Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

segunda-feira, maio 02, 2016

A República dos 7 x 1: da Copa do Mundo ao impeachment

POR RODRIGO ANDRADE*
Quando a seleção brasileira entrou em campo no Itaquerão para o primeiro jogo da copa do mundo, os jogadores em fila indiana com a mão no ombro do jogador à sua frente, me lembrei da pintura de Peter Brueguel, “A parábola dos cegos”, de 1568, em que uma fila de mendigos cegos tropeçam e caem, de acordo com a parábola de Cristo “Se um cego guia outro cego, os dois caem num buraco”. Como pode uma seleção brasileira entrar em campo da mesma maneira que um time de cegos entraria?! E nem precisava ir tão longe para fazer tal associação, pois um pouco antes da copa do mundo houve a copa mundial de futebol de cegos, da qual o Brasil se saiu campeão, e num comercial da Coca Cola veiculada durante o Mundial, esse time campeão tinha o prazer de acariciar a verdadeira copa do mundo, o troféu que viria a ser entregue ao capitão da seleção alemã. E numa cena que seria tocante não fosse a capacidade intrínseca da propaganda de tornar tudo boçal, o nosso time de cegos entra no recinto onde está a taça em fila indiana com as mãos nos ombros do jogador da frente, com a humildade e a dignidade de quem enfrenta dificuldades gigantes.

No caso da seleção brasileira, em vez de humildade e dignidade, havia máscara e demagogia, e a simbologia inscrita na fila de cegos que usava ao entrar em campo acabou sendo a tradução perfeita para o futebol apresentado durante a copa, sem a menor noção de suas limitações, uma ausência total de planejamento futebolístico, de visão de jogo, de qualquer preocupação técnica ou tática, apostando todas as fichas no talento do jogador brasileiro (a esta altura uma figura histórica), na família Felipão, e principalmente no clamor patriótico da torcida e na fé em Deus. A histeria com que os jogadores (e a torcida) cantavam o hino nacional aos berros e no modo como, de olhos bem fechados, os jogadores erguiam seus indicadores para o céu e rezavam antes de começar as partidas, tentando inflamar o ambiente e o time mostram isso (sendo que o time seguia sem a mínima combustão)… Aliás, conseguiram inflamar o time, sim, só que para pior! Já que o destempero emocional de jogadores experientes como o capitão Tiago Silva, incapaz, aos prantos, de bater um pênalti contra o Chile, foi outro fator decisivo para o desastre… Em suma, a seleção brasileira apostou na irracionalidade, apelando para sentimentos nobres (e falsos), se esquecendo de jogar futebol e pagou um preço que jamais sonhou pagar.
Menos de dois anos depois, o Brasil inteiro se vê arrasado por um tsunami de ódio e irracionalidade baseados nos mesmos sentimentos nobres do patriotismo (“o último reduto dos canalhas”**) da fé, da luta do bem contra o mal (que se coloca acima da lei), num maniqueísmo primitivo e fanático (como acontece entre as torcidas de futebol). Uma onda gigante de panelaços, gritos guturais, intolerância e até discursos em prol da ditadura militar varreu o Brasil de norte a sul. Pois a meu ver esse movimento, que teve seu germe nas manifestações de 2013, se plasmou com forma e unidade um ano depois, justamente na Copa do Mundo, em dois momentos marcantes: o vexaminoso xingamento da torcida à presidenta Dilma no jogo de abertura e nos inacreditáveis 7 x 1 contra a Alemanha. O primeiro por razões óbvias, o segundo por ser o desfecho humilhante daquela apoteose de patriotismo e fé. Ninguém esperava 7 x 1, mas o que esperava aquela torcida ignorante de futebol que só sabia cantar ” Sou brasileiro com muito orgulho”? Que cantar o hino nacional à capela ganhasse os jogos, derrubando os adversários como se fossem as muralhas de Jericó? Tentavam ganhar no grito.
E se uma simples derrota num jogo de futebol já é difícil de engolir (a culpa é quase sempre do juiz), imagine uma derrota da nossa seleção, símbolo máximo da nossa excelência, reconhecida como a melhor do mundo, em casa?! Acrescente-se a isso a derrota patética da fé e do patriotismo em tamanho fervor! O baixo nível do nosso time, a profundidade abissal da nossa incompetência em campo é por demais doloroso para ser aceito ou meramente reconhecido e foi simplesmente recalcado, enterrado vivo, e vivo permanece, oculto. Sentimentos ruins como vergonha, desprezo e raiva daquela porcaria de time apodrecendo no espírito dessa gente orgulhosa. Pra onde foram esses fétidos sentimentos todos? Acredito que o recalque dos 7 x 1 é um elemento fundador (entre outros, claro, mais importantes, claro) desse movimento pró impeachment, dessa onda de ódio. Não é a toa que esses manifestantes usavam a camisa da seleção brasileira como uniforme para protestar contra o governo e usam calças e saias brancas, como a seleção brasileira em quase todos os jogos da Copa (embora não contra a Alemanha, diga-se). Em cada brasileiro e brasileira gritando pelo impeachment, um David Luiz, um Fred, um Hulk. A vergonha, a frustração e a raiva que aquele uniforme inspirava foi trocada, neuroticamente, patrioticamente, pela veneração. Me pergunto se, à luz da polarização que divide hoje o Brasil, a seleção brasileira não representa apenas um lado do país, o lado que clama pela pátria, deus e a família, o lado incapaz de criticar o time em nome do patriotismo, que veste com orgulho o distintivo da CBF (símbolo máximo da corrupção brasileira), do lado coxinha, enfim… aliás, noso time vem deixando de ser a seleção brasileira e se tornando a seleção da CBF desde de 2006, quando começou a escalada de vexames do nosso escrete (nosso ou deles?)…
Assim como o 7 x 1, a corrupção geral do Brasil é difícil de aceitar, nossa incompetência é difícil de aceitar, o nosso ridículo é difícil de aceitar, e bem ao modo como Freud explica o conceito de projeção, sentimentos indesejados e recalcados em nós são projetados no outro, como defesa. E a visão religiosa que divide o universo entre bem e mal, e que parece tomar conta do mundo em geral e do Brasil em particular, e dessa ala golpista em especial, favorece tal projeção: o mal é o outro. E se na Copa não tínhamos um “outro” a quem projetar nossa vergonha e nossa raiva (então só restava jogar nossa incompetência para debaixo do tapete), na política sim, passamos a ter, já que a polarização produzida pela onda de ódio que tomou conta do país permitiu isso, e ao se jogar toda a conta da corrupção para o PT, para o governo, abre-se uma pizzaria. É claro que a verdadeira razão para tal é a manutenção do poder político e econômico, algo muito concreto, e não um sutil mecanismo psíquico de defesa, mas acredito que o recalque dos 7 x 1 teve sim um efeito psicológico que contribuiu para a formação das hordas de paneleiros patrióticos antes frustrados e agora exultantes e redimidos.
Seja como for, o Brasil tinha uma copa do mundo em casa para jogar, um prato cheio para um espetáculo do nosso futebol, mas cego para suas próprias limitações técnicas, perpetrou um fiasco. Depois do fiasco, outro prato cheio, agora pra mudar completamente a gestão do futebol brasileiro, mas sobreveio outro fiasco, a continuidade, na figura lamentável de Dunga (um moralizador de estilo militar) como técnico da seleção, que continua cega (e a caminho de ficar fora de uma copa do mundo pela primeira vez). Agora a Operação Lava Jato é uma oportunidade de ouro para se desbaratar um cartel de empresas gigantes que alimenta um sistema corrupto que toma quase a totalidade da classe política e dos governos, seja que governo for, há décadas! Uma chance única de conseguir uma vitória histórica, de dar um salto como sociedade e como sistema político. A Lava Jato é como uma copa do mundo em casa! Mas ao invés de mudança, vemos um golpe de estado de colarinho branco para manter as coisas como sempre foram, com a distorção escandalosa do processo todo em prol da tomada de poder por parte dos chefes da classe política corrupta e fisiológica. Usando a nossa cultura arraigada cada vez mais punitiva, moralista e conservadora, aponta-se toda a máquina policial, jurídica, econômica e midiática contra o governo atual, certamente envolvido no sistema da corrupção geral e perene que domina o país, mas que tem legitimidade popular. Articula-se assim a continuidade – agora vacinada! – com a volta do golpismo. Se expulsa o PT e a visão social da política e então, como diz um locutor de futebol: “segue o jogo”…
E não é que aquela apoteose histérica de patriotismo e fé está ganhando o jogo da política no grito?! O Brasil virou várzea! Um impeachment baseado em provas pífias, lançado por uma advogada que mais parece uma fanática religiosa em transe, liderado pelo inacreditável Eduardo Cunha, aprovado por parlamentares invocando Deus e a família (como os slogans de 64) e até torturadores da ditadura militar, conduzido por um juiz também religioso que, dizem, a tempos se gaba entre amigos de que “ainda vai pegar o Nine Fingers”, usando sem escrúpulos (mas muito bem apoiado e garantido) expedientes como a vergonhosa liberação das escutas, a condução coercitiva etc, sempre em sintonia com o Jornal Nacional para inflamar a opinião pública – é tudo na base da inflamação, como na copa! – levou o pais a um passo de um fiasco histórico, uma derrota humilhante da democracia que pesará para sempre sobre nós. Estamos tomando uma surra ainda mais inimaginável que a da copa. O impeachment será o nosso 7 x 1 em proporções republicanas. O que aquela derrota foi para o futebol brasileiro o impeachment será para a história do país (o 7 x 1 inscrito nos números finais da votação do congresso – 367 x 137 – acabou dando um toque irônico de verdade naquela sessão infame). A comparação pode ser desproporcional, pois quem se importa com a seleção brasileira hoje em dia? Mas justiça seja feita, ela é o modelo exemplar da nação: um time de cegos.
*Rodrigo Andrade, autor também da ilustração,  é artista plástico.
____________________________________
**Samuel Johnson

