogo e o técnico do Chelsea, Roberto Di Matteo, havia escolhido 10 de seus 11 titulares, mas não conseguia escalar o meio-campo.
Seria alguém com a missão de marcar os perigosos Arjen Robben e Philipp Lahm, do Bayern de Munique.

Na última reunião com o time, Di Matteo chamou de lado o lateral esquerdo Ashley Cole, expôs sua situação e, em seguida, perguntou a Cole quem ele sugeriria para a meia-esquerda.

Em vez de apontar uma das estrelas do time, o jogador sugeriu um reserva de 22 anos, Ryan Bertrand, que nunca havia jogado no torneio.

"Por quê?", perguntou Di Matteo, surpreso. "Confio nele", foi a resposta. Bertrand jogou bem e o Chelsea bateu o Bayern nos pênaltis. Em parte, foi uma vitória da capacidade de Di Matteo de pôr de lado seu próprio ego e deixar que a confiança entre dois jogadores guiasse sua decisão.

Um dos autores desse artigo, Mike Forde, foi diretor de futebol do Chelsea de 2007 a 2013 e hoje dá consultoria a outros clubes, incluindo o campeão da NBA (liga americana de basquete), San Antonio Spurs. Ele identificou 11 lições futebolísticas (uma para cada posição em campo) na gestão de talentos:

1. Grandes talentos geralmente vêm com grandes egos. Aceite-os.
Carlos Queiroz, ex-técnico do Real Madri, diz que os grandes jogadores estão conscientes de que têm um talento excepcional "para além da arrogância". "Grandes talentos sabem que seus patrões precisam deles, e isso lhes dá cacife para quebrar as regras de comportamento."

O senso comum diz que egos prejudicam uma corporação, mas estrelas do futebol triunfam por causa de seus egos, que os impulsiona para a frente.
Odd Andersen - 12.mar.2013/AFP
Didier Drogba (dir.) comemora gol
Didier Drogba (dir.) comemora gol
Na mesma final de 2012 da Liga dos Campeões, o centroavante Didier Drogba deu a vitória a seu time ao converter o quinto pênalti. Quatro anos antes, em Moscou, o mesmo Drogba bateu o quinto pênalti numa final, mas errou o alvo.

No Chelsea de 2012 Forde chamou Drogba no vestiário e perguntou se ele se sentia à vontade para bater o último pênalti. "Não quero outro coisa", respondeu. Ele se viu no centro da tragédia em Moscou e queria uma vingança pessoal.

Se o que você quer é administrar soldados obedientes, sua vida será mais fácil, mas terá que renunciar a talentos de personalidade difícil, como Drogba. Como diz o técnico do clube britânico Arsenal, Arsene Wenger, "se quiser uma semana fácil [treinando os jogadores], prepare-se para um final de semana difícil [nos jogos]; se quiser um fim de semana fácil, então enfrente a semana difícil".

O ex-técnico do Chelsea Guus Hiddink diz que administrar pessoas difíceis é o principal teste de um executivo. O senso comum diz que "nenhum jogador é maior que o time", mas o time deve ser capaz de acomodar todos os grandes jogadores.

Antônio Gaudério/Folha Imagem
O brasileiro Romário, que, apesar da indisciplina, foi aceito pelo técnico Guus Hiddink no PSV Eindhoven
O brasileiro Romário, que, apesar da indisciplina, foi aceito pelo técnico Guus Hiddink no PSV Eindhoven
Quando Hiddink treinou o time holandês PSV Eindhoven 25 anos atrás, sua principal estrela era o brasileiro Romário. O jogador frequentemente atrasava sua volta do Rio de Janeiro, se excedia no Carnaval, mostrava preguiça de treinar e faltava em refeições do time. Hiddink simplesmente o dispensou de seguir a disciplina do grupo.

Isso implicou defendê-lo das reclamações dos outros jogadores, que treinavam duro e não faltavam a compromissos. Romário entendeu qual teria que ser sua contrapartida: o desempenho nos jogos.

