Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

quarta-feira, junho 22, 2016

Uma reflexão sobre o estreitamento da relação entre o futebol e a política


Futebol e Política: A revolução virá das arquibancadas

Victor de Leonardo Figols

Nessa última parte da série Futebol e Política, vamos tratar das torcidas que se organizam para construir um futebol mais justo, seja questionando a estrutura mercantil vigente no esporte, seja lutando por direitos civis dentro e fora dos estádios.
É difícil pontuar em qual momento histórico as torcidas começaram a assumir pautas políticas e levar para o terreno de jogo. Se lembrarmos da história FC Barcelona, ou mesmo do Athletic Club, as lutas separatistas dos dois clubes datam dos primeiros anos do século XX, e se intensificam depois dos anos 1940, a ditadura de Francisco Franco. Na Itália, como mencionamos no texto anterior, a torcida dos dois clubes da capital tomaram rumos diferentes, os torcedores da Lazio assumiram o caminho da extrema-direita, enquanto os da Roma, em sua maioria, assumiram uma postura de esquerda. Na Alemanha, devido ao passado nazista, muitas torcidas adotaram posturas mais progressistas, outras mais a esquerda, como é o caso do St. Pauli.
Talvez a Inglaterra seja o país mais fácil de localizar o envolvimento das torcidas com a política. Foi em meados dos anos 1980 que torcedores assumiram uma postura de resistência, principalmente com relação aos ataques a sociabilidade que a política anti-hooligan da Margaret Thatcher proporcionava através do Relatório Taylor. É bem verdade que as políticas da Dama de Ferro assumiram os interesses da classe média alta, colocando na marginalidade as classes mais baixas (curiosamente o maior número de torcedores hooligans pertenciam a essas classes mais baixas) que sofreram com restrições tanto no âmbito político-social, quanto cultural.
Todavia, antes dessa cultura de resistência tomar conta das torcidas inglesas, é preciso lembrar que o movimento começou timidamente. Como bem aponta o sociólogo Richard Giulianotti [1], os primeiros movimentos de contestação foram por meio dos fanzines, uma espécie de revistas feita por torcedores para os torcedores (seguindo a cultura Punk dos anos 1970, “do it yourself”), em que discutiam diversos assuntos com relação ao jogo, e que aos poucos a pauta política começou a aparecer. Foi após tragédia de Heysel (1985), um confronto entre torcedores do Liverpool (Inglaterra) e da Juventus (Itália) causou a morte de 39 pessoas e feriu outras 600, que o combate ao hooliganismo se intensificou, e em resposta, a produção de fanzines mais contundentes, denunciando a política perversa por trás do discurso anti-hooligan, também cresceu.
Rapidamente os fanzines se tornaram um dos principais veículos de comunicação entre os torcedores para discutir formas de resistência, além de denunciar a expulsão das classes populares dos estádios. Essa discussão deixou os papeis e se tornou pública, diversos coletivos começaram a se organizar em protestos que questionavam as práticas comerciais do clube. Ainda que não fosse denominado assim, esse pode ser considerado um dos primeiros movimentos contra um novo futebol que estava sendo colocado na Inglaterra do começo dos anos 1990, o futebol moderno.
Como bem mostra Irlan Simões [2], o movimento “contra o futebol moderno” surgiu de forma oficial 1999, quando torcedores da AS Roma fizeram um manifesto se posicionando contrários as mudanças que o futebol sofrera na última década, isto é, a crescente mercantilização, espetacularização e midiatização do futebol. Os clubes da Europa viram o futebol se tornar uma grande indústria, comandada, sobretudo, pelas grandes empresas de comunicação. Em outras palavras, o futebol passou a ser visto como um produto, e os clubes como empresas.
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Torcedores do São Paulo protestam contra o futebol moderno. Foto: Fábio Soares/futeboldecampo.net.
Com a crescente mercantilização do esporte, os torcedores assumiram o papel de consumidores. A relação clube-torcedor foi deformada, e transformada em uma relação entre cliente e empresa, assim, abriu-se um abismo entre o clube e sua torcida. Nesse sentido, esse futebol moderno corrói todas as relações entre clube e torcida, e afetam diretamente as tradições clubísticas.
Foi dentro deste contexto que diversas torcidas se organizaram para questionar os altos valores gastos nas contratações de jogadores, a midiatização do futebol promovida pelas emissoras de televisão, a expulsão das camadas populares dos estádios, e consequentemente, a elitização dos estádios. O fato de o futebol ser tratado como produto, e o torcedor como consumidor era uma das principais críticas, as torcidas estavam se rebelando contra o sistema, contra o capitalismo.
Essa luta anticapitalista originou de maneira espontânea e orgânica diversos coletivos dentro das torcidas, e em alguns casos, até clubes de futebol. Na Alemanha, o St. Pauli foi praticamente refundado por torcedores que passaram a fazer a gestão do clube, colocando em uma perspectiva crítica a mercantilização do jogo. Questões como a luta contra o racismo, o machismo, a homofobia, e até mesmo contra xenofobia foram levadas para as arquibancadas. Na Inglaterra, o FC United of Manchester nasceu em resposta a mercantilização do futebol. Torcedores o Manchester United romperam os seus laços clubísticos quando o clube foi comprado por um milionário americano. Os torcedores decidiram fundar um clube mais representativo, ligado à origem operária da cidade de Manchester, e assim, passaram a questionar fortemente a mercantilização do futebol. No Brasil, a torcida Setor 2 resgata a origem operária do Juventus da Mooca e levantam uma bandeira contra altos valores de dinheiro que circulam no futebol, questionado os impactos da transformação do clube em empresa, que em larga medida, levaria a uma elitização das formas de torcer. Sobre essas três torcidas há um série produzida pelo blog O Campo e compartilhada aqui no Ludopédio [3].