segunda-feira, abril 25, 2016

Norte: a fronteira que aproxima o futebol feminino da excelência

Academia do Iranduba / Divulgação

Há também no futebol, a geografia que nos separa e massacra, promovendo uma espécie de apartheid, enquanto há aquela que nos aproxima e de certo modo nos unifica como a que vem sendo experimentada no Amazonas, em sua capital Manaus. E o objeto dessa experiência que já se configura como mais um case de sucesso é o Iranduba, equipe de futebol feminino manauara, que incorporou a equipe catarinense do Kindermannn, mas que pode perfeitamente ampliar o espectro de seu sucesso às cercanias das bacias hídricas amazônicas.

O Secretário de Futebol Profissional em exercício do Ministério do Esporte, Romeu Castro, esteve em visita ao local, dizendo-se positivamente impressionado com o que viu. Visitou campo de treinamento e de jogos, academia, a casa das atletas, e teve a garantia de que ali o futebol feminino não só pode florescer como já floresce. Sem dúvida alguma, mais de três centenas de clubes brasileiros não possuem a estrutura ali presente. No entanto, frise-se desde já que nada parece megalomaníaco. É tudo pensado e realizado em bases reais e sob o vislumbre da autossustentabilidade. E o investimento, que parece tratar-se de origem mista – privado e público – poderá perfeita e verdadeiramente produzir um legado esportivo para parte da população daquele estado.

O futebol feminino do norte do nosso país agora tem um representante de peso e respeito, que esperamos não venha a sofrer de inanição, também não engrossando as fileiras da trágica mortalidade infantil do empreendedorismo nacional. Que o Iranduba, que renasceu da ‘transgenicidade’ e o do ‘transgerencial’ possa vencer a barreira da efemeridade, para transformar-se em agente propulsor do desenvolvimento do futebol feminino das regiões norte e nordeste. Mesmo que não haja uma relação osmótica entre essas regiões, mas há uma tendência quase que natural de certo mimetismo, para que a bola imite a vida, ou a vida de uns imite a de outros.

Ao acompanharmos o que se passa no Brasil e no mundo do futebol, percebemos que isso nos coloca diante da possibilidade do conhecimento, e este diminui as fronteiras e isso em certo grau nos emancipa, promovendo o processo de nossa inclusão ao conhecimento global. Do ponto de vista prático, podemos dizer que o norte e o nordeste brasileiros passam a integrar mais fortemente o processo de formação de atletas do futebol feminino, o que lhes permite participar da produção e renovação de valores, desse modo democratizando e legitimando a base feminina brasileira, que poderá contar com um número maior de núcleos formadores, e todos trabalhando de forma menos dissonante.