Dave Kendall - 25.ago.1996/Associated Press
O jogador francês do Manchester United Eric Cantona
O jogador francês do Manchester United Eric Cantona
Talvez o maior sucesso de Alex Ferguson nos 27 anos em que dirigiu o britânico Manchester United tenha sido manter o extremamente complicado Eric Cantona no time de 1992 a 1997. O francês se juntou ao time aos 26 anos, deixando um rastro de descontentamento pelos sete clubes por que passara. Ferguson compreendeu que a chave para a personalidade de Cantona era sempre ficar de seu lado, mesmo que ele estivesse errado –até mesmo quando ele chutou um torcedor.

Cantona retribuiu essa lealdade.

2. Entenda o ponto de maturidade dos grandes talentos
Gregg Popovich, técnico do San Antonio Spurs, explica: alguns jogadores oscilam muito no começo de carreira porque são imaturos. Falta disciplina, comprometimento e capacidade de ouvir. No entanto, a maioria deles amadurece –em geral quando começam uma família ou enfrentam um fracasso. É nesse ponto que eles "superam-se a si mesmos", diz Popovich.

A partir daí, eles entendem seus limites e passam a ser "administráveis".

Andy Lyons - 9.fev.2015/AFP
Gregg Popovich, técnico do San Antonio Spurs, dá instruções a Patty Mills
Gregg Popovich, técnico do San Antonio Spurs, dá instruções a Patty Mills
3. Identifique e elogie quem se sacrifica pelo grupo
Boudewijn Zenden, holandês que jogou no Barcelona e no Chelsea, diz que "o futebol é o mais individual dos esportes em grupo". Isso quer dizer que talentos querem a glória para si próprios, não apenas para o time. Todo jogador quer ser uma estrela em sua posição preferida.
Zenden lembra que na Eurocopa do ano 2000, ele e Marc Overmars queriam jogar pela esquerda na seleção holandesa. Overmars praticamente se recusava a jogar pela direita.
O técnico da seleção, Frank Rijkaard, escalou Overmars pela esquerda na primeira partida. Com relutância, Zenden concordou em jogar pela direita pelo bem do time. "Foram os piores 45 minutos da minha vida", diz ele. Quando subiu a placa de substituição, ele tinha certeza de que seria sacado de campo. Para sua surpresa, porém, Rijkaard tirou Overmars e moveu Zenden para a esquerda. "Fiz uma assistência e um gol, e vencemos por 3 a 0."
Durante todo o restante do torneio, Zenden jogou pela esquerda. Ao recompensar o sacrifício do jogador, Rijkaard também incentivou outros jogadores a fazer o mesmo.

4. Não tente dominar os talentos

Talentos vencem jogos. Os melhores se sentam ao lado dos donos dos times e, às vezes, assumem o lugar do técnico. Gestores de sucesso aceitam esse fato. Eles não impõem sua autoridade tentando dominar os talentosos.

Pep Guardiola no Bayern de Munique, por exemplo, evitava se intrometer nos vestiários, que ele considerava território dos jogadores.

Jon Super/Associated Press
o jogador do Manchester United Wayne Rooney
o jogador do Manchester United Wayne Rooney
Treinadores de futebol são em geral comparados com generais, mas hoje eles são mais como diretores de cinema –precisam conduzir mais do que comandar. Alex Ferguson foi um técnico que aprendeu a aceitar o que não conseguia controlar. Em 2010, seu melhor jogador, Wayne Rooney, ameaçou publicamente deixar o United por um salário maior no rival Manchester City.
Ferguson ficou vexado, mas precisava de Rooney, e por isso elevou seu salário e acalmou seus ânimos. A missão do técnico é ganhar jogo e não impor vontades. O conceito chave é o de "liderança solidária".