Outra torcida com um grande protagonismo na luta contra futebol moderno é a Bukaneros, do Rayo Vallecano da Espanha. Trata-se de uma torcida fortemente ligada ao bairro operário de Vallecas, em Madrid, que questiona o abismo criado pela televisão espanhola entre os Real Madrid e Barcelona com relação aos outros times. O passado operário do bairro e do clube é resgatado, e pautas como o combate ao racismo, fascismo e homofobia são incorporadas à luta contra o futebol moderno.
Como já foi citado na segunda parte do texto, temos a torcida Brigate Autonome Livornesi do Livorno que é declaradamente comunista, e combate veementemente os torcedores ultras de extrema-direita. No Brasil, a Gaviões da Fiel vem demostrando atitudes bem progressistas, denunciando a forma como o futebol brasileiro vem sendo conduzido pela Rede Globo, CBF e FPF, mas também assumindo pautas mais abrangentes, como a denuncia da Máfia da Merenda no Estado de São Paulo, e recentemente se posicionaram contrários ao Golpe a presidenta Dilma, além buscar medidas para reduzir os gritos homofóbicos no estádio de Itaquera.
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Torcida do Corinthians com sinalizadores em partida pela Libertadores de 2016. Foto: Fábio Soares/futeboldecampo.net.
Seguindo essa postura de esquerda, temos a Galo Marx do Atlético-MG orientação marxista, e a Porcomunas do Palmeiras de que agrega as diversas releituras do marxismo. Em ambos os casos, o que está em discussão é a luta contra as mazelas do capitalismo, dentro e fora dos estádios. Também há um esforço por parte dessas torcidas em se resgatar a tradição operária desses clubes. Além desses dois grupos, temos diversas outas torcidas que levantam uma bandeira progressista, como é o caso das torcidas antifascista. Talvez a mais antiga seja a Ultras Resistência Coral, Ferroviário Atlético Clube do Ceará [4].
Em uma busca rápida no Facebook, foi possível localizar 28 coletivos de diferentes clubes brasileiros que assumem a postura antifascista, faço questão de citar todos eles: Ação Antifascista Joinville, Atlético Mineiro Antifascista – GALO Antifa, B16 – Bangu Antifascista, Bahia Antifascista, Botafogo-SP Antifascista, Ceará S.C. Antifascista, Clube de Regatas do Flamengo – Antifascista, Clube do Remo – Antifascista, Coral AntiFa, Corinthians Antifascista, Coritiba Antifascista, Fluminense Antifascista, Fortaleza E. C. – Antifascista, Galo Ultras Antifa, Grêmio Antifascista, Guarani Antifascista, Inter Antifascista, Internacional de Porto Alegre Antifascista, Londrina Esporte Clube Antifascista, Palmeiras Antifascista, Palmeiras Punk Rock – Antifascista, Ponte Preta Antifascista, Punk Santista, Santos Antifascista, Santos FC Antifascista, São Paulo FC – Antifascista, Vasco Antifascista.
É claro que existem outros coletivos de torcedores antifascistas que não se organizam por meio da rede-social, mas essa quantidade levantada mostra o quanto o futebol vem se politizando e assumindo pautas que buscam mudar não apenas o futebol, mas também a sociedade como um todo. Uma leitura interessante, já que se entende que o futebol não pode ser desvinculado da sociedade.
Existem outros coletivos de torcedores com pautas políticas menos abrangentes, mas de extrema importância, já que buscam reconhecimento, representatividade e respeito. É o caso das torcidas gays, como a Galo Queer, Bambi Tricolor, Palmeiras Livre e Gaivotas Fiéis que lutam pelo fim do preconceito dentro e fora dos estádios. Também há as torcidas femininas, que lutam, principalmente, contra o machismo. Talvez a mais conhecida delas seja a Schickeria München, do Bayern München, da Alemanha.
Se em uma definição simples, a torcida de futebol consegue agregar diversos indivíduos, em suas diferenças, em um único elemento: a paixão clubística. Ideias como igualdade, unidade e pertencimento estão colocadas entre os seus torcedores. Essa ideia de igualdade e pertencimento pode ser levada para o âmbito político, assim, as torcidas de futebol se uniriam em torno de um ideal, que não é mais clubístico, e sim político. O maior exemplo de união de torcidas é o caso do grupo Istanbul United.
Em 2013, durante os protestos na Praça Taskim, na Turquia, as três torcidas dos principais clubes de Istambul se uniram. Torcedores do Galatasaray, Fenerbahçe e Beşiktaş, que tinham um longo histórico de rivalidade e brigas entre eles, se uniram em nos protestos que começaram em torno da demolição do Parque Gezi, e que rapidamente tomou grandes proporções. O grupo ajudou os outros manifestantes no combate à repressão policial durante os protestos, uma vez que já possuíam uma longa experiência com os confrontos desse tipo, além disso, os torcedores engrossarem o movimento contra o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento) do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan.
A ideia do Istanbul United é o caso mais concreto de como o futebol pode ser usado como ferramenta de luta e resistência. E mais do que isso, é um ótimo exemplo de como a união das forças das torcidas pode mudar a ordem vigente.
Ao questionar a lógica mercantil do futebol globalizado, a elitização dos estádios e as formas autoritárias dentro e fora do ambiente esportivo. Ao levar para as arquibancadas pautas como a luta contra o racismo, machismo, homofobia e a xenofobia. Ao colocarem em discussão um futebol mais justo, e uma sociedade mais justa, as torcidas assumem atitudes revolucionárias. São lutas anticapitalistas e antissistema, portanto, revolucionárias.
A revolução será com bandeirões, tambores e sinalizadores!
Referências
Recomendo