sexta-feira, abril 15, 2016

Discussão ‘made in’ Nordeste da formação de base

Créditos da imagem: Diário de Pernambuco
Por: Benê Lima
INTEM e CMF 008INTEM e CMF 011 2Sinceramente, não me surpreende que esse ou aquele gestor de campo brasileiro exponha, da forma como o fizeram alguns dos participantes do recente I Encontro Pedagógico do Futebol, realizado na Câmara Municipal de Fortaleza, aquilo que o raciocínio analítico dedutivo já nos vem mostrando ostensivamente há alguns anos. Ou não é uma realidade que temos sido uma das maiores vítimas do processo de globalização do futebol, em que nossa identidade acabou por ser quase inteiramente subjugada?
Não importa o sentimento pelo qual sejamos tomados ou até aturdidos, ao introjetarmos a pungente realidade de estarmos perdendo nosso protagonismo no mundo da bola. O essencial é que admitamos nossa nova condição, para que possamos identificar as causas a ela inerentes, além daquela que acabamos de propor e que, repito, passa pela reprodução do modelo globalizado. Se o problema existe e tentar mistificá-lo não produzirá as soluções que ele reclama, só nos resta trabalhar de modo diligente e criterioso para propor soluções. Portanto, a grande interrogação a ser feita é: quais os caminhos a seguir para mudarmos o atual estado do futebol brasileiro?
Não resta dúvida que a solução ‘barcelonista’ como resposta à questão acima proposta é a detentora do maior apelo e poder de sedução. Contudo, além de certo grau de incompatibilidade com a realidade socioeconômica e cultural brasileira, por seu alto custo e complexidade, ela excluiria a grande maioria dos times brasileiros, pela falta de estrutura dos clubes que lhes dão origem. Outro fator de desencanto pela solução catalã é que ela não é implantável sequer em médio prazo, o que dirá em curto prazo. Ademais, ela exigiria daqueles clubes que quisessem adotá-la a criação de uma superestrutura para as suas divisões de base, condição inaceitável para alguns e inatingível para a grande maioria deles.
INTEM e CMF 027 3Pelo que expomos até aqui, creio que a percepção dos leitores, com base na ‘sintomatologia’ do problema, já os conduziu a um vislumbre da equação problema-solução, que a nosso juízo passa pela reavaliação de toda a metodologia de trabalho que vem sendo utilizada nas categorias de base, com destaque para a reformulação da formação dos atletas.  A propósito, numa nossa recente participação em um seminário com o propósito de discutir o trabalho de base dos clubes de futebol no estado do Ceará, assistimos, um tanto perplexo, aos questionamentos dos integrantes das comissões técnicas, sobre as razões de tão baixa produção em seus clubes, sobretudo em posições de características mais defensivas, como zagueiros e goleiros.  Observamos, pois, que a convicção que nos acompanhava da localização do problema estar nos limites das comissões técnicas, notadamente em suas metodologias de formação dos atletas, não encontrava ressonância alguma naquela plateia, o que nos fez ver que por isso a solução ainda estava distante.
Aos clubes não basta terem em suas fileiras profissionais competentes sem que eles e seus projetos sejam acreditados. Por sua vez, crer-se neles significa dar-lhes todas as condições de trabalho (estrutura, logística, equipamentos, etc.). Feito isso, os clubes precisam manter em sua estrutura técnico-administrativa um mínimo de capital intelectual para a gestão de suas comissões técnicas, sem o quê não se construirá parâmetros de aferição confiáveis do trabalho delas.
Com a reinvenção do trabalho das comissões técnicas, antevejo dois níveis de concepção de trabalho, com o objetivo de lidar com as diferentes realidades dos clubes. Uma dessas concepções se pautaria pela predominância da excelência; a outra se ocuparia da promoção da ‘alquimia’ típica da inovação e da criatividade.
É preciso admitir que a competência dos nossos profissionais não tem sido suficiente para que sejamos modelo na formação de atletas, tampouco na execução do jogo com todas suas variantes. Também não precisamos ir à Espanha para confrontarmos essa realidade. Basta considerarmos, proporcionalmente, a vizinha Argentina para verificarmos que ficamos para trás na formação do atleta e do cidadão, bem como na eficácia do treinamento. Não por acaso, qualquer atleta brasileiro mediano, produz mais onde se valoriza o aspecto coletivo do futebol que no próprio Brasil, onde viceja o culto à individualidade.
Ficamos na abordagem meramente de base técnica, deixando para uma próxima oportunidade os cuidados com o aspecto financeiro, o provedor de qualquer experimentalismo.

quinta-feira, abril 14, 2016

Um toque sobre a mixórdia que é o futebol

 
Tento acomodar o foco de minhas palavras neste espaço, como se fossem auto injunções sobre o futebol nordestino, quando muito apenas divagando sobre a atmosfera do norte. Mas essa geografia que a muitos pode parecer lógica, coerente e justificada, na verdade não é nada disso, pois é necessário respirarmos a atmosfera dos clubes e do futebol em seus locais para formarmos opiniões e ideias mais consentâneas com suas realidades.

O parágrafo inicial tenta justificar algumas digressões geográficas, já que não faltam temas candentes e instigantes em nosso país que nos chamam a atenção. A presença da empresa belga Double Pass, tentando vender sua expertise em estruturação das categorias de base à CBF, a omissão das pessoas em geral no processo de reformulação da gestão da mesma CBF, casos de menor importância, mas curiosos como o que envolve outra vez o jogador Fred e sua egolatria, e numa perspectiva mais globalizada a atitude do treinador do Barcelona de solicitar acréscimo ao elenco que dirige, o case Leicester à luz da melhor divisão de receitas de televisão do planeta, como é a da Premier Ligue, entre outros fatos que pululam globo afora, são um pouco do alvo das minhas digressões.
 
 Do alto direito do mapa do Brasil, onde pelos cabos submarinos transitam um incontável número de mensagens, conexões e documentos da World Wide Web, vemos a compressão de do mundo da informação, cuja tecnologia nos aproxima, numa das mais eloquentes expressões inclusivas e democráticas planetária. É assim que também o futebol se interliga, desse modo aprofundando o processo de globalização que igualmente vai assumindo contornos de unificação das identidades por essa fantástica acessibilidade.  

Mais um bom evento

Evento educacional e formador bom é aquele que produz conhecimento, efeitos perceptíveis e duráveis, e eis o que foi o Encontro realizado entre o treinador da Seleção Brasileira Sub-20 de futebol feminino, Doriva Bueno e o staff cearense da modalidade. No mesmo evento, que teve como local a Federação Cearense de Futebol, esteve presente o Diretor de Futebol Profissional do Ministério do Esporte, Romeu Castro, que vai além de um mero burocrata ou mesmo tecnocrata. Romeu é um profundo conhecedor do futebol feminino e da gestão do esporte. Portanto, só agregou valor ao encontro.  
Treinador da Seleção Brasileira Sub-20 de futebol feminino, Doriva Bueno,
em visita ao Projeto Menina Olímpica
Mas considero como o grande achado do encontro, a ideia da busca pela unificação da metodologia de formação das atletas, sobretudo a partir do entendimento de que a seleção não é lugar para isso, e sim os clubes e projetos aos quais elas estão vinculadas. Portanto, isso muda não só nossa visão do processo, como estabelece a necessidade de revisão dos princípios. E assim trabalharemos daqui por diante. É como a história da mente que se expande que felizmente não mais volta a seu estado dito original.

Mais digressões

Comitê de Reformas do Futebol da CBF. A participação pífia de agentes e pacientes retira um tanto de legitimidade das ações desta iniciativa. Todavia, temos que reconhecer que a inclusão de todos os pontos cardeais brasileiros seria importante para construirmos uma política nacional para o futebol. Uma reformulação progressista, criteriosa e inclusiva das 64 páginas do estatuto da entidade é de imensa importância para o futuro do nosso futebol. Afinal, vivemos o momento em que o futebol internacionalizado é mais football e soccer que futebol.

Reformulação da metodologia de formação da base. A CBF mostrou-se insensível, ao que parece, à expertise e aos consagrados cases de sucesso da empresa belga Double Pass. Essa consultoria esportiva presta serviços para a Federação Alemã de Futebol, para a Premier League, para a Federação Belga de Futebol e para os EUA, além de um total de 500 clubes. Mais uma vez, vale ressaltar o link entre o que pode ser feito em nível macro e em termos microrregional.