5. Peça conselhos a seus craques –mas apenas conselhos

Foi o que fez Di Matteo com Cole em 2012. Da mesma forma, em 2010, o então treinador do Chelsea Carlo Ancelotti escalou o time para o jogo final contra o Portsmouth, mas depois incluiu os jogadores na estratégia para a partida.
Como previa, o time optou por uma estratégia semelhante à que ele adotara durante toda a temporada. Mas, dessa vez, Ancelotti tinha certeza de que eles seguiriam o que havia sido combinado, porque eles haviam sugerido aqueles passos e os haviam compreendido. O Chelsea bateu o Portsmouth por 1 a 0.
J. J. Guillén/Efe
O presidente do Real Madrid, Carlo Ancelotti
O presidente do Real Madrid, Carlo Ancelotti
Ancelotti deu poder a seus craques. David Brailsford, chefe do time de ciclismo Team Sky, afirma: "Nosso resultado é sempre melhor se temos algum grau de autonomia e responsabilidade sobre o que fazemos. Ninguém gosta de apenas receber ordens".

De qualquer forma, a decisão final sobre a estratégia tem que ser do técnico. É essa a sua função. Quando o Bayern recebeu o Real Madrid na semifinal da Copa dos Campeões, os jogadores alemães convenceram o técnico Guardiola a adotar o esquema 4-2-4. O Bayern perdeu de 4 a 0.

"Passei toda a temporada evitando o 4-2-4. Como fui adotar o esquema bem num jogo decisivo? Arruinei tudo", lamentou-se Guardiola ao final da partida.

6. A tarefa do técnico não é motivar

Talentos são naturalmente motivados.
O comediante Peter Cook costumava representar um treinador de futebol que, num sotaque britânico, murmurava os três segredos de sua função: "Motivação, motivação, motivação". Por trás dessa obsessão está a ideia de que os jogadores são crianças inertes nas quais é necessário infundir motivação, de preferência com uma preleção inspiradora antes de cada jogo.

Mas não é assim que funciona o esporte de alto desempenho. Numa tarde no campo de treinamento do Chelsea, Ancelotti perguntou a Forde o que ele havia aprendido quando chegou ao Chelsea vindo do Bolton, um clube muito menor, em 2007.

Forde disse que no Bolton, a cada quatro ou cinco jogos, a equipe precisava lembrar aos jogadores o beabá: vencer jogos, comportar-se bem, agir profissionalmente. Mas nos seis primeiros meses no Chelsea, nunca um técnico havia tido aquele tipo de conversa com seus atletas.

Ancelotti sorriu e respondeu: "Mike, nossa tarefa não é motivar os jogadores. É não desmotivá-los, não deixar de oferecer a eles os desafios e metas de que seus talentos necessitam".

Um craque é geralmente motivado por si mesmo. Ele quer subir em sua carreira e, para isso, quer ter líderes que respeite.
Yoan Valat/Efe
Corrida de bicicletas Volta da França
Corrida de bicicletas Volta da França
Brailsford concorda. Para vencer a Volta da França, diz ele, é preciso treinar nas manhãs chuvosas quando não se está nem um pouco animado. Mais que motivação, o que importa é comprometimento de longo prazo.

Antes de jogos decisivos, os atletas não precisam de motivação. Mais frequentemente, eles precisam é de relaxamento. É por isso que o grande treinador do Nottingham Forest, Brian Clough, às vezes distribuía cervejas nas viagens para jogos importantes. Geralmente, suas últimas palavras antes de o time deixar o vestiário eram "Vão e divirtam-se!".

Guardiola, falando sobre sua saída do Barcelona, disse: "O que aconteceu no Barça não foi uma falha minha em motivá-los. Eu falhei foi em seduzi-los". Motivar implica uma relação de cima para baixo, enquanto seduzir é uma relação entre iguais.

7. Craques precisam confiar uns nos outros, mais do que confiar no chefe

Num jogo crucial ou numa decisão importante de negócios, a relação fundamental de confiança é entre os que precisam trabalhar em grupo. Eles não precisam gostar uns dos outros, mas precisam confiar na capacidade dos colegas.