Dívidas dos três clubes mineiros supera a casa dos R$ 800 milhões







Dívida dos clubes brasileiros da Série A


terça-feira, junho 21, 2016

O futebol brasileiro não precisa de heróis e vilões. Precisa de ideias e debate

O esporte mais popular do país anda mal das pernas, mas não acabou com os 7 a 1 do Mineirão
Por: Maurício Noriega / Universidade do Futebol

No Brasil dos dias de hoje quase tudo que se discute descamba para o dualismo fundamentalista. Ou você é do bem ou é do mal. Tudo depende de quem pensa ou não como você. O futebol não poderia escapar dessa armadilha tão brazuca. Preso a esse conceito que flerta com o fanatismo sectário o esporte – ainda – mais popular do País deixa de ser debatido com a seriedade e profundidade que precisa e merece.
O que vem sendo feito de errado há tanto tempo é de tal forma cristalino que não carece de demonização de pessoas e propostas. Assim como a santificação de ideias e defensores pouco ou nada contribui. O futebol brasileiro anda mal das pernas, mas não acabou com os 7 a 1 do Mineirão. Decretar que nada de bom existe em todas as esferas do futebol nacional é um equívoco perigoso – assim como negar que há muita, mas muita coisa errada e há muito, mas muito tempo.
Embora tente transmitir uma imagem de mudança e passar à opinião pública a mensagem de que está aberta ao debate e a novas ideias, a CBF segue prisioneira de pensamento e métodos cartesianos. Ao inventar uma comissão de notáveis para debater ideias e propostas para seu produto, a entidade parte da premissa de que abre suas janelas para entrada de ar fresco. Mas no fundo permite a entrada apenas do mesmo ar que vem sendo respirado há tempos, ao convocar um time formado por uma massa de apoiadores históricos e defensores do modelo vigente e evitar o confronto de ideias que poderia acontecer de forma saudável se fossem chamados ao debate personagens de pensamento diametralmente oposto e com visões antagônicas. Somente desse choque de propostas surgirão ideias efetivas. Quando estão à mesa partidários de uma mesma forma de pensar não há debate, apenas confirmação e perpetuação.
Perde-se tempo e energia preciosos no futebol brasileiro com o chamado desvio de foco. Quase sempre divididos por interesses individuais e necessidades urgentes provocadas por péssimas administrações, os clubes perdem força. Trazem para a discussão temas de arquibancada e boteco e deixam passar generosas oportunidades de entendimento ou, pelo menos, discussão de novas propostas.
A maioria dos clubes de futebol do Brasil tenta vender uma imagem de penúria, falta de apoio, abandono e desvalorização. Nos últimos 20 anos o futebol brasileiro recebeu investimentos como nunca antes. O dinheiro jorrou farto, vindo de cotas de TV, patrocínio de camisa, bilheteria, programas de sócio torcedor, marketing, venda de atletas. Quantos foram os clubes que efetivamente se aproveitaram desse momento, sanearam suas finanças e modernizaram suas administrações? Quantos se desvincularam da prática do mecenato? Certamente uma minoria. Quantos aumentaram suas dívidas e se penduraram em empréstimos bancários e negociações nas quais tiveram de abrir mão de generosas fatias de seus principais ativos em termos de mercado: os atletas?
Ao decretar verdades absolutas alguns debatedores sufocam o debate. Conceitos como “espanholização” ganham as redes sociais e quase nunca chegam acompanhado de dados e pesquisa sérios, relativizados. Pelo contrário. O modelo briga de arquibancada se impõe e a oportunidade se perde. Os pontos discordantes em termos de calendário seguem pelo mesmo caminho. Eu, por exemplo, sou radicalmente contra a adequação de nosso calendário ao das grandes ligas europeias. Mas procuro ouvir com atenção quem é favorável. Porque sou contra? Porque acredito que o mundo tem suas diferenças e particularidades e o futebol não está acima delas. Inclusive da questão geográfica, dos hemisférios, das estações do ano etc. Porque o calendário da Espanha tem esse formato, alguém já se perguntou? Simplesmente porque segue calendários importantes para aquele país, entre eles o escolar e o parlamentar, por exemplo. Além de evitar jogos nos meses mais quentes do ano e preservar o verão para as férias dos atletas profissionais, como quase sempre ocorre em qualquer país com grandes variações de temperatura.
Se alguém acha sinceramente que simplesmente atrelar nosso calendário ao dos maiores clubes do planeta resolverá alguma coisa, porque então não funcionou na Argentina? Ou não seria mais produtivo buscar uma solução que atendesse aos interesses dos clubes brasileiros dentro da realidade brasileira em termos de calendário? Porque se fosse fácil permito-me uma analogia: se adotássemos a mão inglesa na direção nosso trânsito alcançaria níveis ingleses ou japoneses de segurança? Duvido, porque a falta de educação continuaria vigente, trafegando pela direita ou pela esquerda. Não se pega a realidade de países de pequena extensão territorial e grande desenvolvimento humano da Europa e simplesmente se procura encaixá-la no Brasil. Como se fosse uma brincadeira de mapas, ao sobrepor o da Espanha e da Inglaterra, por exemplo, ao nosso, sobraria um espaço continental. Espero que a analogia seja compreendida.
Outro ponto que viralizou: nossos treinadores estão ultrapassados. Será? Todos eles? Porque não prestar mais atenção em trabalhos interessantes que estão sendo feitos, não apenas por figuras estelares, mas em equipes de menor expressão e nas categorias de base? Existe muita gente sintonizada com o que há de mais moderno em termos de treinamento e tática e procura “traduzir” essa informação em conhecimento adaptado à nossa realidade.
A alma nacional anda tão contaminada pelo espírito de chimangos contra maragatos (referência ao Sul, que sempre traz boas ideias e mostra Grêmio e Internacional buscando seus caminhos mesmo sem estar no epicentro econômico e político) que o bem e o mal estão claramente determinados em alguns debates e debatedores. Boas ideias chegam do Nordeste, com exemplos de reconstrução como o Santa Cruz e de consistência como o Sport. Além de desejos sinceros de mudança de conceito como o Bahia, por exemplo. Infelizmente, alguns debatedores e formadores de opinião se arvoram profetas da guerra santa e partem para uma cruzada suja que joga no mesmo balaio estratégia empresarial e opinião individual. Sempre buscando refúgio na memória seletiva. Covardia.
Não existe verdade absoluta e nem solução definitiva. Para preservar os atores e estrelas do espetáculo é preciso ouvir o amplo espectro do negócio. Todos os jogadores, com o perdão da redundância temática, devem participar amplamente, colocar suas necessidades, desejos e buscar uma solução ampla e adequada à nossa realidade. Respeitando diferenças de clima, sotaque e propostas.
É uma ilusão acreditar que não existirão times grandes, médios e pequenos, equipes de maior torcida e apelo financeiro, político e midiático. É assim no mundo todo. A Juve é odiada por quase todos os demais torcedores da Itália por isso. O Real Madri na Espanha, idem. O Barcelona ainda goza de uma espécie de licença poética pelos tempos de resistência catalã, mas seu poderio incomoda tanto quanto o do grande rival. Na França praticamente não existe mais disputa. Que dirá da Alemanha? Em quase todas as grandes nações do futebol há dois, três, quatro times disputando títulos. Grandes fortunas individuais e gigantescas corporações (algumas com conexões perigosas) estão dominando o mercado. O Brasil tem pelo menos 12 grandes clubes de expressão nacional. Ainda conta com um fenômeno local que são os grandes clubes de expressão regional. Em vez de criar problemas isso deveria ser saudado como uma grande oportunidade para melhorar e profissionalizar métodos e torneios e distribuir melhor a geração de riqueza. Nos últimos 25 anos, 11 clubes diferentes venceram o Campeonato Brasileiro. Em igual espaço de tempo, 15 equipes diferentes conquistaram a Copa do Brasil. Impossível não tirar desses dados uma lição de produtividade.
Essa riqueza não pode fugir aos olhos de quem debate. O clima de guerra santa provoca cegueira intelectual e apaga a chama do pensamento claro e das boas ideias. A mudança urge, mas precisa vir de um debate amplo, geral e irrestrito. Sob pena de, ao propor heróis, surgirem novos vilões.            

segunda-feira, maio 02, 2016

A República dos 7 x 1: da Copa do Mundo ao impeachment

POR RODRIGO ANDRADE*
Quando a seleção brasileira entrou em campo no Itaquerão para o primeiro jogo da copa do mundo, os jogadores em fila indiana com a mão no ombro do jogador à sua frente, me lembrei da pintura de Peter Brueguel, “A parábola dos cegos”, de 1568, em que uma fila de mendigos cegos tropeçam e caem, de acordo com a parábola de Cristo “Se um cego guia outro cego, os dois caem num buraco”. Como pode uma seleção brasileira entrar em campo da mesma maneira que um time de cegos entraria?! E nem precisava ir tão longe para fazer tal associação, pois um pouco antes da copa do mundo houve a copa mundial de futebol de cegos, da qual o Brasil se saiu campeão, e num comercial da Coca Cola veiculada durante o Mundial, esse time campeão tinha o prazer de acariciar a verdadeira copa do mundo, o troféu que viria a ser entregue ao capitão da seleção alemã. E numa cena que seria tocante não fosse a capacidade intrínseca da propaganda de tornar tudo boçal, o nosso time de cegos entra no recinto onde está a taça em fila indiana com as mãos nos ombros do jogador da frente, com a humildade e a dignidade de quem enfrenta dificuldades gigantes.