Fred e seu culto à egolatria.  Creio que discutirmos as idiossincrasias do Fred nos rebaixa um pouco como comentaristas. É como se isso fosse algo relevante no contexto da gestão esportiva. Não vejo exatamente como briga o confronto de quem tem juízo com outro que age como se não tivesse e a quem falta resiliência. A dificuldade do Fred em ser comandado talvez guarde uma estreita relação com seus exorbitantes proventos. Talvez isso o desloque da realidade corporativa e reforce nele a rejeição à observância de um mínimo de hierarquização.

O fenômeno Leicester. Dele, sem dúvida, – aí sim – podemos pinçar algumas situações com caráter senão de injunção, mas axiomático. Como esporte coletivo, o futebol permite que um ajuntamento de jogadores entre bons e medianos possa superar um elenco de jogadores tidos como de melhor qualidade técnica. Outro aspecto antiparadigmático é o de que o dinheiro não resolve tudo no futebol. Há soluções que passam pelo aprimoramento da eficiência dos processos de gestão e de treinamentos, pela inovação e pela busca da excelência dos aspectos coletivos do jogo. E para não falarmos em separado do aspecto socializante da divisão de receitas da Primeira Liga Inglesa, cabe conectarmos tal realidade ao surpreendente Leicester City, como elemento potencializador do sucesso desta equipe.

Não há geografia que resiste ao poder de unificação dos conceitos universais do futebol destes tempos, razão pela qual o norte, o nordeste, o sul, o sudeste e o centro-oeste brasileiros de alguma forma se acham conectados.

(Benê Lima)

domingo, abril 03, 2016

Tostão: É hora de trocar o técnico

0

Parabéns à repórter Gabriela Moreira, da ESPN Brasil, pela matéria investigativa sobre a influência da CBF no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

Ninguém é ingênuo, purista, para acreditar, ou pelo menos não desconfiar, ainda mais neste momento por que passa a CBF e o país, que foi coincidência a seleção brasileira ter se hospedado no hotel do qual o ex-jogador Lúcio é sócio e, ao mesmo tempo, a CBF convidá-lo para ser o auxiliar pontual nos dois últimos jogos. Não estamos na Noruega. O diretor Gilmar Rinaldi, em vez de contar a vantagem de que manteria o convite mesmo se soubesse da ligação entre Lúcio e o hotel, deveria evitar insinuações e desconfianças.

Além disso, a Confederação da Noruega, por excesso de cuidado e por conhecer as fraquezas humanas, não convidaria para diretor de sua seleção alguém que era empresário de atletas, mesmo que interrompesse sua atividade.

Os resultados e as atuações da seleção nos seis primeiros jogos pelas Eliminatórias foram os esperados. Poderia ser pior, já que o Brasil não mereceu o empate com a Argentina e empatou com o Paraguai no último minuto. Além das habituais deficiências individuais e coletivas, ficou ainda mais evidente, contra Uruguai e Paraguai, a irregularidade da seleção e do futebol brasileiro, por dependerem demais de espasmos e de lances individuais e isolados.

A seleção e as equipes brasileiras, com algumas exceções, há décadas, não sabem atuar coletivamente. Além do hábito de jogar por estocadas e lances esporádicos, não há um excepcional meio-campista para fazer a transição, a troca de passes, entre a defesa e o ataque. Essa falta é decorrente da estratégia ou a ausência de craques no meio-campo faz com que o time jogue dessa forma? As duas coisas.

Dunga não é o responsável por isso, mas ele não faz nada para a seleção evoluir, embora, no segundo tempo contra o Paraguai, ele tenha agido bem, ao trocar os volantes por um meia e um atacante, quando percebeu que o adversário foi todo para a defesa. Era também óbvio. O time reagiu, com garra. Dizer que falta comprometimento aos jogadores é fazer média com o torcedor, que adora essa crítica, sempre que a Seleção joga mal.

É necessário criar mudanças táticas e individuais. O perigo, quando se muda, é ficar ainda pior. Por causa da reação contra o Paraguai, uma situação circunstancial, alguns comentaristas já pedem o meio-campo com Renato Augusto, Philippe Coutinho e Lucas Lima. Querem afundar mais ainda a seleção. É essencial ter um volante, pelo centro, que marque e que tenha um excelente passe. Não temos esse jogador, mas existem outras opções, como Casemiro.

Apesar da incerteza de que a seleção melhoraria com um novo técnico, está na hora de Dunga e de Gilmar Rinaldi saírem, desde que o técnico seja Tite, mesmo com seu “titês”. Não pode ser qualquer um. Tite se preparou para isso.

Tite deveria assumir imediatamente, com urgência. É muito difícil, mas é preciso vencer e, ao mesmo tempo, iniciar um novo futuro para o time brasileiro. Futuro não é destino. Futuro é o que será construído.
Planejamento

Dizem que o Cruzeiro já engatilhou a contratação de três bons reforços. Ótimo. Enquanto isso, Deivid, no Campeonato Mineiro, aos poucos, forma um bom conjunto. Se os reforços chegarem com a equipe jogando bem, fica muito mais fácil dar certo.

De outra maneira, o mesmo acontece no Atlético, que já tinha um time formado desde o ano passado e que tem trazido reforços pontuais.

No futebol brasileiro, geralmente, ocorre o contrário. Os times, quando estão muito mal, desorganizados, apelam para reforços caros. Sem um bom conjunto quando eles chegam, acabam decepcionando. Na sequência, geralmente o clube contrata mais jogadores caros e não sai do buraco. Neste ponto, Cruzeiro e Atlético estão à frente.
.

