Sinopse

"Neste espaço encontra-se reunida uma coletânea dos melhores textos, imagens e gráficos sobre o futebol, criteriosamente selecionados e com o objetivo de contribuir para a informação, pesquisa, conhecimento e divulgação deste esporte, considerando seu aspecto multidisciplinar. A escolha do conteúdo, bem como o aspecto de intertextualidade e/ou dialogismo - em suas diversas abordagens - que possa ser observado, são de responsabilidade do comentarista e analista esportivo Benê Lima."

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Paulo Meneses, preparador físico do Chorrillo FC, do Panamá

Profissional fala sobre como tem utilizado a Periodização Tática para desenvolver o futebol naquele país
Guilherme Yoshida
/ Universidade do Futebol

Em um período de seis meses, o preparador físico Paulo Meneses vivenciou duas realidades bem distintas de estágios de desenvolvimento que o futebol tem atualmente no mundo.

Entre 2013 e 2014, fez parte de uma das principais escolas de formação do mundo hoje em dia. Trabalhou na comissão técnica de Vicente Del Bosque na preparação da seleção espanhola para a Copa das Confederações e Copa do Mundo que foram realizadas no Brasil.

Pouco tempo depois, aceitou talvez o seu maior desafio na carreira: assumir o modesto Chorrillo FC, do Panamá, e tentar ajudar a desenvolver o futebol daquele país que o principal esporte da população é o beisebol.

“Pelo que estou a notar, há muito trabalho para fazer. E mudar mentalidades é o mais difícil no futebol. Eles têm uma cultura muito enraizada na crença em que a Preparação Física é que está no centro do Rendimento do Futebol. Então, creio que têm muitos anos ainda para percorrer (evoluir e crescer) para se aproximarem ao nível do futebol que temos na Europa”, compara o profissional.

“Eu cheguei ao Panamá na altura que começavam a preparação do Torneio Pré-Mundial sub-20, que acabaram por conseguir classificação direta. Creio que são estes tipos de méritos que fazem com que a modalidade de futebol cresça no país, que as pessoas comecem a ir mais aos estádios, que se interessem mais pelo esporte e que assim, possa rivalizar com outros desportos que têm muito sucesso no Panamá. Mas, este país tem muitas dificuldades a nível social. A maior parte dos jogadores é dos bairros. São jogadores de futebol de rua, o que é bom porque são competitivos e técnicos, mas perdem em termos de regras e algum comportamento profissional de um atleta de futebol que a este nível já deveria ter. Depois, a nível tático, vejo que há muito trabalho para fazer com este tipo de jogadores, porque creio que não existe um trabalho de formação neste sentido”, avalia.

Para superar estas adversidades, Paulo Meneses aposta nos teus conhecimentos adquiridos na Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa, onde estudou José Mourinho, Carlos Queiroz, Jesualdo Ferreira (ex-Porto), Leonardo Jardim (Mônaco), entre outros. E para colocar suas ideias na prática, recorre à metodologia de treino da Periodização Tática.

“Neste momento, na Europa, há uma contradição muito grande em relação a todas as atividades que são realizadas fora do contexto do futebol. Ou seja, tudo o que não seja especifico dos esforços do jogo de futebol, parece que não tem assim tanta transferência para potenciar o rendimento dos nossos jogadores. Agora, temos é que saber onde estamos, que condições temos para realizar o que pretendemos, e ter a coisa mais importante no futebol (e na vida): poder de adaptação. E ter também uma segunda coisa fundamental: ser flexível”, completa.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, Paulo Meneses ainda conta como executa seus treinamentos e como vê as atividades utilizadas fora do campo, como musculação, sessões de treinamento funcional, yoga, massagem, entre outras. Confira:

Universidade do Futebol – Conte-nos um pouco sobre sua formação e trajetória profissional.

Paulo Meneses – Considero que a formação é continua e diária. Só consigo estar assim na vida (valores sociais e humanos)… e também no futebol (conhecimento, valores sociais e humanos), saber mais todos os dias, aprender algo novo, fazer algo extraordinário todos os dias. Por mim, pela minha equipe, pelos meus atletas.

Mas, em relação à sua pergunta, eu fui jogador federado durante 14 anos em Portugal, dos quais, nove atuei como atleta profissional desta modalidade. Fiz Licenciatura em Educação Física ainda quando era jogador. Posteriormente, deixei de jogar e fui estudar Ciências do Desporto – Treino Desportivo em Futebol na Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa. Esta universidade é onde estudou José Mourinho, Carlos Queiroz, Jesualdo Ferreira (ex-Porto), Leonardo Jardim (Mônaco), etc.

Depois, fui terminar esta Licenciatura em Madrid no INEF. Foi lá que conheci Javier Miñano, da seleção espanhola de futebol, como professor. Na ocasião, ele convidou-me para ficar na capital espanhola para colaborar com ele.

Neste período, realizei um estudo e análise de diferentes conteúdos de Planificação e Treino na etapa de preparação da Copa das Confederações 2013 e da Copa do Mundo de 2014 realizados no Brasil e que teve a participação da seleção espanhola. Fui treinador e atuei na organização do Campus Javier Miñano entre 2013 e 2014, e ajudei no apoio da docência das aulas de Futebol – Alto Rendimento, na Facultad de Ciencias de la Actividad Física y del Deporte de Madrid - INEF. Colaborei ainda com Antolín Gonzalo no Scouting da Seleção Espanhola de Futebol e na observação de adversários da fase pré-Mundial e durante a Copa, assim como a análise de jogadores espanhóis possíveis de serem convocados. Escrevi vários artigos sobre a Periodização Tática para a Revista AB Fútbol, da Espanha.

Também na Espanha, estive no Alcorcón por duas temporadas, com várias equipes e vários cargos no clube: nas equipes B, sub-18, sub-17, sub-15, como coordenador de metodologia de treino do clube, baseada na Periodização Táctica. Treinei também o Moratalaz ED, de Madrid, e fui responsável pelo treino das posições específicas (centrais, laterais, etc) e dos setores (defensivo, meio de campo, etc).

Antes, em Portugal, fui treinador de uma equipe sub-12 da Academia de Talentos do Sporting Club de Portugal, escola onde foram formados jogadores como Cristiano Ronaldo, Nani, etc. Trabalhei também como técnico e jogador da equipe de futebol da Faculdade de Motricidade Humana, além de atuar no Scouting do União de Leiria, que disputava a 1ª Divisão Portuguesa em 2011.