8. Desenvolva os talentosos

Geralmente, numa organização, o executivo gasta muita energia administrando gente incompetente, porque eles causam os principais problemas. Enquanto isso, os talentosos são deixados sozinhos.

Isso é perder uma oportunidade, porque pessoas talentosas geralmente aprendem rápido e querem crescer. Um craque em geral adere a uma empresa porque acredita que vai se desenvolver ali. Se seu chefe mostra que se importa com seu crescimento, ele retribui a atenção com confiança e lealdade.
Gabriel Bouys/AFP
O francês Thierry Henry (esq.) comemora um gol
O francês Thierry Henry (esq.) comemora um gol

Bons chefes criam uma cultura de aprendizado. Wenger, por exemplo, costuma mostrar a seus jogadores qualidades que nem eles próprios conheciam. Ele transformou o inconstante Thierry Henry em um goleador, o meia Lilian Thuram em um excelente defensor e o defensor Emmanuel Petit em um bom meia.

Apreciador de biografias, Wenger acredita que a excelência só aparece quando alguém talentoso encontra uma pessoa que lhe demonstra confiança.

Jose Mourinho, do Chelsea, é um rival de Wenger, mas compartilha de sua prioridade em desenvolver talentos. Um dia, depois de uma das primeiras sessões de treinamento que liderou no clube britânico, em 2004, Frank Lampard saiu nu do chuveiro. Mourinho encarou-o.
"Tudo bem, chefe", perguntou Lampard.

"Você é o melhor jogador do mundo", respondeu Mourinho.
O jogador nu não soube o que responder.
"Você", continuou Mourinho, "é o maior jogador do mundo. Mas agora precisa provar isso e ganhar campeonatos. Entendeu?"

Glyn Kirk - 1º.jan.2015/AFP
O técnico português Jose Mourinho
O técnico português Jose Mourinho
Isso era um sinal para Lampard de que Mourinho propunha um programa individual de desenvolvimento –um projeto para passar de bom a ótimo. Hoje, Mourinho parece envolvido em um projeto similar com Eden Hazard, recentemente eleito o jogador da temporada por seus colegas de Liga dos Campeões.

Guardiola é outro técnico que emprega muita energia para aperfeiçoar jogadores que já têm um bom desempenho. Numa noite em 2009 em que assistia a um vídeo do Real Madri, ele percebeu um grande espaço entre os zagueiros e os meias do time rival. Telefonou para Lionel Messi: "Ei, acabo de ver algo realmente importante. Poderia dar um pulo aqui?" Messi chegou em meia hora e Guardiola mostrou-lhe, no vídeo, a lacuna defensiva onde ele queria que Messi jogasse. Naquela noite começou a transformação de Messi de meia-atacante em centroavante ou "falso 9".

E foi assim que Messi se transformou no melhor jogador do mundo.
No entanto, transformar craques só dá resultado se eles quiserem. Perarnau escreve: "Quando um jogador diz 'já chega', quando ele deixa de acreditar em sua própria capacidade de melhorar, Guardiola joga a toalha também".

9. 99% do sucesso em recrutamento e da seleção vêm de quem você NÃO contrata

Tenha cuidado ao recrutar novos talentos, porque uma organização é um ambiente frágil. Guardiola compara um time a uma garrafa de vidro pendurada por um barbante. Incluir um jogador fraco ou indisciplinado pode prejudicar a cultura e a moral do grupo e afastar outros craques.

Em janeiro de 2008, o Chelsea teve a chance de contratar da Inter de Milão o jogador brasileiro Adriano. Forte e hábil, ele parecia ser a contratação perfeita. Mas o Chelsea pesquisou sua vida particular e ficou em dúvida sobre sua disciplina. Desistiu do negócio. Meses depois, a carreira do atleta entrou em declínio.