sábado, abril 02, 2016

De Blatter a Infantini: Novas perspectivas para o Futebol Feminino

Luiza Loy BertoliSuellen Ramos
No dia 26 de fevereiro, foi realizada a eleição que nomeou Gianni Infantino como o novo presidente da FIFA e sucessor de Joseph Blatter. Dias depois de assumir o cargo, Gianni participava da II Conferência Futebol Feminino e Liderança, organizada pela entidade em Zurique (Suíça), no dia 07 de março. O encontro teve como foco organizar reformas em prol da igualdade de gênero na modalidade, tanto para as mulheres que praticam futebol, quanto para as mulheres que almejam cargos na gestão desse esporte.
Uma das reformas aprovadas no evento é de que, pelo menos, seis mulheres serão incorporadas ao novo conselho que substituirá o Comitê Executivo (órgão responsável por tomar as principais decisões da instituição). Atualmente, o Comitê Executivo da FIFA conta com a presença de uma única mulher: Lydia Nsekera, que foi membro do Comitê Olímpico Internacional em 2009 e em 2012 foi a primeira mulher a integrar a organização.
infantino-twitter
Gianni Infantino. Foto: Twitter (reprodução).
Em fala, durante a II Conferência Futebol Feminino e Liderança, o então presidente, Gianni Infantino, assumiu o futebol feminino como prioritário: “O futebol feminino e a mulher no futebol são uma prioridade, são parte da solução para o futuro deste desporto”, disse. Não foi o primeiro momento em que o futebol feminino é mencionado como uma prioridade na FIFA; O ex-presidente Joseph Blatter, em janeiro de 2013, apostou alto no futebol feminino. Acreditava que a expansão mundial partia das federações nacionais e previa serem “as mulheres o futuro do futebol”.
Estas primeiras explanações surgem com o intuito de fazer um balanço a nível nacional das mudanças ocasionadas a partir da fala do presidente da maior entidade do futebol no ano de 2013, até os tempos atuais. Buscando perspectivas para os próximos anos e questionando: quanto o comandante da entidade suprema do futebol influencia nas ações brasileiras para o desenvolvimento do futebol feminino? O que mudou de uma fala para outra? Algumas ações já podem ser percebidas, tanto dentro, quanto fora de campo.
A CBF reiniciou em 2013, o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, que contou com apoio da Caixa Econômica Federal para seu financiamento. Participaram desta primeira edição as 20 melhores equipes ranqueadas pela entidade. A competição que trazia dúvidas em relação a sua continuidade já está na quarta edição. A novidade deste ano são os clubes de camisa que ingressaram no Brasileirão: América – MG, Corinthians – SP, Flamengo – RJ, Santos – SP e Vasco da Gama – RJ, o que de certa forma dá maior visibilidade à disputa. Com inicio no dia 20 de janeiro de 2016 e a participação de 20 times, o campeonato se encontra na fase das quartas-de-final. Em virtude da Copa Algarve, a competição sofreu uma pausa na metade de fevereiro reiniciando em março, com as oito melhores equipes já classificadas.
Viana - MA - 27/01/2016 - BRASILEIRÃO CAIXA 2016 - ESPORTES - Jogo 16 (Segunda Rodada) do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino “Brasileirão Caixa 2016” entre, E.C. Viana X C.R. Flamengo, realizado no estádio Djalma Campos em Viana, MA; válido pelo grupo 04 do Brasileirão feminino 2016. Foto: BIAMAN PRADO / ALLSPORTS
Flamengo em ação pelo Campeonato Brasileiro. Foto: Biaman Prado / ALLSPORTS.
Na semana posterior à declaração de Gianni Infantino, a Seleção Brasileira estreava na Copa Algarve pela segunda vez. Esse campeonato acontece desde 1994, mas contou com a presença das brasileiras somente em 2015. Em sua primeira participação, a equipe canarinha finalizou a competição em sétimo lugar entre doze Seleções. Já em 2016, um ano após a criação da Seleção Permanente, as brasileiras conquistaram o segundo lugar, perdendo apenas para o Canadá na disputa final. Para quem não conhece ou nunca ouviu falar, a Seleção Permanente foi convocada pela primeira vez em janeiro de 2015, com objetivo de melhor preparar as jogadoras para as competições internacionais, principalmente, a Copa do Mundo do mesmo ano e os Jogos Olímpicos de 2016.
Envolveu a contratação de um grupo seleto de 27 jogadoras pela CBF, que fornece ao elenco as instalações da Granja Comary em tempo integral e salários mensais de até R$ 9 mil. O projeto tem seus pontos positivos e negativos. Uma das vantagens é a estabilidade salarial e de trabalho proporcionada às atletas, visto que em clubes que disputam o Campeonato Brasileiro, a remuneração não passa de R$ 2,5 mil mensais e por muitas vezes suas instalações são precárias e as condições de treinamento são inconstantes. Além disso, o benefício de se manter uma equipe em treinamento constante é de que a mesma se torna competitiva e de qualidade. E uma das desvantagens envolve exatamente esses clubes que participam de campeonatos nacionais e “perderam” suas jogadoras para a Seleção Permanente, resultando na queda de qualidade das equipes e no enfraquecimento das competições, uma vez que a maioria do elenco é oriunda dos clubes que mais se destacavam no cenário nacional. O projeto Seleção Permanente já colheu alguns frutos e resultados positivos, sendo eles dois títulos: dos Jogos Pan-Americanos e do Torneio Internacional de Natal, ambos em 2015.
Cópia de 20151220222725_0
Foto das jogadoras e da comissão técnica do Brasil ao conquistar a taça do Torneio Internacional de 2015. Foto: Rafael Ribeiro / CBF.
A sétima edição da Copa do Mundo foi sediada pelo Canadá e teve inicio dia 06 de junho. Foi marcada pela quantidade de equipes na competição que passou de 16 para 24 seleções. O Brasil encerrou a participação nas oitavas de final, sendo derrotado pela Austrália pelo placar de 1 a 0. Nessa edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino, outra novidade foi o lançamento do álbum de figurinhas da Copa com todas atletas das Seleções participantes. Em 2011 na Copa do Mundo da Alemanha, o álbum circulou somente do país sede, como o resultado surpreendeu, a Panini expandiu a destribuição para os demais países participantes da competição na edição de 2015. Com isso, as vendas no Brasil tiveram inicio em maio do mesmo ano.
No ano de 2015 a CBF investiu R$ 18,258 milhões no futebol feminino, quase o dobro do valor do ano anterior (R$ 9,583). Do legado da Copa do Mundo de 2014, R$ 45 milhões foram destinados ao futebol feminino, a quantia ainda é considerada pequena para um país como o Brasil, mas devemos admitir que nunca se aplicou tanto na modalidade. E os investimentos não chegam apenas por parte da Confederação Brasileira de Futebol. Um grande apoiador tem sido o Ministério do Esporte através de algumas intervenções feitas pela entidade. Entre elas, o aporte ao Campeonato Brasileiro desde 2013 e à Copa Libertadores da América desde 2012. São 137 jogadoras beneficiadas com a Bolsa Atleta, e 22 atletas que servem a Seleção, com o provento do Plano Brasil Medalha. Por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, será construído em Foz do Iguaçu (Paraná), um Centro de Excelência de Futebol Feminino, que contará com dois campos, alojamento, academia, ginásio e vestiários. O CT servirá de base para treinamentos de times e seleções de futebol feminino., mas ainda sem data para inauguração.
Em 04 de agosto de 2015, o governo implantou uma lei, que se pode compreender como incentivo ao futebol feminino, foi a criação do Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro (PROFUT) – um programa do governo para clubes prolongarem o prazo para quitar dívidas e pendências – mas há uma exigência na Seção X do Artigo 4º onde os clubes terão que apresentar um investimento mínimo na formação de atletas e no futebol feminino. Já são 111 times que aderiram ao PROFUT, com isso, houve o crescimento na participação de times de camisa no Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, como dito anteriormente.
A presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia de assinatura de Medida Provisória para modernizar a gestão e a responsabilidade fiscal do futebol brasileiro, no Palácio do Planalto. Foto: José Cruz / Agência Brasil.
Além de investimentos, a visibilidade para o futebol feminino e para a história das mulheres nesse esporte vem aumentando. Citamos algumas estratégias extracampo que estão mobilizando a modalidade. Está acontecendo desde o dia 08 de janeiro no SESC SP, a Exposição Futebol Delas, organizada pela jornalista Lu Castro – Exposição que retrata por meio de textos, vídeos, fotografias e objetos pessoais de atletas e comissão técnica, a história de 20 anos da participação da seleção brasileira de futebol feminino nas cinco edições do torneio olímpico. E no Museu do Futebol há Exposição da Visibilidade para o Futebol Feminino, até o dia 08 de abril, onde conta a história das mulheres que lutaram pelo direito de jogar, com objetivo evidenciar o futebol feminino provocando nossa forma de enxergar a história desse esporte.
Presidente da FIFA Blatter fala durante o sorteio dos grupos para a copa das confederações, 1 Dezembro de 2012. MOWA PRESS
Não é possível associar as melhorias do futebol feminino às ações do ex-presidente da FIFA, Joseph Blatter. Foto: Mowa Press.
Analisando estes três anos que se passaram, podemos concluir que a nível nacional, tivemos avanços significativos no futebol feminino, no entanto, não se pode afirmar que tais avanços foram diretamente influenciados pelo ex-presidente da FIFA Joseph Blatter ou simplesmente pela pressão interna de quem faz parte da modalidade no país. Destacamos os esforços para o desenvolvimento e fomentação do futebol feminino brasileiro, assim como deixamos a avaliação de que ainda há muito para evoluir, por exemplo, os campeonatos estaduais praticamente não tiveram alterações. Os esforços em prol da modalidade parecem estar voltados prioritariamente para a seleção nacional. O Brasil segue como um dos países mais conservadores quando se trata de futebol e mulheres, principalmente em relação ao preconceito e visibilidade. Mas hoje, podemos arriscar que finalmente vislumbramos um futuro na modalidade. E as palavras de Gianni Infantino, além de esperança, nos dão fôlego.