Há que ter em conta nas quatro componentes do rendimento no Futebol: Tática, Psicológica, Técnica e Física. E eu, acrescentaria mais algumas componentes porque considero muito importantes por terem um efeito (indireto) no rendimento do jogador, como, por exemplo, a parte social, a gestão de vestiário, etc, aponta


Universidade do Futebol – Nos últimos três anos, você viveu em Madrid, onde colaborou com Javier Miñano, preparador físico da seleção espanhola de futebol. Conte-nos como era feita a periodização dos treinamentos e como cada conceito era trabalhado com os jogadores.

Paulo Meneses – Consultei o Javier Miñano, mas ele me disse que este tema é de caráter confidencial e os únicos que estão autorizados a responder ou revelar estas informações são os integrantes do próprio corpo técnico da seleção espanhola.


Universidade do Futebol – E no Chorrillo FC? Como você realiza a periodização e o planejamento da sua equipe? Quais metas você estipula para os jogadores e como as cobra ao longo da temporada?

Paulo Meneses – Neste momento, o tema da planificação em Futebol de Alto Rendimento entendida na Europa funciona da seguinte forma: planifica-se microciclo a microciclo (semana a semana). Planifica-se um microciclo quando termina o jogo do fim de semana, segundo o adversário seguinte. A maioria dos treinadores planifica o dia seguinte, quando termina a avaliação do treino do próprio dia. Ou seja, acabo o treino hoje, reunião com os colaboradores, sacam-se conclusões da sessão de hoje (o que correu bem, o que correu menos bem, situação da equipe ou de algum jogador individualmente, etc) para depois se poder passar à planificação da sessão do dia seguinte. No que diz respeito à Periodização propriamente dita, há muitas equipes técnicas que seguem um pouco o microciclo padrão da Periodização Tática, na qual apresento no seguinte quadro:

Isto não quer dizer que eu siga ou que todas as equipes técnicas sigam este quadro rigorosamente porque há de ter em conta a realidade na qual estamos a trabalhar, para assim podermos ajustar-nos e adaptar-nos. Mas, de fato, este quadro ajuda-nos a seguir uma coerência de exercício para exercício, de dia para dia, dentro de uma lógica semanal e também em termos dos conteúdos diários selecionados.

Em relação à segunda parte da pergunta, em primeiro lugar eu acho que devemos ir ao encontro das metas e objetivos que o próprio jogador tem para a sua carreira, que tem para a temporada, e ir além da relação treinador – jogador, ou seja, eu defendo que se pode sair a ganhar (treinador e jogador) se houver por parte do treinador um conhecimento do jogador mais profundo (o nível social, por exemplo). Aqui está claro que temos que “entrar no mundo” do jogador para poder sacar um perfil psicológico de cada jogador e assim ter uma relação adequada e adaptada a cada tipo de personalidade e caráter, com o objetivo de poder sacar o máximo rendimento de cada um.

Numa entrevista, Iker Casillas referindo-se a Mourinho, dava o exemplo: “na primeira conversa que Mourinho tem contigo, em 15 minutos de conversa, 14 minutos são para te conhecer como pessoa, o teu caráter, a tua personalidade, etc.” Eu penso que, somente com a minha presença aqui já representa um estímulo extra para os jogadores porque todos têm a ambição e o sonho de poder jogar na Europa, ou têm a vontade de serem (melhor) preparados para jogar em ligas mais importantes (Colômbia, México, etc). No entanto, pensei que só a minha presença aqui não chega – para mim, havia (e há constantemente todos os dias) a necessidade de dar “corpo” e objetividade à mensagem “Europa”.

Então, tinha bem presente que o primeiro contato com o grupo era fundamental para criar impacto. Decidi que seria bom na primeira coversa incentivá-los, desafiá-los, entrar no seu “mundo social” e nas suas cabeças para despertá-los para as oportunidades que se podem abrir com a minha presença, porque eu tenho a opinião de que é muito importante um líder guiar o grupo para o caminho a seguir (através da Descoberta Guiada).

Vou contar um exemplo prático da primeira conversa que tive com o plantel do Chorrillo. Eu disse: “Eu vim para o Chorrillo para ganhar e para ajudar… ajudar o clube a crescer, a equipe a tornar-se mais profissional e cada um de vocês a crescer como futebolista e para ganhar a liga. Eu quero ser melhor treinador cada dia com vocês, quero evoluir constantemente, quero crescer como treinador trabalhando com vocês. Quero melhorar as estatísticas desta equipe e dos jogadores individualmente, e vocês vão-me ajudar nisso. Quero que vocês sejam os melhores da liga nas suas posições e que isso contribua para levar mais jogadores à seleção! Quantos jogadores estão aqui da seleção? Três Jogadores? É muito pouco, vamos elevar esse número para o dobro! E os que já foram à seleção e agora já não vão? Quatro Jogadores? Pois vamos trabalhar para que vocês possam ir de novo. Vocês querem jogar na Europa ou em ligas mais competitivas? Querem ganhar mais dinheiro e ajudar as vossas famílias a sair desta realidade? Querem ganhar dinheiro para comprar uma casa para a família? Pois já não basta serem jogadores profissionais, há a necessidade de tornarem-se em atletas profissionais, e foi para isso que eu vim. Eu vou tentar ajudar a fazer essa mudança, mas não vai ser fácil porque o caminho é muito longo e duro. Há que trabalhar muito e fazer muitos sacrifícios – dentro e fora do gramado. Eu vou ser muito exigente e muito chato com vocês. Mas ao final das contas, têm que ser vocês os primeiros a querer sair daqui e trabalhar duro para isso. Sei que vocês têm muita qualidade, mas isso não é suficiente para ganhar os jogos. Temos que demonstrá-la todos os dias nos treinos e em cada jogada, em cada exercício, disputar cada bola como se fosse a bola mais importante da nossa carreira… para podermos preparar-nos da melhor forma”.