No caso da seleção brasileira, em vez de humildade e dignidade, havia máscara e demagogia, e a simbologia inscrita na fila de cegos que usava ao entrar em campo acabou sendo a tradução perfeita para o futebol apresentado durante a copa, sem a menor noção de suas limitações, uma ausência total de planejamento futebolístico, de visão de jogo, de qualquer preocupação técnica ou tática, apostando todas as fichas no talento do jogador brasileiro (a esta altura uma figura histórica), na família Felipão, e principalmente no clamor patriótico da torcida e na fé em Deus. A histeria com que os jogadores (e a torcida) cantavam o hino nacional aos berros e no modo como, de olhos bem fechados, os jogadores erguiam seus indicadores para o céu e rezavam antes de começar as partidas, tentando inflamar o ambiente e o time mostram isso (sendo que o time seguia sem a mínima combustão)… Aliás, conseguiram inflamar o time, sim, só que para pior! Já que o destempero emocional de jogadores experientes como o capitão Tiago Silva, incapaz, aos prantos, de bater um pênalti contra o Chile, foi outro fator decisivo para o desastre… Em suma, a seleção brasileira apostou na irracionalidade, apelando para sentimentos nobres (e falsos), se esquecendo de jogar futebol e pagou um preço que jamais sonhou pagar.
Menos de dois anos depois, o Brasil inteiro se vê arrasado por um tsunami de ódio e irracionalidade baseados nos mesmos sentimentos nobres do patriotismo (“o último reduto dos canalhas”**) da fé, da luta do bem contra o mal (que se coloca acima da lei), num maniqueísmo primitivo e fanático (como acontece entre as torcidas de futebol). Uma onda gigante de panelaços, gritos guturais, intolerância e até discursos em prol da ditadura militar varreu o Brasil de norte a sul. Pois a meu ver esse movimento, que teve seu germe nas manifestações de 2013, se plasmou com forma e unidade um ano depois, justamente na Copa do Mundo, em dois momentos marcantes: o vexaminoso xingamento da torcida à presidenta Dilma no jogo de abertura e nos inacreditáveis 7 x 1 contra a Alemanha. O primeiro por razões óbvias, o segundo por ser o desfecho humilhante daquela apoteose de patriotismo e fé. Ninguém esperava 7 x 1, mas o que esperava aquela torcida ignorante de futebol que só sabia cantar ” Sou brasileiro com muito orgulho”? Que cantar o hino nacional à capela ganhasse os jogos, derrubando os adversários como se fossem as muralhas de Jericó? Tentavam ganhar no grito.
E se uma simples derrota num jogo de futebol já é difícil de engolir (a culpa é quase sempre do juiz), imagine uma derrota da nossa seleção, símbolo máximo da nossa excelência, reconhecida como a melhor do mundo, em casa?! Acrescente-se a isso a derrota patética da fé e do patriotismo em tamanho fervor! O baixo nível do nosso time, a profundidade abissal da nossa incompetência em campo é por demais doloroso para ser aceito ou meramente reconhecido e foi simplesmente recalcado, enterrado vivo, e vivo permanece, oculto. Sentimentos ruins como vergonha, desprezo e raiva daquela porcaria de time apodrecendo no espírito dessa gente orgulhosa. Pra onde foram esses fétidos sentimentos todos? Acredito que o recalque dos 7 x 1 é um elemento fundador (entre outros, claro, mais importantes, claro) desse movimento pró impeachment, dessa onda de ódio. Não é a toa que esses manifestantes usavam a camisa da seleção brasileira como uniforme para protestar contra o governo e usam calças e saias brancas, como a seleção brasileira em quase todos os jogos da Copa (embora não contra a Alemanha, diga-se). Em cada brasileiro e brasileira gritando pelo impeachment, um David Luiz, um Fred, um Hulk. A vergonha, a frustração e a raiva que aquele uniforme inspirava foi trocada, neuroticamente, patrioticamente, pela veneração. Me pergunto se, à luz da polarização que divide hoje o Brasil, a seleção brasileira não representa apenas um lado do país, o lado que clama pela pátria, deus e a família, o lado incapaz de criticar o time em nome do patriotismo, que veste com orgulho o distintivo da CBF (símbolo máximo da corrupção brasileira), do lado coxinha, enfim… aliás, noso time vem deixando de ser a seleção brasileira e se tornando a seleção da CBF desde de 2006, quando começou a escalada de vexames do nosso escrete (nosso ou deles?)…
Assim como o 7 x 1, a corrupção geral do Brasil é difícil de aceitar, nossa incompetência é difícil de aceitar, o nosso ridículo é difícil de aceitar, e bem ao modo como Freud explica o conceito de projeção, sentimentos indesejados e recalcados em nós são projetados no outro, como defesa. E a visão religiosa que divide o universo entre bem e mal, e que parece tomar conta do mundo em geral e do Brasil em particular, e dessa ala golpista em especial, favorece tal projeção: o mal é o outro. E se na Copa não tínhamos um “outro” a quem projetar nossa vergonha e nossa raiva (então só restava jogar nossa incompetência para debaixo do tapete), na política sim, passamos a ter, já que a polarização produzida pela onda de ódio que tomou conta do país permitiu isso, e ao se jogar toda a conta da corrupção para o PT, para o governo, abre-se uma pizzaria. É claro que a verdadeira razão para tal é a manutenção do poder político e econômico, algo muito concreto, e não um sutil mecanismo psíquico de defesa, mas acredito que o recalque dos 7 x 1 teve sim um efeito psicológico que contribuiu para a formação das hordas de paneleiros patrióticos antes frustrados e agora exultantes e redimidos.
Seja como for, o Brasil tinha uma copa do mundo em casa para jogar, um prato cheio para um espetáculo do nosso futebol, mas cego para suas próprias limitações técnicas, perpetrou um fiasco. Depois do fiasco, outro prato cheio, agora pra mudar completamente a gestão do futebol brasileiro, mas sobreveio outro fiasco, a continuidade, na figura lamentável de Dunga (um moralizador de estilo militar) como técnico da seleção, que continua cega (e a caminho de ficar fora de uma copa do mundo pela primeira vez). Agora a Operação Lava Jato é uma oportunidade de ouro para se desbaratar um cartel de empresas gigantes que alimenta um sistema corrupto que toma quase a totalidade da classe política e dos governos, seja que governo for, há décadas! Uma chance única de conseguir uma vitória histórica, de dar um salto como sociedade e como sistema político. A Lava Jato é como uma copa do mundo em casa! Mas ao invés de mudança, vemos um golpe de estado de colarinho branco para manter as coisas como sempre foram, com a distorção escandalosa do processo todo em prol da tomada de poder por parte dos chefes da classe política corrupta e fisiológica. Usando a nossa cultura arraigada cada vez mais punitiva, moralista e conservadora, aponta-se toda a máquina policial, jurídica, econômica e midiática contra o governo atual, certamente envolvido no sistema da corrupção geral e perene que domina o país, mas que tem legitimidade popular. Articula-se assim a continuidade – agora vacinada! – com a volta do golpismo. Se expulsa o PT e a visão social da política e então, como diz um locutor de futebol: “segue o jogo”…
E não é que aquela apoteose histérica de patriotismo e fé está ganhando o jogo da política no grito?! O Brasil virou várzea! Um impeachment baseado em provas pífias, lançado por uma advogada que mais parece uma fanática religiosa em transe, liderado pelo inacreditável Eduardo Cunha, aprovado por parlamentares invocando Deus e a família (como os slogans de 64) e até torturadores da ditadura militar, conduzido por um juiz também religioso que, dizem, a tempos se gaba entre amigos de que “ainda vai pegar o Nine Fingers”, usando sem escrúpulos (mas muito bem apoiado e garantido) expedientes como a vergonhosa liberação das escutas, a condução coercitiva etc, sempre em sintonia com o Jornal Nacional para inflamar a opinião pública – é tudo na base da inflamação, como na copa! – levou o pais a um passo de um fiasco histórico, uma derrota humilhante da democracia que pesará para sempre sobre nós. Estamos tomando uma surra ainda mais inimaginável que a da copa. O impeachment será o nosso 7 x 1 em proporções republicanas. O que aquela derrota foi para o futebol brasileiro o impeachment será para a história do país (o 7 x 1 inscrito nos números finais da votação do congresso – 367 x 137 – acabou dando um toque irônico de verdade naquela sessão infame). A comparação pode ser desproporcional, pois quem se importa com a seleção brasileira hoje em dia? Mas justiça seja feita, ela é o modelo exemplar da nação: um time de cegos.
*Rodrigo Andrade, autor também da ilustração,  é artista plástico.
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**Samuel Johnson