segunda-feira, março 28, 2016

Tostão: "Anárquico e irregular"

"Dizer a posteriori como confissão não vale. Destacamos este trecho da Coluna do Tostão, para demonstrar que quem nos acompanha no Programa Companhia do Esporte sabe o que temos falado." -- (Benê Lima)
12 
A atuação nos 90 minutos foi brilhante, péssima e anárquica. No primeiro tempo, graças ao gol no primeiro minuto, à pouca qualidade individual dos defensores reservas do Uruguai e aos grandes espaços que tinham os velozes e hábeis meias-atacantes brasileiros, o Brasil foi muito superior. Neymar voltava para recebera bola, driblava, passava e criava chances de gol. Parecia que seria uma goleada.

No segundo tempo, o mestre Óscar Tabárez mudou o sistema tático e o jogo. O Brasil não teve uma única chance para marcar. O Uruguai empatou e teve tudo para vencer a partida. Enquanto isso, as substituições feitas por Dunga provocaram uma tremenda confusão tática. Suárez, um touro com enorme talento, infernizou os zagueiros brasileiros. David Luiz foi muito mal. É absurda a ausência de Thiago Silva.

Por causa das características dos meias-atacantes brasileiros, que vivem de lances isolados, desconectados do jogo coletivo, haverá, com frequência, essa irregularidade. Além disso, não há um único excepcional meio-campista. Isso é tão evidente, que Renato Augusto, mesmo jogando na China, é o melhor armador brasileiro. Fez um belo gol.

A principal razão de Dunga escalar Neymar, Douglas Costa e Willian é a que são hoje os melhores meias-atacantes brasileiros. Nesta semana, citaram a seleção de 1970 e Zagallo, que também escolheu os melhores, independentemente das posições. É um ótimo argumento, desde que o craque da equipe não seja ofuscado pelo sistema tático. Seria como se Zagallo escalasse Pelé de centroavante, fora de sua posição, e me colocasse, um coadjuvante, mais recuado, como jogava no Cruzeiro.

Uma das grandes qualidades de um técnico é formar um ótimo conjunto e ajudar os melhores a jogar tudo o que sabem. É preciso também que o craque tenha obrigações coletivas, mas dizer que ele tem de se adaptar à maneira de jogar da equipe é uma balela e uma burrice.

Tão ou mais importante que o posicionamento dos jogadores é unir suas características para se completarem em campo. Na Copa de 1970, entre dois atacantes agressivos e magistrais, como Pelé e Jairzinho, era necessário ter um centroavante mais técnico. No mesmo raciocínio, entre Neymar e Douglas Costa (ou Willian), é preciso ter um centroavante habilidoso, que se movimente mais e que abra espaços para Neymar. Firmino, contundido, seria a melhor opção.

Dos cinco jogos pelas Eliminatórias, o Brasil só ganhou dois, em casa e contra duas das três piores seleções. Todas as outras sete, com chances de classificação, devem ganhar também, em casa, de Peru, Venezuela e Bolívia. Das sete, duas vão ficar fora da Copa. Paraguai, próximo adversário do Brasil, é, individualmente, a pior das sete melhores, mas é um time aguerrido, disciplinado, que costuma jogar mais do que se espera, ainda mais em casa e com o Brasil sem Neymar.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Opinião] 'É preciso mais zelo com o que se diz', por Benê Lima

Benê Lima

É preciso mais zelo com o que se diz

“A desimportância do futebol cearense guarda uma estreita relação com o modus faciendi e com o modus vivendi sob os quais elegemos para fazermos e para vivermos.” – Benê Lima  

__________________________
Pode parecer que eu tenha pouco apreço para com os colegas cronistas esportivos, além de um baixo nível de respeito pelos mesmos. Se isto estiver sido incutido em suas mentes, asseguro-lhes que não passa de uma ideia errônea a qual deve ser afastada, haja vista que não corresponde à realidade. E ninguém melhor do que eu para desfazer este equívoco, fruto – muito provavelmente – de ideias preconcebidas e que de fato não condizem com aquilo que sinto. 
Talvez minha visão séria das coisas, pessoas e fatos, meu reconhecimento da complexidade da multidisciplina futebol e estilo reformista e neo progressista tenha influenciado as pessoas a confundirem minha seriedade e profissionalismo com o culto a um proto estilo antipático, arrogante até e pouco ético. No entanto, volto a afirmar que difiro da imagem que de mim alguns erigiram, embora o apenas dizer isto ainda seja pouco para desfazer o que algumas mentes preconceberam.