Ou seja, o que vemos aqui no meu discurso, em minha opinião, é uma forma de “entrar nas suas cabeças”, ir ao encontro dos seus sentimentos, ambições (profissionais e sociais), entrar no “seu mundo” para poder mobilizá-los, para conseguir um autocompromisso da sua parte – no fundo é motivar, desafiar para que haja superação diária. Mourinho tem este discurso sobre o seu trabalho de motivação, na qual eu me identifico a 100%, e tento colocar em prática com os meus jogadores. Ele diz: “Eu acho que a melhor maneira de motivar – pelo menos a que eu encontro de uma forma mais consistente, que deixe menos dúvidas, de mais fácil entendimento e de uma maior durabilidade – é motivar os outros com as minhas próprias motivações. Acho que as minhas próprias motivações são o melhor motor das motivações dos outros que eu lidero. Ou seja, eu quero ganhar, eu quero vencer, eu quero ser o melhor, eu quero ganhar os prêmios coletivos, mas também individuais, eu quero somar títulos atrás de títulos, eu quero conseguir o melhor contrato, eu quero ganhar mais dinheiro, eu quero preparar melhor o futuro da minha família, eu quero ser historicamente reconhecido como o melhor ou um dos melhores, eu quero deixar uma marca por onde passo, eu quero que os adeptos dos clubes por onde passei se recordem de mim como alguém importante; estas são umas das minhas – muitas – motivações, e que, de uma forma natural, eu passo, cada dia e cada hora, na maneira como falo, como ajo, como me comporto, como gesticulo, até na maneira como pressiono todos aqueles que comigo trabalham. Portanto, a minha motivação é aquilo que eu considerar ser o motor da motivação dos outros, até porque a minha motivação tem diretamente a ver com os outros e com as suas motivações. Por exemplo, quero que o departamento médico tenha também a ambição de ser melhor todos os dias, de bater recordes nas recuperações dos atletas. Eu acho que, no fundo, a motivação do líder é aquilo que perdura. No meu caso pessoal, esta motivação intrínseca é como respirar. Faz parte de nós, e no dia em que eu deixe de respirar é porque morri. Ora, na minha profissão é isso que me acontecerá. No dia em que não tiver motivação é porque estou morto profissionalmente. Por outras palavras, no dia em que me faltar a motivação é hora de acabar e de deixar o futebol”.

Ou seja, o que se nota neste discurso de Mourinho não é mais que uma atitude constante, diária um pouco baseada na Inteligência Emocional – que é um dos temas que eu gostaria de desenvolver numa outra oportunidade. Para mim, não passa tanto por “cobrar”, num primeiro momento, mas sim convencer os jogadores a se comprometerem com um objetivo coletivo e individual (ou com um objetivo individual que depois aporta algo positivo para o coletivo). Vou além: eu considero (e tento colocar em prática), que motivando os atletas a comprometerem-se e a exigirem-se diariamente com os objetivos e com as metas, penso que é muito mais proveitoso e mais eficaz para o atleta.

Também é importante termos o conhecimento que devemos colocar desafios constantes de superação ao longo da temporada para que eles sigam focados nos objetivos individual e coletivo. A palavra “cobrar” é bem empregue para algum jogador que não tenha a intenção ou a vontade suficiente para ser profissional diariamente, que lhe custe comprometer-se, que não trabalhe duro ou que não se cuide fora do gramado. No entanto, e como se pode analisar, eu gosto mais de convencer, motivar, desafiar os atletas constantemente.

Para isso, é necessário haver uma “Planificação de estímulos psicológicos”. Ou seja, tenho uma tabela onde aponto as conversas (ou outro tipo de estímulo) que tenho temporariamente com cada jogador. Assim, consigo levar uma “planificação” organizada para dar os estímulos em tempos concretos e na altura certa, segundo o que vou sentindo e analisando da relação que tenho com os jogadores. Depois, tenho um “diário” no qual aponto os conteúdos de cada estímulo, aqui já entramos numa área do tipo de estímulo / qualidade do estímulo que vou dando ao jogador.

Para isso, é necessário conhecer o jogador como pessoa (caráter e personalidade) para saber se nesse momento “y”, para esse jogador “x”, tenho que seguir motivando e convencendo ou se tenho que cobrar. Então, segundo o que eu apresento aqui relacionado com os estímulos psicológicos, leva-nos a pensar que o treino mental (visualização mental) está muito presente no meu trabalho. Este tema, tal como muitos outros, gostaria de podê-los desenvolver numa outra oportunidade, porque penso que são fundamentais. Claro, que tudo isto, juntando a todo o trabalho que dá a metodologia de treino descrita nesta entrevista, dá muito trabalho, mas se assim não for não conseguimos fazer a diferença em relação aos outros treinadores e equipes.

Penso que todo este processo de treino através desta metodologia de treino, acaba por ser uma mais valia para o jogador poder desenvolver as suas competências e habilidades (em termos táticos, técnicos, Físicos e psicológicos, tomada de decisão). Podemos chegar à conclusão, pela experiência que tenho e pelos feedbacks dos jogadores, esta metodologia é uma motivação extra para o jogador que o leva a desafiar-se a si mesmo continuamente, autopropondo metas e objetivos todos os dias, em todos os exercícios. Deixo aqui um exemplo de alguns itens de metas / objetivos a conseguir (propostos por mim, ou autopropostos pelos atletas), metas de superação diariamente, rendimento diário nos treinos e/ou jogos:

Zagueiros: 
Ofensivo: Quantos passes filtrados com sucesso vou fazer para os volantes? Defensivo: Quantos duelos aéreos vou ganhar?

Volantes: 
Ofensivo: Quantos passes certos vou realizar? 
Defensivo: Quantos roubos de bola vou fazer?

Pontas: 
Ofensivo: Quantos dribles executo com sucesso? 
Defensivo: Quantas vezes ajudo o meu lateral num exercício / jogo?

Laterais: 
Ofensivo: Quantas vezes ajudo no ataque, incorporando-me no processo ofensivo? 
Defensivo: quantas vezes evito cruzamentos ou evito que me driblem?

Atacantes: 
Ofensivo: Quantos gols marco por treino / quantas jogadas dou seguimento (jogo de equipe)? 
Defensivo: Quantas bolas roubo no campo do adversário?

Isto são alguns exemplos do que se pode fazer diariamente em cada exercício ou em curto prazo, estipulando metas / objetivos para os atletas. Assim conseguimos que eles se comprometam com a equipe, comentando, falando em que querem ajudar segundo as suas posições / funções individuais e coletivas dentro da equipe. No âmbito do treino, claro que cada exercício tem um objetivo tático coletivo claro para conseguir, e segundo esse objetivo coletivo, podemos focar alguns objetivos individuais para aumentar e melhorar o resultado individual, setorial, grupal; o crescimento do atleta (em termos qualitativos - o mais importante) e quiçá quantitativos; além da produtividade dia a dia. Cada exercício de treino, cada segundo do treino para aproveitar para melhorar e crescer como atleta.

Notamos que em termos de conteúdo das perguntas / sugestões, há algo de treino mental através da visualização. Porque entendo que é muito importante o atleta saber utilizar isso como treino / ação prévia ao que vai se passar no treino ou no jogo (ou ao que quer que se passe na realidade quando esteja em ação). Então, o treino mental também é um dos temas que poderíamos abordar futuramente, numa outra altura.