segunda-feira, abril 25, 2016

Norte: a fronteira que aproxima o futebol feminino da excelência

Academia do Iranduba / Divulgação

Há também no futebol, a geografia que nos separa e massacra, promovendo uma espécie de apartheid, enquanto há aquela que nos aproxima e de certo modo nos unifica como a que vem sendo experimentada no Amazonas, em sua capital Manaus. E o objeto dessa experiência que já se configura como mais um case de sucesso é o Iranduba, equipe de futebol feminino manauara, que incorporou a equipe catarinense do Kindermannn, mas que pode perfeitamente ampliar o espectro de seu sucesso às cercanias das bacias hídricas amazônicas.

O Secretário de Futebol Profissional em exercício do Ministério do Esporte, Romeu Castro, esteve em visita ao local, dizendo-se positivamente impressionado com o que viu. Visitou campo de treinamento e de jogos, academia, a casa das atletas, e teve a garantia de que ali o futebol feminino não só pode florescer como já floresce. Sem dúvida alguma, mais de três centenas de clubes brasileiros não possuem a estrutura ali presente. No entanto, frise-se desde já que nada parece megalomaníaco. É tudo pensado e realizado em bases reais e sob o vislumbre da autossustentabilidade. E o investimento, que parece tratar-se de origem mista – privado e público – poderá perfeita e verdadeiramente produzir um legado esportivo para parte da população daquele estado.

O futebol feminino do norte do nosso país agora tem um representante de peso e respeito, que esperamos não venha a sofrer de inanição, também não engrossando as fileiras da trágica mortalidade infantil do empreendedorismo nacional. Que o Iranduba, que renasceu da ‘transgenicidade’ e o do ‘transgerencial’ possa vencer a barreira da efemeridade, para transformar-se em agente propulsor do desenvolvimento do futebol feminino das regiões norte e nordeste. Mesmo que não haja uma relação osmótica entre essas regiões, mas há uma tendência quase que natural de certo mimetismo, para que a bola imite a vida, ou a vida de uns imite a de outros.

Ao acompanharmos o que se passa no Brasil e no mundo do futebol, percebemos que isso nos coloca diante da possibilidade do conhecimento, e este diminui as fronteiras e isso em certo grau nos emancipa, promovendo o processo de nossa inclusão ao conhecimento global. Do ponto de vista prático, podemos dizer que o norte e o nordeste brasileiros passam a integrar mais fortemente o processo de formação de atletas do futebol feminino, o que lhes permite participar da produção e renovação de valores, desse modo democratizando e legitimando a base feminina brasileira, que poderá contar com um número maior de núcleos formadores, e todos trabalhando de forma menos dissonante.


sexta-feira, abril 15, 2016

Discussão ‘made in’ Nordeste da formação de base

Créditos da imagem: Diário de Pernambuco
Por: Benê Lima
INTEM e CMF 008INTEM e CMF 011 2Sinceramente, não me surpreende que esse ou aquele gestor de campo brasileiro exponha, da forma como o fizeram alguns dos participantes do recente I Encontro Pedagógico do Futebol, realizado na Câmara Municipal de Fortaleza, aquilo que o raciocínio analítico dedutivo já nos vem mostrando ostensivamente há alguns anos. Ou não é uma realidade que temos sido uma das maiores vítimas do processo de globalização do futebol, em que nossa identidade acabou por ser quase inteiramente subjugada?
Não importa o sentimento pelo qual sejamos tomados ou até aturdidos, ao introjetarmos a pungente realidade de estarmos perdendo nosso protagonismo no mundo da bola. O essencial é que admitamos nossa nova condição, para que possamos identificar as causas a ela inerentes, além daquela que acabamos de propor e que, repito, passa pela reprodução do modelo globalizado. Se o problema existe e tentar mistificá-lo não produzirá as soluções que ele reclama, só nos resta trabalhar de modo diligente e criterioso para propor soluções. Portanto, a grande interrogação a ser feita é: quais os caminhos a seguir para mudarmos o atual estado do futebol brasileiro?
Não resta dúvida que a solução ‘barcelonista’ como resposta à questão acima proposta é a detentora do maior apelo e poder de sedução. Contudo, além de certo grau de incompatibilidade com a realidade socioeconômica e cultural brasileira, por seu alto custo e complexidade, ela excluiria a grande maioria dos times brasileiros, pela falta de estrutura dos clubes que lhes dão origem. Outro fator de desencanto pela solução catalã é que ela não é implantável sequer em médio prazo, o que dirá em curto prazo. Ademais, ela exigiria daqueles clubes que quisessem adotá-la a criação de uma superestrutura para as suas divisões de base, condição inaceitável para alguns e inatingível para a grande maioria deles.
INTEM e CMF 027 3Pelo que expomos até aqui, creio que a percepção dos leitores, com base na ‘sintomatologia’ do problema, já os conduziu a um vislumbre da equação problema-solução, que a nosso juízo passa pela reavaliação de toda a metodologia de trabalho que vem sendo utilizada nas categorias de base, com destaque para a reformulação da formação dos atletas.  A propósito, numa nossa recente participação em um seminário com o propósito de discutir o trabalho de base dos clubes de futebol no estado do Ceará, assistimos, um tanto perplexo, aos questionamentos dos integrantes das comissões técnicas, sobre as razões de tão baixa produção em seus clubes, sobretudo em posições de características mais defensivas, como zagueiros e goleiros.  Observamos, pois, que a convicção que nos acompanhava da localização do problema estar nos limites das comissões técnicas, notadamente em suas metodologias de formação dos atletas, não encontrava ressonância alguma naquela plateia, o que nos fez ver que por isso a solução ainda estava distante.
Aos clubes não basta terem em suas fileiras profissionais competentes sem que eles e seus projetos sejam acreditados. Por sua vez, crer-se neles significa dar-lhes todas as condições de trabalho (estrutura, logística, equipamentos, etc.). Feito isso, os clubes precisam manter em sua estrutura técnico-administrativa um mínimo de capital intelectual para a gestão de suas comissões técnicas, sem o quê não se construirá parâmetros de aferição confiáveis do trabalho delas.
Com a reinvenção do trabalho das comissões técnicas, antevejo dois níveis de concepção de trabalho, com o objetivo de lidar com as diferentes realidades dos clubes. Uma dessas concepções se pautaria pela predominância da excelência; a outra se ocuparia da promoção da ‘alquimia’ típica da inovação e da criatividade.
É preciso admitir que a competência dos nossos profissionais não tem sido suficiente para que sejamos modelo na formação de atletas, tampouco na execução do jogo com todas suas variantes. Também não precisamos ir à Espanha para confrontarmos essa realidade. Basta considerarmos, proporcionalmente, a vizinha Argentina para verificarmos que ficamos para trás na formação do atleta e do cidadão, bem como na eficácia do treinamento. Não por acaso, qualquer atleta brasileiro mediano, produz mais onde se valoriza o aspecto coletivo do futebol que no próprio Brasil, onde viceja o culto à individualidade.
Ficamos na abordagem meramente de base técnica, deixando para uma próxima oportunidade os cuidados com o aspecto financeiro, o provedor de qualquer experimentalismo.