Mas também há aspectos da minha imagem que não tenho interesse algum em interferir na ótica das pessoas, porque eles serão mantidos até como afirmação da minha personalidade e do meu caráter. Entre eles os aspectos críticos e analíticos que caracterizam tanto minha vida pessoal quanto a profissional. Isto deve ser mantido também como pré-requisito de quem faz do exercício jornalístico um dos vieses da comunicação. 
Outra coisa que é mister esclarecer, refere-se à questão ética. Esta me pode cobrada mais que aos demais, só não demonstrem obscurantismo quanto ao domínio do termo. Portanto, o tal do corporativismo canhestro não faz parte de minha prática. Colega de profissão em contraposição da moralidade ou com comportamento apoiado em um código de ética questionável, não conte com nenhum apoio de minha parte. Em contrapartida, tenho, em todas as ocasiões que se me apresentam tentado elevar a minha categoria, e o próprio presidente da Apcdec e também representante do Sindicato dos Radialistas, Edílson Alves, pode dar esse testemunho. 
Além de ser necessário se ter mais zelo com o que se diz, é preciso se ter mais cuidado com o que pensamos. A desimportância do futebol cearense guarda uma estreita relação com o modus faciendi e com o modus vivendi sob os quais elegemos para fazermos e para vivermos. É inadmissível uma imprensa que extrapola sua atitude crítica e analítica para desmerecer e ‘detonar’ a tudo e a todos em um ambiente como o do futebol, que por sua própria natureza não deve ser considerado como repositório de ética, moral e bons costumes. Portanto, precisamos infundir ânimo nesse ambiente, precisamos encorajar as pessoas a serem agentes da revolução que o meio tem requerido, precisamos participar destes processos agregadores de valoração e qualificação, sem o quê não haverá reconstrução possível. Como disse a um torcedor que nos segue nas redes sociais, com visão extremamente negativa: 
"Talvez, Fulano, seja muito mais verdade dizer que o futebol cearense tem o tamanho das mentalidades que o permeiam , entre as quais você também se inclui. Embora você não queira, mas você é parte integrante e muito ativa desse "futebolzinho" ridículo. Você já parou para se perguntar o que você já fez ou faz para melhorá-lo? Porque nos espaços de discussões dos quais participo não tenho visto você dar contribuição positiva nenhuma. Tenho visto - isto sim - muitas críticas, algumas das quais infundadas, desarrazoadas, agressivas e até desrespeitosas” com o quê findei meu recado. 
De outra parte, assistimos profissionais renomados da nossa crônica esportiva, dispararem em meio a erros grosseiros de português, injunções típicas de um caráter com sérias deformações em sua constituição. Eles parecem, contraditoriamente, pretenderem nos fazer crer que futebol não é coisa séria, e que somente eles têm uma função austera a cumprir. Na verdade, embora essas pessoas possuam um bom capital simbólico, o que lhes permite manterem boas fontes de informação, jamais admitem dar crédito a quem não pertença ao seu fechado círculo de inter favorecimento. E desse grupo pretensamente ‘seleto’ participam jovens jornalistas que detestam radialistas, porque não podem admitir que quem não tenha diploma possa lhes fazer frente. Em razão de tamanha arrogância, elas expressam com petulância e desfaçatez falsas informações, sem um mínimo de preocupação com o estrago que isso possa causar à vida das pessoas envolvidas. 
É triste ouvir de uma pessoa pública que ela perde o amigo, mas não perde a piada. Isso denota que, primeiro ela não sabe o verdadeiro sentido do que é amizade; segundo, que uma tal pessoa possui deformações de caráter temerárias. É por isso que digo que a depuração da nossa crônica passa, necessariamente, pelos portais dos cemitérios. E não tem problema que eu me vá primeiro, pois tenho a mais absoluta convicção que, ao passar por qualquer que seja o portal, minha destinação será bem outra. 
Ao limbo essas mentes doentias. 

quarta-feira, janeiro 06, 2016

Posso ser mesmo processado por um ‘simples comentário’ na Internet?