Há também o controle do peso. Rigor máximo para o controle semanal do peso de cada atleta. Além disso, realizei um documento com uma dieta de atleta profissional, no qual está especificada uma variedade do que devem comer e beber em cada dia da semana. Há também as metas físicas, que é passar de ser jogador profissional para passar a ser atleta profissional. Ou seja, temos um plantel com jogadores que são muito parecidos aos jogadores do Barcelona em alguns aspectos. Muito bons tecnicamente, rápidos, não muito fortes. Então, um dos objetivos que a direção do clube colocou foi um trabalho específico para desenvolver a parte superior do corpo (tronco, braços, abdominais, etc) com o objetivo de melhorar o seu rendimento e assim estarem preparados para poderem competir em ligas mais competitivas.

O Panamá tem muitas dificuldades a nível social. A maior parte dos jogadores é dos bairros. São jogadores de futebol de rua, o que é bom porque são competitivos e técnicos, mas perdem em termos de regras e algum comportamento profissional de um atleta de futebol que a este nível já deveria ter. Depois, a nível tático, vejo que há muito trabalho para fazer com este tipo de jogadores, porque creio que não existe um trabalho de formação neste sentido, afirma


Universidade do Futebol – Muitos preparadores físicos se utilizam de atividades para além do campo, como musculação, sessões de treinamento funcional, yoga, massagem, etc. Qual sua opinião sobre estes trabalhos? Quais você realiza?

Paulo Meneses – Neste momento, na Europa, há uma contradição muito grande em relação a todas as atividades que são realizadas fora do contexto do futebol. Ou seja, tudo o que não seja especifico dos esforços do jogo de futebol, parece que não tem assim tanta transferência para potenciar o rendimento dos nossos jogadores. Agora, temos é que saber onde estamos, que condições temos para realizar o que pretendemos, e ter a coisa mais importante no futebol (e na vida): poder de adaptação, e ter também uma segunda coisa fundamental: ser flexível. Vou-lhe dar dois exemplos distintos no que toca à musculação.

Primeiro, Mourinho não realiza atividades na academia com as suas equipes, realiza sim um trabalho baseado na Periodização Tática no campo, exercícios direcionados fundamentalmente para a organização tática da equipe – exercícios sempre com intensidade máxima – para que também atinjam os níveis físicos pretendidos.

Em segundo, por outro lado, outros treinadores, também reconhecidos pelo seu trabalho e com méritos por ganharem troféus com as suas equipes, são o oposto: utilizam a academia (porque eles acreditam nisso e passam esse mesmo sentimento para os seus jogadores).

Há um aspecto muito importante que também há de ter em conta. Se o jogador está habituado a realizar a musculação e gosta disso, vai te pedir para ir lá malhar, e tu aceitas adaptando-te ao contexto e à “cultura” dele. No entanto, se possível, deixaria em aberto para que o jogador decida se quer ou não quer.

Então, eu vejo isso mais como uma ferramenta (para quem acredita na academia), como uma crença, como um efeito placebo e não tanto como uma causa – efeito prático com melhoras diretas no rendimento, no qual entenda-se como um termo que engloba muitas variáveis – e não este aspecto como muitos leitores possam pensar: que o atleta que realiza musculação, vai estar mais forte e logo o seu rendimento vai estar melhor.

Pois há que ter em conta nas quatro componentes do rendimento no Futebol: Tática, Psicológica, Técnica e Física. E eu, acrescentaria mais algumas componentes porque considero muito importantes por terem um efeito (indireto) no rendimento do jogador, como, por exemplo, a parte social, a gestão de vestiário, etc…

Aqui no Chorrillo FC, alguns jogadores já me perguntaram se poderiam fazer musculação e me demonstraram que gostavam e queriam fazer academia. Para esses jogadores, preparei-lhes um plano para esse efeito. Como tinha referido, é muito importante ir ao encontro do bem-estar dos jogadores e ao que eles gostam de fazer e, sobretudo no que acreditam realmente que lhes pode servir e que os faz sentir bem para melhorar o seu rendimento.

No que diz respeito ao treino funcional, vejo-o mais adequado à tipologia de esforços que o futebol requer. Porque, pode-se tentar reproduzir os movimentos reais que o futebol tem na sua prática no que diz respeito às velocidades em que se realizam, vencendo uma força externa.

Aqui no Chorrillo FC, montei uma academia funcional numa sala ao lado do vestiário no qual temos as nossas sessões de ginásio funcional.

A Yoga, como eu considero que é um trabalho da mente, espiritual, então, talvez seja uma componente da parte da psicologia. Conhecendo as suas aplicações na NBA por parte do treinador Phil Jackson, me parecem interessantes e importantes, sempre quando bem aplicadas e, sobretudo, quando o grupo de jogadores que temos, acreditam nesse tipo de trabalho. Mas, eu prefiro fazer o treino mental com os jogadores.

A massagem é muito importante como uma técnica de recuperação / ativação, mas também considero que tem efeitos mentais positivos, podendo se realizar antes ou depois do treino / jogo. Quer seja, para ativar o jogador antes de um treino, ou para relaxar depois de um treino. Não somente o efeito que tem a nível físico, mas também a sensação mental que o jogador tem depois da massagem.

Também existe a massagem para fins como recuperar alguma lesão ou evitar uma lesão (contraturas musculares, por exemplo). Aqui no Chorrillo FC temos várias formas de realizar as massagens. A equipe médica que tem o fisioterapeuta / massagista que se ocupa do âmbito da recuperação de lesões; a outra é quando se necessita uma ativação antes e relaxação depois dos treinos / jogos dos jogadores. Temos banhos com água quente para pernas dois dias antes dos jogos e logo seguido de massagem; e depois existe uma outra (extra). Quando há algum jogador que está muito fatigado (carregado muscularmente), eu me disponho a dar-lhe uma massagem fora das horas de treino para poder relaxar e recuperar melhor e mais rápido para a sessão seguinte ou para o jogo.

As sessões estão planificadas para durarem 90 minutos. Treinar durante 90 minutos, tem uma razão lógica: se no futebol tem que se trabalhar fundamentalmente a concentração, então, há a necessidade de adaptar o organismo a estar concentrado durante os 90 minutos, com as 4 componentes do rendimento sempre presentes em todos os exercícios: tática, psicologia, técnica e física, explica


Universidade do Futebol – Como está desenvolvido o futebol panamenho? Quais as possibilidades de desenvolvimento do país na modalidade?