Muitas vezes, uma organização não precisa olhar para fora para enriquecer sua equipe. Os talentos podem estar lá dentro, acostumados a seu modo de operar e à sua cultura organizacional. No Barcelona de 2008, Guardiola deu uma chance a Pedro, adolescente formado em suas categorias de base. Dois anos depois, Pedro ganhou a Copa do Mundo, na seleção espanhola.

10. Aceite que o talento que você desenvolveu pode ir embora

Quando Nicolas Anelka chegou ao Bolton em 2006, esse era o menor clube em que já tinha jogado. Sua carreira não vinha brilhando tanto quanto seu talento, e o Bolton lhe oferecia um contrato de quatro anos. No entanto, durante a negociação, o clube lhe disse que esperavam que ele ficasse apenas dois anos.
O jogador releu o contrato procurando por uma cláusula que talvez tivesse deixado passar, mas os executivos do clube garantiram que não havia nenhuma "pegadinha". Apenas acreditavam que, se ele colocasse em prática todo seu talento, chegaria fácil a 40 gols em duas temporadas e um grande clube o levaria embora.

Imediatamente, Anelka passou a ter uma meta no Bolton: um atalho para um clube maior. Ele brilhou em seu novo time e, em janeiro de 2008, foi contratado pelo Chelsea.

Adrian Dennis - 22.fev.2011/AFP
O francês Nicolas Anelka, em jogo do Chelsea
O francês Nicolas Anelka, em jogo do Chelsea
Poucas pessoas muito talentosas procuram um emprego para toda a vida. Na média, profissionais com formação superior mudam de emprego 11 vezes em sua carreira. Atletas do futebol de elite jogam, em média, para 4 clubes diferentes.

Os grandes craques não morrem por uma camisa. Um clube é apenas um veículo para seu talento. Se eles quiserem se mudar para uma organização melhor, não há nada que possa impedi-los.

A tarefa do chefe é procurar por produtividade, não por lealdade. Um bom gerenciador de talentos tenta segurá-los o maior tempo possível, mas, ao mesmo tempo, prepara-se para sua saída.

11. Avalie o momento em que o talento chega ao pico

Em média, jogadores de futebol chegam ao ápice aos 28 anos de idade –quando combinam cabeças maduras com pernas ainda jovens. Mas cada trajetória é única. Quando Frank Arnesen era diretor técnico do Chelsea, costumava perguntar "quando este jogador chega aos 28 anos?". No clube britânico, considerava-se que o auge vinha em geral após 300 jogos, 7 temporadas, 3 clubes, 1 grande sucesso e 1 grande derrota.

Alexandre Rezende - 2.set.2011/Folhapress
O russo Garry Kasparov, campeão mundial de xadrez, joga xadrez com estudantes em SP
O russo Garry Kasparov, campeão mundial de xadrez, joga xadrez com estudantes em SP
Uma vez tendo chegado ao topo, um jogador é um bloco de gelo que derrete –fisica e mentalmente. Poucas pessoas conseguem manter a concentração que o esporte de alto desempenho exige. O campeão de xadrez Garry Kasparov, amigo de Guardiola, lhe disse durante um jantar em Nova York: "No momento em que venci meu segundo campeonato, em 1986, soube quem me derrotaria no final". "Quem?", perguntou Guardiola. "O tempo", respondeu Kasparov.

Kevin Roberts, chairman executivo da agência de publicidade Saatchi & Saatchi, sugeriu que o Chelsea mudasse sua pergunta para "Quando este jogador chega aos 26 anos?", porque acredita que os talentos estão se revelando mais cedo e se esvaindo mais rapidamente.

As causas para isso, avalia Roberts, são a demanda por muitas viagens e a necessidade de estar a postos 24 horas por dia, 7 dias por semana.
O truque é substituí-los antes que virem apenas uma poça d´água.

SIMON KUPER é colunista da revista do "Financial Times"
MIKE FORDE é consultor em gestão de talentos