Publicado por Maykell Felipe Moreira - 
63
Posso ser mesmo processado por um simples comentrio na Internet
Primeira coisa a ser dita é que não existe essa equivocada ideia do 'simples comentário na internet'. Não existe absolutamente nada na internet que seja tão simples assim. Seria como dizer 'um simples comentário em praça pública'. Experimente bem cedo, logo pela manhã, sair na porta da sua casa, estufar bastante o peito e gritar em alto e bom som a primeira coisa estúpida que vier a sua mente. Não demorará muito para que todos os seus vizinhos estejam à porta, te fitando com aquele olhar sinistro, do tipo que indaga, de pronto, sobre a sua sanidade mental. Em suma, quando expomos nosso pensamento numa web-page muito frequentada, essa mensagem vai ecoar num parâmetro dimensional tão grande que não teremos o menor controle no que concerne até onde essa informação irá reverberar. É um típico tiro no escuro, não dá pra prever onde ou em quem vai pegar.
Feito essas colocações, passo à próxima questão. Tenho observado que algumas pessoas tem comportamentos bem curiosos na internet, dignos de serem estudados pela ciência comportamental e psíquica. No dia a dia, muitas vezes mostram-se simpáticas, cordiais, e algumas até muito recatadas, tímidas, ou enrustidas, todavia, quando o assunto é a rede mundial de computadores, encarnam o verdadeiro monstro da selva, o 'diabo da tasmânia' em pessoa. O abominável urso polar do lago negro da neve de Springfield domina a sua alma, e o indivíduo se acaba todo de tanto desferir farpas nas redes sociais desse mundão digital afora. Passado o efeito da droga, veste o seu pijama, toma o seu copo de leite quente com rosquinhas rivotrílicas, e dorme como um anjo – pelo menos até o dia seguinte.
Vez ou outra, todo aquele que se utiliza muito das redes sociais – como é o meu caso e de muitos outros ‘jusbrasileiros’ – acaba passando por esse tipo de situação.Nessas horas devem prevalecer a calma, a razão e a serenidade. Discutir é uma hipótese totalmente descartada, diga-se de passagem.
Como dito, não é raro nos depararmos com situações assim. Basta começar uma reflexão sobre um tema polêmico, uma ‘crítica’, uma ‘crônica’, um bordado literal que seja, e já é possível sentir os tambores tocarem do outro lado da telinha. É o ritual macabro de preparação daqueles que, muitas vezes nem entenderam a sua proposta textual, e já encorpam o ‘gato guerreiro’.
Pessoas assim não conseguem apenas ler, fazer suas ponderações críticas, e após isso, deixarem o espaço público digital, respeitosamente. Isso não é suficiente para elas, entrar em cena passa a ser uma espécie de compulsão. Algumas pessoas, de fato, vão para a internet extravasar as suas mazelas, fazerem aquilo que, sob o escudo do anonimato, tem a ousadia peculiar que lhes faltam na vida prática diária.
Assim, sempre é bom estar preparado e com o estado de espírito equilibrado, e acima de tudo, encoberto pela graça divina. Antes de tudo, é preciso ter segurança e convicção sobre as suas idéias, confiar naquilo que escreve, e estar pronto para receber as críticas, digeri-las, absorver o que é proveitoso, e descartar o que é inútil. Nada é uníssono, aliás, é bom que a discussão ocorra, pois isso traz crescimento, se feita da maneira saudável e inteligente. Ademais, assim como em tudo na vida, na hora de discutir, criticar ou expor ponderações, deve haver respeito, razoabilidade e flexibilidade para se abrir aos argumentos opostos, ainda que não os endosse ao final.
A internet nos ensina que, mesmo nesse meio há regras a serem observadas e seguidas para o bom e harmonioso convívio. Assim como não há ‘autotutela’ no mundo prático, no mundo virtual também não o é permitido.
O nosso dicionário virtual, nos traz um conceito interessante, conhecido como ‘netiqueta’ – derivado “do inglês "network" e "etiquette" – é uma etiqueta que se recomenda observar na internet. A palavra pode ser considerada como uma gíria, decorrente da fusão de duas palavras: o termo inglês net (que significa "rede") e o termo "etiqueta" (conjunto de normas de conduta sociais). Trata-se de um conjunto de recomendações para evitar mal-entendidos em comunicações via internet, especialmente em e-mails, chats, listas de discussão, etc”.
Certamente que entre essas regras comportamentais do mundo virtual, as mais importantes, ao nosso ver, decorrem diretamente de:
  1. Respeitar para ser respeitado e tratar os outros como gostaria de ser tratado.
  2. Entender que o autor do texto não é o seu inimigo, ele não está ali como um radical xiita, e ainda que fosse, deveria tratá-lo respeitosamente. Punir, só cabe ao judiciário.
  3. Lembrar-se de que dialogar com alguém através do computador não o isenta das regras comuns da sociedade, por exemplo, o respeito ao próximo.
  4. Usar sempre a força das idéias e dos argumentos. Nunca responder com palavrões ou ofensas, como por exemplo, tentar atacar a imagem ou fazer suposições sobre o caráter da pessoa, simplesmente estereotipando-a pelo tipo de linha intelectual que defende.
  5. Apesar de compartilhar apenas virtualmente um ambiente, ninguém é obrigado a suportar ofensas e má-educação.
  6. Evitar ser arrogante ou inconveniente.
  7. Em fóruns e listas de discussão, deixar o papel de moderador para o próprio moderador.
Outro dia desses, passei por uma situação um tanto cômica – se não fosse trágico, por assim dizer –. Após postar um artigo na internet, cujo assunto tenho um certo domínio pois atinente a minha área de trabalho, fui surpreendido com mensagem de uma internauta, que revoltada com o meu ponto de vista, me imputava críticas como se eu fosse quase que um grande vilão do direito ou uma espécie de terrorista jurídico, apenas como dito, por defender uma visão jurídica que ela, opostamente, não compartilhava. E olha que nem se tratava de nenhum tema polêmico de cunho político ou religioso. De modo algum, mencionaria quaisquer outros dados aqui, inclusive para preservar a sua imagem. Todavia, como sempre aconselho aos meus clientes e amigos, fiz os print’s das mensagens e guardei, acaso porventura, me arrependa de não processá-la.
Como advogado, também atuante nessa área indenizatória, o que sempre aconselho às pessoas é que, quando fizerem uma crítica num local público, seja mais respeitosa aos titulares da mensagem atacada - pois, a página de um profissional é também o seu recinto laboral, o seu terreno sagrado, mais ainda, é a ‘extensão digitalizada e virtual do seu escritório físico', por conseguinte, é o um viés extensivo da sua própria vida pessoal e laboral, protegida constitucionalmente como direito e garantia fundamental, haja vista que, ali clientes e admiradores do seu trabalho mantêm trânsito constante e livre – desse modo, o fato de ingressar no 'local profissional ou pessoal' de uma indivíduo (cuja Constituição trata como 'extensão da sua casa') para lhe desferir farpas 'estereotipadas' a respeito da sua índole, do seu caráter, ou qualquer outro tipo de apontamento desrespeitoso que traga ‘sofrimento íntimo à sua honra’, pode trazer consequências jurídicas gravestanto na esfera criminal com o na esfera civil, com efeitos financeiros em favor da vítima.
Caramigo (2014) explica que:
(...) qualquer imputação (opinião) pessoal (insultos [...]) de uma pessoa em relação à outra, caracteriza o crime de Injúria. “(...) Injuriar alguém, significa imputar a este uma condição de inferioridade perante a si mesmo, pois ataca de forma direta seus próprios atributos pessoais. Importante ressaltar que, neste crime, a honra objetiva também pode ser afetada. No crime de Injúria não há a necessidade que terceiros tomem ciência da imputação ofensiva bastando, somente, que o sujeito passivo a tenha, independentemente de sentir-se ou não atingido em sua honra subjetiva. Se o ato estiver revestido de idoneidade ofensiva, o crime estará consumado”.
Sabemos que, em relação à competência territorial para julgar essas lides, o tema ainda é um tanto tormentoso, ademais haja posições em ambos os sentidos, a mais aceita na jurisprudência tem sido a esposada no acórdão oriundo do TJ-PR no qual restou assentado que: “(...) nos crimes cometidos via internet a jurisprudência já se manifestou no sentido de que o local consumativo é onde são recebidas as mensagens eletrônicas.”[1]
Para efeitos práticos no que concerne aos aspectos da competência territorial, deixamos aqui, um breve apanhado feito pelo professor Luiz Antônio Borri, que pode em muito ajudar os interessados.
“a) Crime contra a honra julgado pelo juizado especial criminal tem a competência regulada pelo local onde o querelado praticou a ação delituosa;
b) Crime contra a honra julgado pela justiça comum:
  • Crime de injúria – a competência será do juízo onde a vítima tomou ciência das mensagens publicadas nas redes sociais;
  • Crimes de calúnia e difamação – o foro competente será aquele onde terceiros obtiveram ciência dos termos ofensivos;
  • Em qualquer caso, não sendo possível apurar os locais mencionados anteriormente, abrem-se duas possibilidades:
  • O foro competente será o lugar do domicílio ou residência do réuou,
  • Sendo desconhecido, a competência será regulada pela prevenção”.
Retomando a questão central, é cediço reforçar que, ofensas discriminatórias e estereotipadas que vilipendiem o íntimo do indivíduo ou mesmo que gerem depreciação da sua imagem no seu ambiente social e de trabalho, são atos injuriosos passíveis de condenação pecuniária ressarcitória, quiçá efeitos penais.
Uma imagem profissional custa anos de dedicação e investimento para ser construída, todavia, carece apenas de uma cinza lançada ao vento para virar um braseiral em chamas.
Por concluir, que fique muito claro isso – a internet é um ambiente como qualquer outro, como uma via pública, por exemplo, onde todos têm o direito de ir e vir livremente, freqüentar espaços abertos ao público, entrar e sair sem pedir permissão, inclusive podendo tecer comentários ou críticas sobre aquilo que lhes sobressalta aos olhos, entretanto, nunca abandonando o respeito e a polidez, pois, nem nas ruas tão quanto nas redes sociais, lhe é permitido 'usar de presunções ou subsunções infundadas no que concerne ao profissionalismo ou o caráter das pessoas, principalmente, quando este se encontra em circunstância de exposição pública, onde tais 'injuriações', podem ter um peso e repercussão ainda maior, vez que macula sua imagem frente aos seus clientes e seguidores.