Paulo Meneses – Eu cheguei aqui há pouco tempo, no dia 7 de dezembro de 2014. Mas pelo que estou a notar, há muito trabalho para fazer. E mudar mentalidades, é o mais difícil no futebol. Eles têm uma cultura muito enraizada na crença em que a Preparação Física é que está no centro do Rendimento do Futebol.

Então, creio que têm muitos anos ainda para percorrer (evoluir e crescer) para se aproximarem ao nível do futebol que temos na Europa, porque em minha opinião, e tal como afirmei quando falei no método de trabalho de treinadores como Mourinho, a componente física é importante, mas não é a mais importante. Quiçá, se quiséssemos atribuir uma importância às quatro componentes do rendimento, Mourinho defende que a parte física é a menos importante. Agora, claro, é necessário que se domine e trabalhe (também) muito bem as outras três componentes dentro de um Modelo de Jogo, claro e adaptado à realidade da equipe.

Eu cheguei ao Panamá na altura que começavam a preparação do Torneio Pré-Mundial sub-20, que acabaram por conseguir classificação direta. Creio que são estes tipos de méritos que fazem com que a modalidade de futebol cresça no país, que as pessoas comecem a ir mais aos estádios, que se interessem mais pelo esporte e que assim, possa rivalizar com outros desportos que têm muito sucesso no Panamá.

O Panamá tem muitas dificuldades a nível social. A maior parte dos jogadores é dos bairros. São jogadores de futebol de rua, o que é bom porque são competitivos e técnicos, mas perdem em termos de regras e algum comportamento profissional de um atleta de futebol que a este nível já deveria ter. Depois, a nível tático, vejo que há muito trabalho para fazer com este tipo de jogadores, porque creio que não existe um trabalho de formação neste sentido.

E acrescentando a tudo isso, penso também ser importante existir uma intervenção no lado social como, por exemplo, a criação de centros de estudo ou recreação onde os jovens possam ir pelas tardes depois dos treinos para estudar, para praticar outros esportes, etc. Ou seja, tentar ocupar os jovens tirando-os das ruas e por consequência dos maus vícios. Penso que desta forma, será o melhor caminho para que haja um desenvolvimento no futebol para os países com este tipo de problemas. Só assim, se pode crescer e dar passos mais largos para haver uma aproximação do nível que apresentam agora mesmo outros países, considerados superpotências, da Concacaf.

Os conteúdos dos exercícios têm a ver com a especificidade do Modelo de Jogo da equipe. Ou seja, trabalhamos exercícios específicos que estão de acordo com o nosso Modelo de Jogo. O princípio da especificidade está muito bem apresentado na metodologia de treino da Periodização Tática, aponta o preparador físico do Chorrillo FC
 


Universidade do Futebol – Há alguma regulamentação no Panamá para se trabalhar como técnico de futebol? Como funciona esta questão no país?

Paulo Meneses – Sei que há cursos de treinador que estão distribuídos por três níveis. Sei que os técnicos têm de ter esses cursos para poderem estar sentados nos bancos de suplentes. 
No meu caso, como sou estrangeiro, colocaram-me muitos problemas para poder estar sentado no banco de suplentes. Numa primeira tentativa, não aceitaram o diploma da universidade como um documento válido de Técnico Desportivo Licenciado em Ciências do Desporto – Específico em Treino Desportivo de Futebol.

Agora, com os níveis de treinador Nível Uefa A e B que tenho, já foi possível a inscrição na Federação Panamenha de Futebol, porque esses cursos são reconhecidos em âmbito internacional.

É necessário conhecer o jogador como pessoa (caráter e personalidade) para saber se nesse momento “y”, para esse jogador “x”, tenho que seguir motivando e convencendo ou se tenho que cobrar. Então, segundo o que eu apresento aqui relacionado com os estímulos psicológicos, leva-nos a pensar que o treino mental (visualização mental) está muito presente no meu trabalho, revela


Universidade do Futebol – Como se desenvolvem seus treinos? Quanto tempo duram as atividades? Qual metodologia você utiliza para desenvolver seu modelo de jogo?

Paulo Meneses – Os treinos têm a bola sempre presente em todos os exercícios (desde o aquecimento até ao ultimo exercício do treino). E isto é uma prática que levo desde o primeiro treino da pré-temporada , tudo realizado com bola.

São treinos com muita dinâmica, sem tempos gastos desnecessariamente, com muita intensidade durante os exercícios. Para isso, há um grande trabalho prévio de planificação e posterior preparação.

Os espaços de todos os exercícios do treino estão todos montados 20 minutos antes do treino começar. Assim existe uma boa dinâmica de treino entre os exercícios, porque estes já estão todos montados antes do treino começar.

Existe também um minuto para beber água, explicação do exercício seguinte e, somente depois, a ação. Todos os exercícios têm uma componente tática da organização de jogo da equipe, desenvolvimento do Modelo de Jogo. Então, os exercícios são praticamente todos específicos do nosso Modelo de Jogo com uma intensidade altíssima, recreando um pouco tudo o que queremos que se passe no jogo, ou prevenindo o que possa vir a passar no jogo.

Tal como Mourinho afirma, o treino de futebol é, fundamentalmente, a organização de jogo que queremos que a nossa equipe jogue. E para isso é necessário que o jogador (a equipe) treine no limite das suas capacidades, sempre. Capacidades de concentração para as tomadas de decisão acertadas face aos “problemas” que lhes coloco no exercício.

Planifico todos os exercícios com bola, desde o aquecimento, até as corridas para recuperar, etc. Porque tenho a opinião que o futebol se joga com bola, e principalmente, porque o jogador gosta do trabalho onde a bola esteja sempre presente, sente-se muito mais motivado e está sempre muito mais concentrado.

O tempo das atividades, depende do dia do microciclo, e assim também depende do objetivo que se pretende obter. Mas, geralmente, são exercícios de curta duração – por serem exercícios de intensidades altas.

De uma forma muito geral, poderei afirmar que, observando o microciclo semanal, e imaginando que jogamos de domingo a domingo, digamos que somente às quintas-feiras têm exercícios mais longos em termos de tempo de execução. Todos os outros dias são orientados para tempos mais curtos (espaços mais reduzidos, menos jogadores, etc), tal como demonstra o quadro da Periodização Tática, que apresento na questão número 3.

As sessões estão planificadas para durarem 90 minutos. Treinar durante 90 minutos, tem uma razão lógica: se no futebol tem que se trabalhar fundamentalmente a concentração, então, há a necessidade de adaptar o organismo a estar concentrado durante os 90 minutos, com as 4 componentes do rendimento sempre presentes em todos os exercícios: tática, psicologia, técnica e física.