quinta-feira, abril 14, 2016

Um toque sobre a mixórdia que é o futebol

 
Tento acomodar o foco de minhas palavras neste espaço, como se fossem auto injunções sobre o futebol nordestino, quando muito apenas divagando sobre a atmosfera do norte. Mas essa geografia que a muitos pode parecer lógica, coerente e justificada, na verdade não é nada disso, pois é necessário respirarmos a atmosfera dos clubes e do futebol em seus locais para formarmos opiniões e ideias mais consentâneas com suas realidades.

O parágrafo inicial tenta justificar algumas digressões geográficas, já que não faltam temas candentes e instigantes em nosso país que nos chamam a atenção. A presença da empresa belga Double Pass, tentando vender sua expertise em estruturação das categorias de base à CBF, a omissão das pessoas em geral no processo de reformulação da gestão da mesma CBF, casos de menor importância, mas curiosos como o que envolve outra vez o jogador Fred e sua egolatria, e numa perspectiva mais globalizada a atitude do treinador do Barcelona de solicitar acréscimo ao elenco que dirige, o case Leicester à luz da melhor divisão de receitas de televisão do planeta, como é a da Premier Ligue, entre outros fatos que pululam globo afora, são um pouco do alvo das minhas digressões.
 
 Do alto direito do mapa do Brasil, onde pelos cabos submarinos transitam um incontável número de mensagens, conexões e documentos da World Wide Web, vemos a compressão de do mundo da informação, cuja tecnologia nos aproxima, numa das mais eloquentes expressões inclusivas e democráticas planetária. É assim que também o futebol se interliga, desse modo aprofundando o processo de globalização que igualmente vai assumindo contornos de unificação das identidades por essa fantástica acessibilidade.  

Mais um bom evento

Evento educacional e formador bom é aquele que produz conhecimento, efeitos perceptíveis e duráveis, e eis o que foi o Encontro realizado entre o treinador da Seleção Brasileira Sub-20 de futebol feminino, Doriva Bueno e o staff cearense da modalidade. No mesmo evento, que teve como local a Federação Cearense de Futebol, esteve presente o Diretor de Futebol Profissional do Ministério do Esporte, Romeu Castro, que vai além de um mero burocrata ou mesmo tecnocrata. Romeu é um profundo conhecedor do futebol feminino e da gestão do esporte. Portanto, só agregou valor ao encontro.  
Treinador da Seleção Brasileira Sub-20 de futebol feminino, Doriva Bueno,
em visita ao Projeto Menina Olímpica
Mas considero como o grande achado do encontro, a ideia da busca pela unificação da metodologia de formação das atletas, sobretudo a partir do entendimento de que a seleção não é lugar para isso, e sim os clubes e projetos aos quais elas estão vinculadas. Portanto, isso muda não só nossa visão do processo, como estabelece a necessidade de revisão dos princípios. E assim trabalharemos daqui por diante. É como a história da mente que se expande que felizmente não mais volta a seu estado dito original.

Mais digressões

Comitê de Reformas do Futebol da CBF. A participação pífia de agentes e pacientes retira um tanto de legitimidade das ações desta iniciativa. Todavia, temos que reconhecer que a inclusão de todos os pontos cardeais brasileiros seria importante para construirmos uma política nacional para o futebol. Uma reformulação progressista, criteriosa e inclusiva das 64 páginas do estatuto da entidade é de imensa importância para o futuro do nosso futebol. Afinal, vivemos o momento em que o futebol internacionalizado é mais football e soccer que futebol.

Reformulação da metodologia de formação da base. A CBF mostrou-se insensível, ao que parece, à expertise e aos consagrados cases de sucesso da empresa belga Double Pass. Essa consultoria esportiva presta serviços para a Federação Alemã de Futebol, para a Premier League, para a Federação Belga de Futebol e para os EUA, além de um total de 500 clubes. Mais uma vez, vale ressaltar o link entre o que pode ser feito em nível macro e em termos microrregional.

Fred e seu culto à egolatria.  Creio que discutirmos as idiossincrasias do Fred nos rebaixa um pouco como comentaristas. É como se isso fosse algo relevante no contexto da gestão esportiva. Não vejo exatamente como briga o confronto de quem tem juízo com outro que age como se não tivesse e a quem falta resiliência. A dificuldade do Fred em ser comandado talvez guarde uma estreita relação com seus exorbitantes proventos. Talvez isso o desloque da realidade corporativa e reforce nele a rejeição à observância de um mínimo de hierarquização.

O fenômeno Leicester. Dele, sem dúvida, – aí sim – podemos pinçar algumas situações com caráter senão de injunção, mas axiomático. Como esporte coletivo, o futebol permite que um ajuntamento de jogadores entre bons e medianos possa superar um elenco de jogadores tidos como de melhor qualidade técnica. Outro aspecto antiparadigmático é o de que o dinheiro não resolve tudo no futebol. Há soluções que passam pelo aprimoramento da eficiência dos processos de gestão e de treinamentos, pela inovação e pela busca da excelência dos aspectos coletivos do jogo. E para não falarmos em separado do aspecto socializante da divisão de receitas da Primeira Liga Inglesa, cabe conectarmos tal realidade ao surpreendente Leicester City, como elemento potencializador do sucesso desta equipe.

Não há geografia que resiste ao poder de unificação dos conceitos universais do futebol destes tempos, razão pela qual o norte, o nordeste, o sul, o sudeste e o centro-oeste brasileiros de alguma forma se acham conectados.