Desta forma, e como já mencionei (exercícios onde a concentração mental é fundamental), consigo que os jogadores estejam concentrados durante 90 minutos de treino, com tomadas de decisão constantes, para solucionar os “problemas” que lhes coloco em cada exercício através da descoberta guiada. Ou seja, há uma preocupação de trabalhar a concentração para que depois seja mais fácil ao jogador adaptar-se aos 90 minutos de concentração que um jogo de futebol exige.

Os conteúdos dos exercícios têm a ver com a especificidade do Modelo de Jogo da equipe. Ou seja, trabalhamos exercícios específicos que estão de acordo com o nosso Modelo de Jogo. Podemos dizer que assim, damos aos jogadores estímulos “reais” do que queremos realmente que a nossa equipe jogue contra o adversário “X”, porque acreditamos que vai acontecer certas e determinadas ações táticas e/ou acontecimentos no jogo de acordo com o que estamos a trabalhar.

O princípio da especificidade está muito bem apresentado na metodologia de treino da Periodização Tática.

Planifico todos os exercícios com bola, desde o aquecimento, até as corridas para recuperar, etc. Porque tenho a opinião que o futebol se joga com bola, e principalmente, porque o jogador gosta do trabalho onde a bola esteja sempre presente, sente-se muito mais motivado e está sempre muito mais concentrado, afirma Paulo Meneses, do Chorrilo FC


Universidade do Futebol – O que é o modelo de jogo em sua visão? E qual seria o atual, na equipe principal do Chorrillo FC?

Paulo Meneses – Para mim, o Modelo de Jogo (MJ) baseia-se na concepção de jogo do treinador, ao qual se refere a um conjunto de fatores essenciais para a organização da equipe dentro de campo. Refere-se aos processos ofensivos e aos processos defensivos, assim como também aos Princípios de Jogo, aos métodos de jogo Ofensivos e Defensivos, aos Sistemas de Jogo e um conjunto de comportamentos que caracterizam a organização da equipe nos Processos Ofensivos, Defensivos em termos individuais, grupais, setoriais, intersetoriais, intrasetoriais e coletivos.

Dentro do MJ trabalham-se os Princípios de Jogo Específicos (referências orientadoras da ação), através da repetição sistemática, pois existe a necessidade de repetir para assimilar, criar o hábito – e os hábitos são adquiridos na ação. Então, pode-se entender que se apura um mecanismo não mecânico, pois existe uma regularidade que permite a emergência (aparecimento) da criatividade do jogador dentro de uma “ordem natural”.

Ou seja, tenho a opinião de que o Modelo de Jogo é o DNA de cada equipe. É algo que é intrínseco a cada membro da equipe, algo que faz parte de cada um e que cada um faz parte do MJ. Ou seja, toda a gente deve ter bem claro o modelo da equipe, e saber quais as suas funções nesse cenário.

Os modelos táticos e técnicos devem antecipar o sistema de relações que se estabelecem entre os diversos elementos que envolvem uma determinada situação de jogo, definindo de uma forma concreta as funções bem como os comportamentos táticos – técnicos que se exigem aos jogadores.

Mas como resumo do Modelo de Jogo do Chorrillo FC, falo que, como o objetivo é ficar nos primeiros quatro lugares da tabela de classificação, e como os jogadores do Chorrillo FC são dos mais talentosos e dos mais técnicos da Liga, embora muito jovens, são jogadores que já têm alguma experiência. Então, pensei que o Modelo de Jogo poderia basear-se muito no estilo Tiki Taka do Barcelona e da seleção espanhola com alguns ajustes e adaptações à nossa realidade.

Pretendo que a equipe seja dominante com posse de bola, e uma equipe dirigida para o ataque, sempre procurando o gol e, ao mesmo tempo, segura na defesa. O Modelo de Jogo da equipe procura sempre que haja um equilíbrio permanente entre a defesa e o ataque.

No momento ofensivo, a posse de bola e a circulação de bola inteligente com a participação de todos os jogadores é um objetivo sempre muito presente. Já no momento defensivo, a criação e definição de uma Zona Pressionante, como método para condicionar o comportamento Ofensivo do adversário. Com isto, pretende-se recuperar a bola o mais rápido possível, da forma mais favorável possível, sempre tendo em conta a forma de atacar que mais interessa ao nosso Modelo de Jogo.

Por fim, as transições devem ser transições intensas, rápidas. Tanto a nível da Transição Defesa – Ataque – aproveitando a desorganização do adversário para colocar em prática “o nosso Jogo”, mas também a nível da Transição Ataque – Defesa – condicionar, e/o evitar que o adversário entre em Organização Ofensiva de uma forma cômoda, por exemplo: evitar que o adversário arme algum contra-ataque sem que a nossa equipe esteja organizada no Processo Defensivo.

O Modelo de Jogo é o DNA de cada equipe. É algo que é intrínseco a cada membro da equipe, algo que faz parte de cada um e que cada um faz parte do Modelo de Jogo. Ou seja, toda a gente deve ter bem claro o modelo da equipe, e saber quais as suas funções nesse cenário, analisa o preparador físico


Universidade do Futebol – Como você enxerga o período conhecido como "pré-temporada", que seriam os dias iniciais da temporada, entre 15 e 30 dias dependendo do clube? Quais as preocupações com esse período de tempo na sua visão metodológica?

Paulo Meneses – Primeiro de tudo, o tempo de pré-temporada depende de vários fatores, e creio que alguns deles são se a equipe técnica conhece o plantel e o plantel não sofre muitas alterações, se é uma equipe técnica que chega de novo para começar um projeto, ou pode também dar-se o caso de ser a mesma equipe técnica da temporada anterior, mas que há incorporação de vários jogadores no plantel.

Ou seja, se o grupo de trabalho já está identificado com o Modelo de Jogo e o método de trabalho da equipe técnica e o que o treinador pretende de cada um, é mais fácil começar a trabalhar – logo não necessita de tanto tempo para a preparação da equipe, porque neste caso também a equipe técnica já conhece os jogadores do plantel. É como um seguimento (“repetir” ) muitos dos fundamentos da temporada passada, o processo de preparação é mais rápido e mais fácil, pelo menos na minha opinião.

Por outro lado, creio que pode dar mais trabalho, o processo pode ser mais lento para assimilação das ideias, método de trabalho e fundamentos táticos do treinador, no caso de não haver conhecimento prévio de uma das partes (dos jogadores e/ou da equipe técnica).

Aqui no Chorrillo FC fizemos seis semanas e meia de pré-temporada. No nosso caso, como era a primeira vez que eu estava aqui, e como havia alguns jogadores novos no clube, os primeiros dias, serviram para tomar contato com os jogadores e com os restantes membros da equipa técnica, e pela parte deles (jogadores, médicos, fisioterapeutas, roupeiros e técnicos) conhecerem toda a dinâmica da metodologia de trabalho.

Ao mesmo tempo, nos primeiros dias, falando de termos de Planificação, serviu para uma adaptação (mental e física) à dinâmica desta Metodologia de Treino: Espaços reduzidos, poucos jogadores, tudo jogado, altas intensidades, tempo reduzido de cada exercício, e com poucos tempos de descanso entre cada um deles.

Depois desse período de adaptação, continuamos com uma dinâmica idêntica, mas com algumas alterações – mais tempo de cada exercício, por exemplo, espaços maiores (no dia que trabalha os espaços maiores), mais repetições em algum exercício que seja mais exigente, enfim.

Então, como vemos, em termos gerais, podemos afirmar que a pré-temporada serve para preparar a organização da equipe segundo o Modelo de Jogo adotado que vai servir para toda a temporada, desenvolvendo esse modelo passo a passo desde o 1º dia, para assim se preparar para o 1º jogo da temporada, e depois planifica-se semana a semana segundo o próximo adversário.

Podemos chegar à conclusão, pela experiência que tenho e pelos feedbacks dos jogadores, que a Periodização Tática é uma motivação extra para o jogador que o leva a desafiar-se a si mesmo continuamente, autopropondo metas e objetivos todos os dias, em todos os exercícios, afirma Paulo Meneses


Universidade do Futebol – Qual a sua opinião sobre o futebol que se pratica no Brasil? Quais as principais diferenças em relação ao jogo que ocorre na Europa?

Paulo Meneses – Sinceramente, não tenho acompanhado muito o futebol brasileiro porque todo o trabalho de planificação e avaliação do treino e todo o processo inerente à equipe do Chorrillo aqui apresentado me consome todo o tempo para poder acompanhar outras equipes ou outros campeonatos.

Mas pelo que tenho conhecimento, os jogadores que continuam a “sair” do Campeonato Brasileiro têm muita qualidade a nível técnico, muito talento, são jogadores com muita habilidade e criatividade que enriquecem os campeonatos da Europa. Em minha opinião, acho que existem jogadores do Brasil que têm dificuldades em adaptar-se à intensidade de jogo, que é mais rápido e mais organizado taticamente na Europa.

Com isso, poderá estar o futebol brasileiro necessitando passar por uma fase de reestruturação organizativa dos clubes para poderem ter uma base sólida e forte de apoio e organização do futebol de formação, com investimentos e incentivos ao jovem, e depois partir para uma reestruturação do futebol profissional.

Porém, eu precisaria estar mais dentro do processo aí no Brasil para poder ter uma opinião mais bem fundamentada e assim procurar os argumentos corretos para poder defender a minha opinião.

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IDEIAS: Bebida alcoólica nos estádios

CONFRONTO  DAS IDEIAS

JORNAL O POVO

O Povo - bebidas

SIM - Parece razoável supor ser prazeroso apreciar show acústico ou espetáculo musical, consumindo bebida alcoólica, com natural moderação, logicamente. Até ai não se verifica nada de errado. Pelo contrário: nos momentos de ócio o ser humano é até merecedor dessa combinação. Penso que a proibição de bebidas alcoólicas em eventos esportivos, além de ir de encontro à prática dos grandes eventos internacionais, não se sustenta do ponto de vista prático e jurídico. Não há dado que vincule a prática de vandalismo em estádio ao consumo de álcool. Ao contrário, maior parte desses episódios costuma ocorrer fora da arena esportiva. Diante da ineficiência do poder público em encontrar métodos para combater a violência que orbita os estádios, acaba-se por se buscar apontar ao álcool como pára-raio neste cenário, penalizando o cidadão de bem que fica privado de sua inofensiva cervejinha para assistir ao seu time de coração. Inúmeros estudos revelam um atlântico distanciamento entre a violência nos estádios e o consumo de álcool. Ao revés, grande parte dos torcedores, temerosos em ir ao estádio, preferem se reunir em bares e restaurantes, onde a venda de bebidas ocorre sem qualquer controle, sem que desencadeie episódios violentos. Pelo mesmo raciocínio, dever-se-ia proibir o consumo em casas de espetáculos. Fato é que o vandalismo nos coliseus esportivos opera independente da venda de bebidas. Uma mera resolução da CBF, sem força de lei, é que veda, no Brasil, a venda de insumos alcoólicos, pois o Estatuto do Torcedor não proíbe tal prática. Tal resolução é flagrantemente inconstitucional, por violar a livre iniciativa e autonomia individual. Veja-se que, durante a Copa de 2014, a venda de bebidas foi liberada, sem registro de episódios de violência ou vandalismo relevantes, a demonstrar que uma coisa não tem ligação com a outra.

"Penalizando o cidadão de bem que fica privado de sua inofensiva cervejinha para assistir ao seu time"

Leandro Vasques - Advogado e diretor jurídico da Federação Cearense de Futebol (FCF)

NÃO - A proibição da venda e consumo de bebidas alcoólicas começou a vigorar em 2008 através de protocolo de intenções firmado entre o Conselho Nacional de Procuradores-Gerais do Ministério Público (CNPG) e a CBF. Posteriormente, o Congresso Nacional restringiu o consumo no interior dos estádios, através da lei 12.299/2010, que alterou o art. 13 do Estatuto do Torcedor (lei nº 10.671/2003). Em que pese entendimentos contrários, nos perfilhamos à corrente que defende que a intenção do legislador no art. 13-A, inciso II, da lei 10.671/2003 foi a de minimizar a possibilidade de conflitos, vez que é inconteste que o comércio de bebida alcoólica nos estádios potencializa o desrespeito ao direito de segurança do torcedor. A bebida alcoólica não deve ser admitida sob hipótese alguma nos estádios, notadamente por ser questão de prevalência do interesse público sobre o princípio da liberdade econômica. Atualmente, recrudesce movimento para a liberação da bebida nos estádios, ao tempo em que se aguarda a manifestação do STF na Adin nº 5112 interposta pela PGR em desfavor do estado da Bahia questionando a venda de bebidas nos eventos desportivos daquele Estado. A matéria está sob relatoria do ministro Ricardo Lewandowski. Após julgamento, será aberto precedente jurisprudencial, o qual servirá como paradigma para ações que serão adotadas pelos MPs dos Estados que criaram legislação própria permitindo o comércio de bebidas dentro das arenas, casos do Rio Grande do Norte e Goiás. A experiência mostra e as estatísticas corroboram que a proibição provocou visível redução de conflitos. O veto, portanto, deve ser mantido. Não há motivo para que o Estatuto do Torcedor seja revogado por legislações que se distanciam do compromisso que o poder público tem em garantir a segurança não só do torcedor, mas, sobretudo do cidadão.