(Benê Lima)

domingo, abril 03, 2016

Tostão: É hora de trocar o técnico

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Parabéns à repórter Gabriela Moreira, da ESPN Brasil, pela matéria investigativa sobre a influência da CBF no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

Ninguém é ingênuo, purista, para acreditar, ou pelo menos não desconfiar, ainda mais neste momento por que passa a CBF e o país, que foi coincidência a seleção brasileira ter se hospedado no hotel do qual o ex-jogador Lúcio é sócio e, ao mesmo tempo, a CBF convidá-lo para ser o auxiliar pontual nos dois últimos jogos. Não estamos na Noruega. O diretor Gilmar Rinaldi, em vez de contar a vantagem de que manteria o convite mesmo se soubesse da ligação entre Lúcio e o hotel, deveria evitar insinuações e desconfianças.

Além disso, a Confederação da Noruega, por excesso de cuidado e por conhecer as fraquezas humanas, não convidaria para diretor de sua seleção alguém que era empresário de atletas, mesmo que interrompesse sua atividade.

Os resultados e as atuações da seleção nos seis primeiros jogos pelas Eliminatórias foram os esperados. Poderia ser pior, já que o Brasil não mereceu o empate com a Argentina e empatou com o Paraguai no último minuto. Além das habituais deficiências individuais e coletivas, ficou ainda mais evidente, contra Uruguai e Paraguai, a irregularidade da seleção e do futebol brasileiro, por dependerem demais de espasmos e de lances individuais e isolados.

A seleção e as equipes brasileiras, com algumas exceções, há décadas, não sabem atuar coletivamente. Além do hábito de jogar por estocadas e lances esporádicos, não há um excepcional meio-campista para fazer a transição, a troca de passes, entre a defesa e o ataque. Essa falta é decorrente da estratégia ou a ausência de craques no meio-campo faz com que o time jogue dessa forma? As duas coisas.

Dunga não é o responsável por isso, mas ele não faz nada para a seleção evoluir, embora, no segundo tempo contra o Paraguai, ele tenha agido bem, ao trocar os volantes por um meia e um atacante, quando percebeu que o adversário foi todo para a defesa. Era também óbvio. O time reagiu, com garra. Dizer que falta comprometimento aos jogadores é fazer média com o torcedor, que adora essa crítica, sempre que a Seleção joga mal.

É necessário criar mudanças táticas e individuais. O perigo, quando se muda, é ficar ainda pior. Por causa da reação contra o Paraguai, uma situação circunstancial, alguns comentaristas já pedem o meio-campo com Renato Augusto, Philippe Coutinho e Lucas Lima. Querem afundar mais ainda a seleção. É essencial ter um volante, pelo centro, que marque e que tenha um excelente passe. Não temos esse jogador, mas existem outras opções, como Casemiro.

Apesar da incerteza de que a seleção melhoraria com um novo técnico, está na hora de Dunga e de Gilmar Rinaldi saírem, desde que o técnico seja Tite, mesmo com seu “titês”. Não pode ser qualquer um. Tite se preparou para isso.

Tite deveria assumir imediatamente, com urgência. É muito difícil, mas é preciso vencer e, ao mesmo tempo, iniciar um novo futuro para o time brasileiro. Futuro não é destino. Futuro é o que será construído.
Planejamento

Dizem que o Cruzeiro já engatilhou a contratação de três bons reforços. Ótimo. Enquanto isso, Deivid, no Campeonato Mineiro, aos poucos, forma um bom conjunto. Se os reforços chegarem com a equipe jogando bem, fica muito mais fácil dar certo.

De outra maneira, o mesmo acontece no Atlético, que já tinha um time formado desde o ano passado e que tem trazido reforços pontuais.

No futebol brasileiro, geralmente, ocorre o contrário. Os times, quando estão muito mal, desorganizados, apelam para reforços caros. Sem um bom conjunto quando eles chegam, acabam decepcionando. Na sequência, geralmente o clube contrata mais jogadores caros e não sai do buraco. Neste ponto, Cruzeiro e Atlético estão à frente.
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sábado, abril 02, 2016