"A experiência mostra e as estatísticas corroboram que a proibição provocou visível redução de conflitos"

Francisco Barbosa - Promotor de Justiça (MP-CE) e coordenador do Núcleo do Desporto e Defesa do Torcedor

Sociedade] Temor e impunidade

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Foto: Nodge Nogueira

 

A expectativa por mais um Fortaleza x Ceará faz ressurgir a expectativa pelo duelo e o medo por novos atos de violência

À véspera de Ceará e Fortaleza voltarem a duelar na temporada, dessa vez pelo Campeonato Cearense, a Capital começa a respirar ares de Clássico-Rei. Momento máximo da rivalidade entre os clubes, o embate motiva o torcedor a exalar paixão e amor ao clube, mas também revela faces de uma sociedade violenta e que ignora o espírito da esportividade. A cidade volta a pulsar, sim, ainda há gana para motivar tricolores e alvinegros, mas a razão de tamanha comoção não é mais o futebol e sim, o temor pela violência, que permeia o encontro dos arquirrivais.

No domingo, as manchetes voltarão a se repetir. Juntamente com o placar da partida, estará estampado também o resultado do quebra-quebra promovido por toda Capital. Para o doutor em sociologia e pesquisador do Laboratório e Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luís Fábio Paiva, a obviedade do que deve ocorrer se deve alguns fatores, principalmente a impunidade, mas lembra que o futebol não é causa de nada.

"O que acontece em dia de jogo é um reflexo da sociedade, pouco tem a ver com o futebol. Falando de grupos organizados que em muitos casos recebem integrantes de gangues e que não têm nenhuma motivação futebolística para promover a violência. Em um confronto, há rivalidades de todos os tipos e o futebol é a menor delas", disse Paiva.

Poder público

Uma vez sendo uma questão social, as atenções se voltam para o poder público e é justamente esse ponto que desagrada "gregos e troianos". As partes envolvidas responsabilizam as esferas de poder pela falha ao combate da violência, principalmente quando se trata da impunidade, como Jey, presidente da Cearamor.

"A violência no futebol é horrível; não era para acontecer. Achamos que o combate também depende muito do poder público. É preciso ter mais punição e rigor com rigor os vândalos. A instituição não pode ser prejudicada por causa de um pequeno grupo", salientou Jey.

O sociólogo Luís Fábio Paiva, por sua vez, concorda que há deficiência na punição, mas não isenta as torcidas organizadas de responsabilidade.

"As organizadas são coniventes com os atos ilícitos promovidos por seus integrantes e devem responder por isso. Essa conivência existe quando se tem uma Justiça que para ser ruim tem que melhorar muito. O judiciário presta o pior serviço para a população, e muitas vezes a culpa pela deficiência recai sobre a polícia. Este poder é o culpado por toda a impunidade existente e, assim, um incentivador da violência", completa o doutor em sociologia da UFC.

Tolerância zero para os maus torcedores

Praticamente todos os envolvidos no evento, que envolve os dois maiores time de futebol do Estado, concordam em dizer que o problema da violência em dia de jogos se dá pela infiltração dos vândalos dentro dos grandes grupos de torcida.

O Tenente-Coronel Aginaldo, do Batalhão de Policiamento de Eventos da Polícia Militar, afirma que essas pessoas usam do anonimato para praticar os atos de vandalismo, forçando a Polícia a agir. "O grande problema são os maus torcedores que se infiltram nas torcidas organizadas. Eles são um grupo pequeno, mas que fazem estragos. Temos que ter tolerância zero com esses indivíduos", acrescenta.

O Tenente-Coronel considera importante a iniciativa que parte dos próprios torcedores, na tentativa de minimizar os efeitos da violência. Porém, ele afirma que a educação é a maior arma para reduzir esse quadro negativo que sempre vem à tona quando Ceará e Fortaleza se enfrentam.image (1)

"Acredito que tudo passa pela educação. Os torcedores precisam se comportar dentro dos estádios. Esse sim é um ponto fundamental. O estatuto do torcedor também é importante, pois possui medidas que restringe os responsáveis pelos atos desordeiros e violentos", finaliza.

Efetivo policial

Para fazer a segurança no segundo Clássico-Rei, que ocorre amanhã, na Arena Castelão, pelo Campeonato Cearense, a Polícia Militar terá o efetivo de 400 policiais. Os PMs estarão distribuídos entre os grupos do BP Raio, Batalhão de Choque, Cavalaria e Batalhão de Eventos.

Força e ação das organizadas

Quando Ceará e Fortaleza medem forças, as atenções não se limitam só ao futebol. Existe sempre um certo anseio na cidade, e sempre motivado pela violência e briga entre torcidas.

Nos próximos 20 dias, Leão e Vovô vão se enfrentar três vezes. E para tentar mudar essa realidade negativa que vem das arquibancadas, as torcidas organizadas dos dois clubes buscam dar um pontapé inicial para mudar essa realidade.

Está cada vez mais comum os encontros entre as maiores torcidas organizadas do Estado, em dias que antecede um Clássico-Rei. Segundo o presidente da Cearamor, 'Jey', a finalidade desses encontros é mapear pontos de brigas e confrontos entre torcedores rivais. "Antes do primeiro jogo entre Ceará e Fortaleza, participei de uma reunião com os representantes da TUF, Mofi e JGT. Propomos levar a discussão para as lideranças de torcidas de alguns bairros da Capital. O objetivo foi mapear os pontos críticos que a gente acha que possa ter confrontos e repassar para a Polícia Militar", explica. De acordo com Jey, a ação foi bem sucedida, já que o registro de confusões no último no jogo entre os maiores times da Capital foi mínimo. "Pedimos que a Polícia trabalhe em parceria conosco para tentar punir de fato os vândalos", acrescenta ele.

Integrante da TUF, Reinaldo Bruno, reitera essa ação e diz que as torcidas organizadas não podem pagar o preço.

"Ocorre que a vagabundagem se infiltra na torcida. Eles não estão no dia a dia da gente. Nós vamos para o estádio para fazer festa e apoiar o nosso time. Esses encontros com as maiores torcidas do Estado são importantes para tentar eliminar esses baderneiros", conclui.

Diário do Nordeste -Eduardo Buchholz/Wilton Rodrigues
Repórter/ Especial para o Jogada

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