De Blatter a Infantini: Novas perspectivas para o Futebol Feminino

Luiza Loy BertoliSuellen Ramos
No dia 26 de fevereiro, foi realizada a eleição que nomeou Gianni Infantino como o novo presidente da FIFA e sucessor de Joseph Blatter. Dias depois de assumir o cargo, Gianni participava da II Conferência Futebol Feminino e Liderança, organizada pela entidade em Zurique (Suíça), no dia 07 de março. O encontro teve como foco organizar reformas em prol da igualdade de gênero na modalidade, tanto para as mulheres que praticam futebol, quanto para as mulheres que almejam cargos na gestão desse esporte.
Uma das reformas aprovadas no evento é de que, pelo menos, seis mulheres serão incorporadas ao novo conselho que substituirá o Comitê Executivo (órgão responsável por tomar as principais decisões da instituição). Atualmente, o Comitê Executivo da FIFA conta com a presença de uma única mulher: Lydia Nsekera, que foi membro do Comitê Olímpico Internacional em 2009 e em 2012 foi a primeira mulher a integrar a organização.
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Gianni Infantino. Foto: Twitter (reprodução).
Em fala, durante a II Conferência Futebol Feminino e Liderança, o então presidente, Gianni Infantino, assumiu o futebol feminino como prioritário: “O futebol feminino e a mulher no futebol são uma prioridade, são parte da solução para o futuro deste desporto”, disse. Não foi o primeiro momento em que o futebol feminino é mencionado como uma prioridade na FIFA; O ex-presidente Joseph Blatter, em janeiro de 2013, apostou alto no futebol feminino. Acreditava que a expansão mundial partia das federações nacionais e previa serem “as mulheres o futuro do futebol”.
Estas primeiras explanações surgem com o intuito de fazer um balanço a nível nacional das mudanças ocasionadas a partir da fala do presidente da maior entidade do futebol no ano de 2013, até os tempos atuais. Buscando perspectivas para os próximos anos e questionando: quanto o comandante da entidade suprema do futebol influencia nas ações brasileiras para o desenvolvimento do futebol feminino? O que mudou de uma fala para outra? Algumas ações já podem ser percebidas, tanto dentro, quanto fora de campo.
A CBF reiniciou em 2013, o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, que contou com apoio da Caixa Econômica Federal para seu financiamento. Participaram desta primeira edição as 20 melhores equipes ranqueadas pela entidade. A competição que trazia dúvidas em relação a sua continuidade já está na quarta edição. A novidade deste ano são os clubes de camisa que ingressaram no Brasileirão: América – MG, Corinthians – SP, Flamengo – RJ, Santos – SP e Vasco da Gama – RJ, o que de certa forma dá maior visibilidade à disputa. Com inicio no dia 20 de janeiro de 2016 e a participação de 20 times, o campeonato se encontra na fase das quartas-de-final. Em virtude da Copa Algarve, a competição sofreu uma pausa na metade de fevereiro reiniciando em março, com as oito melhores equipes já classificadas.
Viana - MA - 27/01/2016 - BRASILEIRÃO CAIXA 2016 - ESPORTES - Jogo 16 (Segunda Rodada) do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino “Brasileirão Caixa 2016” entre, E.C. Viana X C.R. Flamengo, realizado no estádio Djalma Campos em Viana, MA; válido pelo grupo 04 do Brasileirão feminino 2016. Foto: BIAMAN PRADO / ALLSPORTS
Flamengo em ação pelo Campeonato Brasileiro. Foto: Biaman Prado / ALLSPORTS.
Na semana posterior à declaração de Gianni Infantino, a Seleção Brasileira estreava na Copa Algarve pela segunda vez. Esse campeonato acontece desde 1994, mas contou com a presença das brasileiras somente em 2015. Em sua primeira participação, a equipe canarinha finalizou a competição em sétimo lugar entre doze Seleções. Já em 2016, um ano após a criação da Seleção Permanente, as brasileiras conquistaram o segundo lugar, perdendo apenas para o Canadá na disputa final. Para quem não conhece ou nunca ouviu falar, a Seleção Permanente foi convocada pela primeira vez em janeiro de 2015, com objetivo de melhor preparar as jogadoras para as competições internacionais, principalmente, a Copa do Mundo do mesmo ano e os Jogos Olímpicos de 2016.
Envolveu a contratação de um grupo seleto de 27 jogadoras pela CBF, que fornece ao elenco as instalações da Granja Comary em tempo integral e salários mensais de até R$ 9 mil. O projeto tem seus pontos positivos e negativos. Uma das vantagens é a estabilidade salarial e de trabalho proporcionada às atletas, visto que em clubes que disputam o Campeonato Brasileiro, a remuneração não passa de R$ 2,5 mil mensais e por muitas vezes suas instalações são precárias e as condições de treinamento são inconstantes. Além disso, o benefício de se manter uma equipe em treinamento constante é de que a mesma se torna competitiva e de qualidade. E uma das desvantagens envolve exatamente esses clubes que participam de campeonatos nacionais e “perderam” suas jogadoras para a Seleção Permanente, resultando na queda de qualidade das equipes e no enfraquecimento das competições, uma vez que a maioria do elenco é oriunda dos clubes que mais se destacavam no cenário nacional. O projeto Seleção Permanente já colheu alguns frutos e resultados positivos, sendo eles dois títulos: dos Jogos Pan-Americanos e do Torneio Internacional de Natal, ambos em 2015.
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Foto das jogadoras e da comissão técnica do Brasil ao conquistar a taça do Torneio Internacional de 2015. Foto: Rafael Ribeiro / CBF.
A sétima edição da Copa do Mundo foi sediada pelo Canadá e teve inicio dia 06 de junho. Foi marcada pela quantidade de equipes na competição que passou de 16 para 24 seleções. O Brasil encerrou a participação nas oitavas de final, sendo derrotado pela Austrália pelo placar de 1 a 0. Nessa edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino, outra novidade foi o lançamento do álbum de figurinhas da Copa com todas atletas das Seleções participantes. Em 2011 na Copa do Mundo da Alemanha, o álbum circulou somente do país sede, como o resultado surpreendeu, a Panini expandiu a destribuição para os demais países participantes da competição na edição de 2015. Com isso, as vendas no Brasil tiveram inicio em maio do mesmo ano.
No ano de 2015 a CBF investiu R$ 18,258 milhões no futebol feminino, quase o dobro do valor do ano anterior (R$ 9,583). Do legado da Copa do Mundo de 2014, R$ 45 milhões foram destinados ao futebol feminino, a quantia ainda é considerada pequena para um país como o Brasil, mas devemos admitir que nunca se aplicou tanto na modalidade. E os investimentos não chegam apenas por parte da Confederação Brasileira de Futebol. Um grande apoiador tem sido o Ministério do Esporte através de algumas intervenções feitas pela entidade. Entre elas, o aporte ao Campeonato Brasileiro desde 2013 e à Copa Libertadores da América desde 2012. São 137 jogadoras beneficiadas com a Bolsa Atleta, e 22 atletas que servem a Seleção, com o provento do Plano Brasil Medalha. Por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, será construído em Foz do Iguaçu (Paraná), um Centro de Excelência de Futebol Feminino, que contará com dois campos, alojamento, academia, ginásio e vestiários. O CT servirá de base para treinamentos de times e seleções de futebol feminino., mas ainda sem data para inauguração.
Em 04 de agosto de 2015, o governo implantou uma lei, que se pode compreender como incentivo ao futebol feminino, foi a criação do Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro (PROFUT) – um programa do governo para clubes prolongarem o prazo para quitar dívidas e pendências – mas há uma exigência na Seção X do Artigo 4º onde os clubes terão que apresentar um investimento mínimo na formação de atletas e no futebol feminino. Já são 111 times que aderiram ao PROFUT, com isso, houve o crescimento na participação de times de camisa no Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, como dito anteriormente.
A presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia de assinatura de Medida Provisória para modernizar a gestão e a responsabilidade fiscal do futebol brasileiro, no Palácio do Planalto. Foto: José Cruz / Agência Brasil.
Além de investimentos, a visibilidade para o futebol feminino e para a história das mulheres nesse esporte vem aumentando. Citamos algumas estratégias extracampo que estão mobilizando a modalidade. Está acontecendo desde o dia 08 de janeiro no SESC SP, a Exposição Futebol Delas, organizada pela jornalista Lu Castro – Exposição que retrata por meio de textos, vídeos, fotografias e objetos pessoais de atletas e comissão técnica, a história de 20 anos da participação da seleção brasileira de futebol feminino nas cinco edições do torneio olímpico. E no Museu do Futebol há Exposição da Visibilidade para o Futebol Feminino, até o dia 08 de abril, onde conta a história das mulheres que lutaram pelo direito de jogar, com objetivo evidenciar o futebol feminino provocando nossa forma de enxergar a história desse esporte.
Presidente da FIFA Blatter fala durante o sorteio dos grupos para a copa das confederações, 1 Dezembro de 2012. MOWA PRESS
Não é possível associar as melhorias do futebol feminino às ações do ex-presidente da FIFA, Joseph Blatter. Foto: Mowa Press.
Analisando estes três anos que se passaram, podemos concluir que a nível nacional, tivemos avanços significativos no futebol feminino, no entanto, não se pode afirmar que tais avanços foram diretamente influenciados pelo ex-presidente da FIFA Joseph Blatter ou simplesmente pela pressão interna de quem faz parte da modalidade no país. Destacamos os esforços para o desenvolvimento e fomentação do futebol feminino brasileiro, assim como deixamos a avaliação de que ainda há muito para evoluir, por exemplo, os campeonatos estaduais praticamente não tiveram alterações. Os esforços em prol da modalidade parecem estar voltados prioritariamente para a seleção nacional. O Brasil segue como um dos países mais conservadores quando se trata de futebol e mulheres, principalmente em relação ao preconceito e visibilidade. Mas hoje, podemos arriscar que finalmente vislumbramos um futuro na modalidade. E as palavras de Gianni Infantino, além de esperança, nos dão fôlego.